Para prefeitura de Curitiba é proibido aglomerar, mas se quiser pode | Jornal Plural
27 nov 2020 - 10h23

Para prefeitura de Curitiba é proibido aglomerar, mas se quiser pode

São 9 meses dando bronca em live sem fiscalização. Adiantou?

Não sei você. Mas eu já estou cansada de ver aglomeração, desrespeito aos protocolos da Organização Mundial da Saúde e absolutamente zero ação efetiva da prefeitura de Curitiba e do governo do estado. Estou cansada de tentar ligar para o número 156 para denunciar aglomerações e ver que a fiscalização foi 30 dias depois verificar a ocorrência e disse que não tinha nada. De ligar para polícia e para a Guarda Civil e eles por meses responderem que não poderiam fazer nada, só se fosse “perturbação do sossego”. Que sossego é esse ver parques, praças, comércios e festas completamente irregulares, sem qualquer orientação, fiscalização ou punição?

Depois da última viralização de uma festa lotada de gente apinhada, dançando em uma casa de eventos em plena Avenida do Batel, a prefeitura soltou novamente, como já fez outras vezes, notícias sobre as fiscalizações. Neste último final de semana, houve uma grandiosa fiscalização que vistoriou a exorbitante quantia de 24 estabelecimentos, todos em bairros fora do eixo central. Curitiba tem 75 bairros. 14 mil bares, restaurantes, cafés. 50 mil comércios. 150 mil CNPJs. Faça as contas. E isso sem falar dos locais públicos, como parques e praças, que a matéria ignora.

Nenhuma vez que liguei para denunciar qualquer aglomeração ou irregularidade durante a pandemia, aconteceu de eu terminar a ligação satisfeita com o que feito. Já perdi as contas de quantas vezes denunciei. Nunca, absolutamente, nunca resultou numa ação efetiva.

Desde março tem um estabelecimento específico aqui nas imediações da minha casa que sempre aglomera absurdamente. Eu já liguei 3 ou 4 vezes para denunciar. Outros vizinhos já ligaram muitas vezes. Soube por colegas que eles sofreram mais de dez fiscalizações. Bate a fiscalização, no dia seguinte estão lá eles abertos e aglomerando normalmente. Algo não está certo.

Usuários continuam se aglomerando nos ônibus. Crédito da foto: Plural.jor

Enquanto isso, negócios que cumprem os protocolos são “punidos”. Funcionar com restrições e respeitando os protocolos de verdade significa vender menos. Mas se não acontece nada com quem não respeita, que incentivo temos para continuar se sacrificando? O mesmo acontece no âmbito pessoal. Cenas como a da balada no Batel revoltam pelo egoísmo dos protagonistas, mas o maior culpado é quem deixou e continua deixando aquilo acontecer bem às vistas de todos.

Tem um meme muito antigo na internet de um coreano, em um fórum online, revoltado com a cultura brasileira. Em um print muito famoso, ele reclamava do jeitinho brasileiro de viver com a epítome: “crime ocorre nada acontece feijoada”. São meses de pandemia ocorre, aglomeração ocorre, nada acontece, feijoada.

É revoltante ver pessoas se expondo ao risco de contaminar um amigo ou familiar, que pode acabar numa UTI, ou até mesmo morrer em um triste velório solitário, para se divertir de maneira descontrolada. Comércios irregulares, festas clandestinas, bares entupidos. E a resposta, talvez mais natural a essa situação, é sentir uma decepção com a falta de humanidade das pessoas. Eu a sinto muitas vezes.

É um sentimento natural, eu acredito. Mas ele infelizmente tira da mira a responsabilidade objetiva do poder público de criar políticas públicas para enfrentar a pandemia. E a prefeitura sabe que as pessoas sentem essa revolta, então há meses eles repetem a mesma toada, um misto de “os jovens não respeitam” com os “bares abusam”, ou seja, qual ou quem foi o culpado da vez. Generalizar é mais fácil que fiscalizar. Generalizar é fácil para dar bronca na live, difícil é ir lá enfrentar o aglomerador.

Quantas vezes você já passou por algum parque ou praça lotados e viu uma viatura da polícia ou da Guarda Municipal parados fazendo sabe deus o quê, que não algo sobre a aglomeração evidente? Eu já vi a mesma cena tantas vezes que comecei a apelidar de “Patrulha da Aglomeração”, que é o destacamento policial preparado para ver se as pessoas estão se aglomerando em paz direitinho mesmo. Essa patrulha eu vejo sempre.

Márcia Huçulak, secretária da Saúde, e o prefeito Rafael Greca.

Há muitos meses o prefeito de Curitiba, Rafael Greca (DEM), diz com orgulho que nunca fez um lockdown na cidade. Chegou a veicular um vídeo durante a campanha eleitoral dizendo que lockdown após as eleições é fake news. E ele não estava mentindo. Lá no início, muitos negócios fecharam para contribuir de maneira espontânea com o momento que a cidade passava. Uma notícia da época mostra que pelo menos 500 restaurantes fecharam temporariamente mesmo que não houvesse restrições. A notícia não fala de outros tipos de estabelecimentos, mas é fato que espontaneamente muitos decidiram fechar.

Por não conseguirem acompanhar o emaranhado de decretos, as pessoas imaginam que havia uma restrição severa. Nunca teve. Lembro de ver carros dos bombeiros passando na Avenida República Argentina dizendo para as pessoas ficarem em casa. Mas durou bem pouco aquela cena.

