Lia - Capítulo 40 | Plural
21 out 2019 - 22h32

Lia – Capítulo 40

Onde duas mulheres passam por um momento importante, cotidiano: importante.

Lia tem os olhos fixos à frente. Como se não estivesse consciente de nada. Como se estivesse profundamente concentrada em algo que não se pode determinar. Aqui e não aqui. Deste mundo e de outro.

O pente, enquanto isso, desliza cada vez mais fácil pelo cabelo fino, longo, um tanto fosco. Atrás dele vêm por vezes os dedos, separando mechas, afagando, roçando leves a pele da cabeça onde por vezes também descansam, mão sobre o topo do crânio, enquanto os dentes percorrem os fios.

É uma experiência estranha. Agradável, íntima, rara e vazia. Algo de importância quase nula frente ao que de fato se anuncia para os próximos tempos. Para o que ainda há de passar por aquela cabeça, para o que ainda hão de sofrer esses cabelos. Mas é difícil negar o que há ali de animal. De uma conexão direta entre os dentes duros do osso do pente e os fios mortos do cabelo de um mamífero, pelos.

São somente as duas, num quartinho diminuto. Uma cadeira ao lado da cama. Espelhinho pendurado na parede. Somente as duas com seus olhos ausentes, entregues ao ritmo das passagens do osso por entre os pelos, do pente com seus dentes no cabelo. Talvez alguma delas, possivelmente até as duas, esteja consciente, no silêncio daquele fim de tarde, no canto do apartamento que fica mais longe da rua, mais contido e protegido dos ruídos… talvez alguém ali se dê conta do leve som que o pente gera ao roçar os fios de cabelo e, vez por outra, ao romper algum nozinho.

Como que hipnotizante.

Está certamente uma delas (talvez as duas?) consciente do quanto aquele momento representa de excepcionalidade na sua mais-que-perfeita naturalidade. Do quanto aquela situação espelha tantas outras, evoca todo um mundo outro, representa tanto, e tanta coisa, embora seja no fundo a mais banal das ocasiões na vida de mãe e filha.

Ainda há um resto de sol.

Ainda existe alguma luz.

A lâmpada do quartinho está apagada, e não precisa ser acesa. Ainda não. Ainda não é hora de tomar essas providências.

O cheiro do cabelo é tão bom. Tão limpo. Xampu de bebê. Deixa eu cheirar mais de perto.

Ao menos uma delas sabe o que de triste existe naquele momento, o prenúncio de tempos em que nem mesmo esse gesto, essa tranquilidade há de imperar na relação entre as duas, e na vida da cabeça que agora fica ali tranquila, afagada pelos dentes rombudos. Mas precisamente por saber disso é que ela mais aproveita. Mais nega pensar no futuro e mais se concentra em nem se concentrar. Em ser como a outra. Em simplesmente estar ali. (E está?)

A luz já vai sumindo.

O barulho do pente, no silêncio do quarto, vai se fazendo mais alto.

Há pelo menos uns três minutos já não existe mais necessidade de se pentear aquele cabelo, liso, que não pode ficar mais perfeito. Nada ali tem como ficar mais perfeito do que esteve nestes últimos três minutos.

Ela agora guarda o pente no bolso de trás de calça. Passa as mãos delicadas mas firmes pelos cabelos, da testa para trás. Uma vez. Mais uma. Vê no espelho os olhos que se fecham quando sentem a pele das palmas no rosto. Na testa.

Puxa do pulso o elástico grosso e, no mesmo gesto de tirá-lo dali, prende com ele o cabelo que contém com a mão. Uma volta. Mais uma.

Ela respira fundo e também fecha os olhos por um mero segundo. Se abaixa, dá um beijo no topo do crânio da mãe (que cabelo cheiroso… xampu de bebê), que de olhos ainda fechados tem agora um fio de saliva escorrendo do canto da boca.

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