Quase tudo dá 3 | Jornal Plural
6 ago 2020 - 21h43

Quase tudo dá 3

Somos a representação física e psicológica do n.° 03

Como forma geométrica, palavra ou número, o triângulo é um dos grandes signos que criamos e que permeia nossa vida do início ao fim. Sendo possivelmente o mais famoso triângulo do nosso tempo, a Santíssima Trindade é conceitualmente perfeita: constituída de um Pai, seu Filho e um Espírito Santo. A Trindade propõe 03 consubstâncias místicas em um só ser. Também é possível entender a tríade como sendo o “início, o meio e o fim”, ou “o corpo, a alma e o espirito”.

Não vamos esquecer da trindade mitológica anterior, que definiu o tabu do corpo com o pecado original: Adão, Eva e a Serpente. 

Para Freud, o pecado original era saber que o ser humano não tinha acesso a si mesmo.

Pecado Original (1479), pintura de Hugo van der Goes.

Descobrindo o Inconsciente (o Pré-consciente e o Consciente), e logo seguida os famosos Id, Ego e Superego, Freud não só formula o alicerce conceitual da psicanálise, como cria palavras novas com significados desconcertantes, que pertencem ao cotidiano de todos nós há décadas. Palmas para Freud.

No contexto da tríade, Freud continua a contribuir com o imaginário (e reflexão), ao resgatar a história grega de um triângulo amoroso emocionante: Édipo (filho) mata Laio (o pai), e casa-se com Jocasta (mãe) e criar o famoso conceito “Complexo de Édipo”.

O neurocientista americano Paul D. MacLean desenvolveu na década de 1970 a Teoria do Cérebro Trino. MacLean demonstrou que a neuroanatomia humana é composta de 03 cérebros: reptiliano, límbico e córtex. Somos bichos com emoção e (às vezes) razão. Darwin iria adorar esse estudo.

Lembrando também que o número 03 é a soma das partes constituintes do corpo humano: cabeça, tronco e membros.   

O número 03 está em nós. Nascemos de 01 pai e 01 mãe, portanto somos a 3.ª parte dessa relação: a “consequência”, o “resultado”… um “presente”; variará de acordo com o contexto familiar. No misticismo judaico-cristão temos o pai, o filho e um espírito que os liga. Um triângulo inquebrantável. No triângulo constitucional primário (família), nada garante que irão ficar juntos para sempre. São conceitos e realidades que um ponto não encontra o outro.

Somos a representação física e psicológica do n.° 03.

Toda família possui seu pódio (explícito ou velado). A regra sempre é de 03, sendo assim um 4.° filho, em alguns casos, fica fora do “pódio familiar”, ou é alçado ao 3.° lugar, destituindo o(a) primogênito(a), pela mãe geralmente.

A tríade Psicologia, Psicanálise e a Psiquiatria estão aí com seus registros de casos sobre esse comportamento destrutivo de algumas mães, e o estrago na cabeça dos filhos e agregados.

Do místico (Deus) para o inconsciente (Homem), e transitando pela família (Reprodução biológica, psíquica), uma pirâmide se fez.

O nome trabalho vem do instrumento de tortura tripalus (ou tripalium), “três paus”. Se fosse originário do trevo de quatro folhas, provavelmente uma das folhas cairia. É historicamente recente o conceito de trabalhar sem apanhar, pelo menos na literalidade.

O pódio das competições esportivas é um autêntico triângulo, onde os 03 primeiros (e efêmeros) colocados receberão os merecidos louros.

Uma outra representação do triângulo, e do número 03, são as trindades amorosas. Algumas notórias tríades intelecto-sexuais: Lancelot + Guinevere + Rei Artur; Anäis Nin + Henry Miller + June Miller; e Paul Rée + Lou Salomé + Nietzsche.

Lou Salomé, Paul Rée e Nietzsche.

Na tela As Três Graças, de Rafael (1504), vemos as irmãs Eufrósia, Talia e Aglaia nuas, uma maçã vermelha em cada mão, plácidas. Nessa exímia composição, o pintor homenageia a beleza feminina (e a estética grega) através das 03 filhas de Zeus, incorporando um signo já bem difundido… a maçã do pecado original. A maçã corrompe a pureza das irmãs que teceram o manto da deusa Harmonia. Uma provocação velada, um sincretismo entre o corpo nu e valorizado dos gregos e o veneno que produziu a castidade. Uma tela profana.

Na Grécia imemorial, a direção da vida era observada pelas Moiras, as irmãs Cloto, Láquesis e Átropos, que respectivamente elaboravam, teciam, e por fim, o fio da vida dos seres humanos. Para os romanos eram as Parcas, e seus nomes eram Nona, Décima e Morta.

As Moiras (1885), obra de John Melhuish Strudwick.

Na conjugação verbal, as 03 primeiras pessoas, com suas singularidades, definem a importância da ferramenta gramatical: Eu, Tu, Ele(a). Além do tempo verbal, vivemos o passado, o presente e futuro, em um só momento… o agora.  

Os 03 pilares da democracia: os poderes executivos, legislativo e judiciário, compondo um autêntico triângulo de regulação social, político e econômico. Possivelmente é o triângulo amoroso que mais produz traições entre seus componentes.

Todas essas representações enriquecem as tentativas de compreensão do sentido de sermos apenas partículas da poeira das estrelas.


Até a semana quem!

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