Eu mesma fechei meu bar durante 8 meses para atendimento presencial por escolha e sofri as agruras que todos meus colegas do segmento enfrentaram de transformar, do dia para noite, um restaurante em delivery ou e-commerce. Taxas altíssimas e uma concorrência injusta, meu espaço não foi pensado para delivery. Eu pago aluguel mais caro, tenho uma equipe maior e concorro por igual com outros locais que negociam taxas mais baratas e tem prioridade no algoritmo dos aplicativos ou investimento em estratégias de aparecer primeiro nas buscas.

Quando eu ouço o prefeito dizer com orgulho que nunca fez um lockdown, como se fosse um grande feito da sua gestão, eu me revolto. Se nossa primeira onda foi menor, se é possível dizer que houve ondas no plural e não só uma longa onda, foi porque a sociedade, CPFs e CNPJs, se propuseram a fazer sacrifícios. Mas ao fazerem sacrifícios solitários, sem uma liderança que impusesse restrições, fiscalizasse, educasse e engajasse, os sacrifícios foram louváveis tentativas individuais. E depois de um tempo, ninguém aguenta carregar essa cruz solitária.

O poder público aponta o dedo para você, nunca para si mesmo.

Ao invés de enfrentar as pressões, que afinal de contas é o mínimo que se espera de qualquer líder, eles nunca tiveram coragem de fazer restrições e enfrentar a situação, impondo um lockdown severo, breve e eficaz. O plano era apostar no “bom senso” do curitibano, no “modelo sueco” que a própria Suécia abandonou. Enquanto o prefeito evitava se expor e tratar do tema, a secretária da Saúde fazia lives semanais para dar broncas na garotada que não respeita.

São quase 9 meses de broncas semanais da secretaria da Saúde e restrições patéticas. O que dizer da “quarentena de domingo”? Ou da restrição de estar aberto depois das 23h? Decerto é o horário que o vírus fica cansado e resolve não contaminar mais ninguém e ir para caminha descansar. Será que em nove meses vendo que confiar no bom senso não deu certo, não dava para ter planejado uma campanha melhor de conscientização? Não dava para ter um plano de ação para dar sanções a locais privados que não respeitam os protocolos que tivesse um resultado? Será que não dava para olhar o que foi feito de errado na primeira onda e se preparar para uma nova?

Quando foi que ficar dando bronca em live teve realmente algum resultado nesses últimos meses.

Uma nova onda de fechamentos, mesmo que daquele jeito Greca, no final de semana, no domingo, dos bares, sabe lá como vai ser, mas é improvável que não aconteça, vai ser devastadora. Houve tanto tempo para se planejar melhor e corrigir os erros da pandemia.

O que houve foram só escolhas de qual segmento prejudicar, qual história contar, para que outros pudessem lucrar e não buzinar na frente da casa do prefeito. O que era certo e justo era que todos os segmentos verdadeiramente não-essenciais contribuíssem da mesma forma para que os prejuízos de todos fossem menores e mais breve possíveis. Aqueles segmentos que foram mais afetados, receberem um olhar especial e um suporte financeiro digno. Gestão pública, sabe como? E o ônibus aglomerando com horário reduzido (oi?), com suporte financeiro da prefeitura e dos seus impostos sem qualquer controle. Mas os jovens, né…

A reabertura da cidade que nunca fechou foi feita no berro. Foi reclamar? Vamos tirar a restrição então. Assina aqui um termo de responsabilidade que a culpa é sua tá? Foi assim com as academias. Saíram do protesto com um termo de responsabilidade. Como se alguém, senão o poder público, pudesse se responsabilizar por uma pandemia. Ou como se aquele segmento que foi lá berrar pudesse realmente garantir que todos iam cumprir regras razoáveis sem uma fiscalização atuante. Sempre tem um espertinho e é papel do Estado lidar com eles.

Isso sem falar no sistema de bandeiras. A ideia deveria ser um decreto padrão para cada cor planejado para cada fase do enfrentamento da pandemia. O sistema é tudo menos isso. Cada vez que muda a bandeira, muda também o decreto inteiro, que vai emagrecendo. A bagunça é tamanha que as regras que mudam o tempo todo não são amplamente conhecidas. No decreto atual, é vedado o funcionamento após as 23h. Passo a minha saideira às 22h30. Às 23h, levamos a conta na mesa, que é recebida sempre com um olhar de espanto do cliente. E lá vamos nós explicar o decreto que a prefeitura não faz questão de explicar.

As campanhas de conscientização, essenciais nesse momento, são de uma falta de qualidade publicitária. Com todo respeito aos profissionais, mas dá para fazer muito melhor. E de tudo que eu vi, posso dizer com certeza que não há mensagens muito incisivas sobre denúncias. Talvez seja porque o cidadão que denuncia se depara com a total ineficiência da gestão da pandemia. Então deve ser melhor não incentivar a pessoa a pegar o telefone para se decepcionar. Melhor deixar no imaginário, assim dá para continuar culpando os jovens e ver se a narrativa fácil cola.

A falta de fiscalização de verdade é um prato cheio para impunidade. Todo mundo já sabe. Só faltou chegar essa informação no Palácio das Araucárias e no do Iguaçu.

Enquanto uns choram outros vendem lenço. E pelo visto, vão deixar muitos, muitos chorarem para que alguns poucos possam vender o lenço. E quem chora ou não tem lenço pra vender que lute contra a pandemia.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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