Lia - Capítulo 61 | Jornal Plural
5 ago 2020 - 11h39

Lia – Capítulo 61

Onde Lia tem de lidar com ser Lia

Parada na porta do quarto, encostada ao batente, cansada, xícara de chá fumegando na mão (camomila). Com a pouca luz da lâmpada fraca do corredor ainda assim podia ver a forma na cama pequena. Com a pouca luz que por sorte era refletida pelas paredes brancas. Com a pouca luz que ainda assim tinha que contornar seu corpo à porta. Não o suficiente para gerar uma sombra na menina adormecida, mas o que bastava para fazer dela, mulher parada à porta, uma sombra de corpo inteiro recortada contra a parede branca do fundo.

Já a outra, a menina na cama, esta sim tinha sobre si uma sombra em negativo, o recorte do requadro superior direito do umbral. Pedaço de retângulo mais nítido que traça uma linha reta sobre os cobertores, separando a cabeça iluminada do restante do quarto que restava no escuro.
A menina estava adormecida há horas. Na mesmíssima posição em todas as ocasiões em que a mãe veio até a porta e a entreabriu de leve para verificar. Nenhuma precaução. Nenhum motivo de preocupação. A menina tinha saúde e dormia bem. Profundamente. Mão esquerda em concha posta bem à frente do rosto. Bochecha redonda e lisa como nunca mais. Fios de cabelo fino desregrados pela cara.

Um adulto visto quando dorme pesado é incômoda lembrança do cadáver que se prepara.

A mãe dessa vez, talvez a última, abriu de vez a porta para encostar ali e passar alguns minutos olhando a filha. Respirando, sem perceber, no mesmo ritmo da pulsação do corpo da menina sob os dois pesados cobertores. Fazendo força e vez por outra conseguindo ouvir (ou teria imaginado) o ruído leve, delicado e precioso do ar que entrava gélido e saía morno do corpo adormecido da menina.

(Num quarto em que nada se move, o registro das perturbações causadas pelas ondas de ar quente que saíam das narinas da menina, subindo imediatamente em torvelinhos confusos e deslocando massas pequenas de ar frio pelo caminho, geraria um mapa de arabescos semelhantes aos que decoravam certas contracapas de livros antigos, ela poderia ter pensado, se pudesse ter pensado. Uma dança de espíritos benévolos que quase tangiam o corpo da menina, epicentro.)

Ela olhava a filha, bebia seu chá. Sentia o calor descer pelo seu corpo e subir, menos calor, no vapor que lhe vinha da xícara. Cheiro perfeito.
Eu sei quem você é. Você ainda não sabe. Vai passar os próximos anos achando que sabe até descobrir a verdade. E depois vai precisar de muitos mais pra passar a uma outra verdade qualquer. Vai ser difícil, especialmente porque você ainda não vai ter a clareza do quanto não precisa ser difícil. Você vai menos aprender a ser você do que aprender que aprender a ser você não é doloroso. Mas, enquanto isso, vai doer sim, minha filha. Vai doer por motivos que nem eu nem você podemos ver daqui. Mas vai doer também por você ser quem você é, como você é, perdida e descomposta como todo mundo, mas de maneiras também só tuas. Vai doer por motivos que só eu posso ver daqui.

Você, dormindo, lembra tanto o teu pai.

Mas durante o dia, atenta, alerta e animada, você de vez em quando faz umas caras em que eu me vejo com uma precisão tão completa que até me assusto. Me espanta.

Eu sei que você tem tanto de mim. Eu sei que você tem de mim inclusive certas partes que vão te causar essa dor. Certos problemas que você vai demorar até pra perceber. E nunca vai contar pros outros, porque nunca vai contar com os outros. Esse é um dos problemas, afinal.

Eu vejo com uma clareza lancinante as partes de você que estão aí ainda em germe, mas estão aí quase que só pra atrapalhar a tua vida.

E exatamente por ver tudo isso.

E exatamente por ter tantos anos mais que você de contato com elas.

E exatamente por saber exatamente em que pedra você vai tropeçar.

E quando.

E quanto…

Eu sei que não posso fazer nada. Nada além de fechar essa porta bem devagar. Pra essa luz não te acordar. Pra esse estrondo não te perturbar.

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