Lia - Capítulo 35 | Plural
16 set 2019 - 21h04

Lia – Capítulo 35

Onde Lia aprende o sentido da vida

Você sabe que, minha filha… sabe que muita gente já disse isso. Que tudo, tudo, tudo das religiões todas… tudo mesmo. Tudo pode ficar resumido numa coisa coisa só. Só uma coisa. Você acredita? Eu acho um milagre.

Na religião dos judeus, na nossa, nas outras todas. Todas as outras também. Em todas as religiões que o homem já teve. Só uma coisinha. Você sabia? Não é um milagre, minha filha?

(Lia não tinha ideia na hora, e agora não consegue reconstruir um motivo, do motivo de Dom Albano ter calhado de ficar sozinho com ela naquele momento. Na sala cheia de gente. Ela pequena. Ele velhusco. Uns olhos de uma candura…)

Porque, veja só. Pense aqui comigo. A nossa Bíblia é um livro grande. Cheeeio de histórias. Cheio de ideias. Imagine? Um dia você vai ler o livro todo, e você vai encontrar toda sorte de ideias interessantes. Vigorosas. Bonitas e tristes. Tocantes. Toda sorte de ideias. E se você fosse ler os livros dessas outras religiões, minha filha… ah, tem tanta coisa bonita ali também. E tanta coisa, acima de tudo. São uns baús do tesouro, esses livros. Tanta coisa…

Mas muita gente… muita gente mesmo já disse que esses livros todos, com todas essas histórias… que era possível resumir tudo isso a uma só ideia. Em todas as religiões. Você quer saber qual ideia, querida? Uma ideia só!

(Lia mal entendia do que ele estava falando. Não podia entender. Mas sabia que devia prestar atenção. E fazer que sim com a cabeça.)

Só faça aos outros o que você queria que fizessem a você. A regra de ouro, eles dizem. Ama o próximo como a ti mesmo. Dê o que você espera receber. Mas sempre dê antes. Isso que é importante. Faça. É uma maneira de agir, sabe, filha. Não é uma coisa a se esperar parado num canto. É uma regra de vida. Pra tua vida inteira, mesmo você assim criança. Mesmo no parquinho da escola. Seja o que você quer que o mundo seja. E eu acho bonito. É mais fácil lembrar uma frase só, não é mesmo! Só uma frase simples. Mais fácil do que lidar com esses livrões imensos!

Mas…

(E aqui ele se aproximou mais dela, arrastou a cadeira pelo chão de madeira. E com um olhar meio jocoso, conspiratório, inspecionou a sala em volta. Mesa, comida, pessoas, cadeiras, cortinas: cadáver.)

Eu já vivi bastante. Bastante mesmo. Você nem consegue imaginar quanto, minha filha. Nem consegue. E às vezes eu acho que até essa frase pode ser grande demais pra eu lembrar. Ou complicada demais. E às vezes eu fico pensando. Complicada demais… Se é pra você ser o que você espera do mundo, em vez de ficar só esperando… Ser de uma vez… a pergunta é o que a gente espera do mundo?

Eu, aqui, velho. Cansado. Você, menina. Dona Clecy ainda ontem, falando comigo na igreja.

E eu li bastante na vida. Li de tudo. Li por todo lado. Porque eu acho. Realmente eu acho, minha filha. Que Deus é um só. E as religiões todas são caminhos diferentes. Até pra quem não acredita em Deus. Todo mundo tem a sua religião. Tomara… Mas não conte pra todo mundo que eu penso isso. Melhor não contar!

(Ele estava sorrindo. E ela, a essa altura, perplexa ainda, começava talvez a entender sem entender.)

E sabe o que é que a gente espera, ou devia esperar que o mundo fosse? E sabe que todas as religiões de novo dizem mais ou menos a mesma coisa? Desse objetivo, filha? Dessa coisa que está por trás até da regra de ouro?

Os budistas chamavam de maitri, os judeus de chesed, os gregos de agape, os latinos de caritas, os muçulmanos de ishq… e todos eles acharam que se você olhasse bem no fundo do mundo, por trás da realidade, do sonho, da vida e da morte… era isso que era o sentido. Era isso que era Deus.

Mesmo acima de Deus.

(Novo olhar conspiratório pela sala. Dona Clecy parecia reprovar aquela conversa.)

Mesmo acima de Deus, filha. Acima de tudo.

Nós…? Nós chamamos de amor.

Pode trocar tudo, querida. Pode trocar até a regra de ouro por essa ideia. Seja amor. Só isso. E pronto!

(Lia certamente era nova demais para entender de verdade o que o padre lhe disse naquele dia. Era ainda nova demais para entender quando ele morreu, anos depois. Mas nunca esqueceu. E do seu jeito nunca deixou de tentar. Nunca deixou de tentar tentar. Lia morreu nova demais.)

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