A mulher solitária e selvagem | Jornal Plural
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30 jul 2020 - 19h52

A mulher solitária e selvagem

Artista argentina traduz com perfeição a chave para sobrevivência em sociedade

A arte do grafite é tão antiga quanto a história da humanidade. Das pinturas rupestres chegamos ao Império Romano, onde o grafite assumiu a posição de importante ferramenta de comunicação urbana e marginal, para ricos e pobres: declarações de amor, insultos, provocações, lamentos, informações sobre lutas, cobranças e propagandas políticas eram grafadas (rabiscadas… grafitadas) nos muros, paredes e colunas das cidades. Uma maneira do povo ter “voz”, numa era em que o conceito de liberdade de expressão era desconhecido. Desde o começo dos tempos, o grafiteé uma expressão originalmente corruptora, fora da lei; demorando séculos para se tornar uma verdadeira experiência estética (e possivelmente a última expressão original na história das artes plásticas).

Dos tempos imemoriais chegamos ao presente momento, tendo o grafite sido assimilado pela sociedade como um tipo de arte (urbana), acessível aos olhos e compreensível para todos. Dos muros nas periferias (subúrbios) às regiões centrais das cidades, o grafite pode tanto apresentar mensagens políticas elaboradas, quanto ser um desenho colorido e ingênuo. Foi em 1971, quando o New York Times publica uma entrevista com o adolescente nova-iorquino de 17 anos autodenominado “TAKI 183”, cujo trabalho ele nomeia como graffiti, que a história dessa arte plástica se firma na contemporaneidade.

A artista argentina do grafite Tamara Djurovic, conhecida como Hyuro, é uma das pérolas de nosso tempo. Seu trabalho lida com assuntos caros para qualquer pessoa: o corpo feminino como identidade individual e coletiva na sociedade.

Entre tantos trabalhos realizados em mais de 10 anos de carreira, um merece atenção especial nesse artigo; o executado em 2012 (sem título) na periferia de Atlanta (EUA). A artista produziu um grande painel num ritmo quadro a quadro, uma narrativa original apresentando a personagem: mulher nua (pintada em tamanho natural) que se veste de lobo (experimenta ser, ou retorna às suas raízes animalescas e predadoras) e logo em seguida desnuda-se novamente, liberando o lobo que havia nela. Este fazer/ desfazer atesta o caráter social e psicológico do trabalho.

Já dito várias vezes, a mulher é o grande fetiche das artes plásticas, vimos isso nos artigos sobre Staël, Hopper, Bellmer e agora Hyuro. O corpo nu na pintura serviu tanto para consagrar padrões de beleza e pureza idealizados numa cândida mulher, quanto para suscitar furor, aflorando tabus e preconceitos sociais. Da Renascença até Hyuro, temos uma centena de exemplos.

A artista argentina pinta um desabafo feminino, “em mim existe quem realmente sou, e quem eu apresento ser. Para mundo da sobrevivência, me visto como um ser que me dá força e agressividade. O lobo é meu arquétipo, meu protetor. A cada tempo o deixo ir, para que eu possa respirar sem as máscaras sociais”, diria a personagem de Hyuro.

O lobo no feminino da personagem de Hyuro não é o de Isabeau de Ladyhawke. É uma prisão para o consciente, uma ferramenta adaptativa (e de proteção) na realidade das relações sociais.

Desde tempos imemoriais o lobo é o animal que mais se relaciona com o feminino, o transmitindo força, poder e fertilidade. É imperativo a necessidade (ainda que metafórica) da mulher proteger seu corpo com outra pele, diante da violência masculina escancarada em nosso país.

“O corpo humano jamais poderá ser uma coisa entre as coisas e, nesse sentido, a relação do homem com seu corpo nunca será objetiva, mas carregará valores. O corpo nunca é dado ao homem como mera anatomia: o corpo é a expressão dos valores sexuais, amorosos, estéticos, éticos (…) ”, escreveram as filósofas Maria Lúcia Aranha e Maria Helena Pires.

O valor do corpo feminino pintado de Hyuro é ser realista, uma representação não possuidora de sensualidade, nem erotismo. É uma narrativa infinita enquanto a vida acontecer. Se a Afrodite de Cnido apresenta uma deusa nua como símbolo estético e de veneração em IV a.C, uma mortal nua de nossa época pode ser a representação da frágil humanidade em sua totalidade.

“Não me considero uma feminista militante. Minhas escolhas de vida me fazem feminista, mas isso não significa que todos os meus trabalhos estejam focados nelas. Sou mulher, mãe, dona de casa, amante, amiga e profissional, é desse conjunto de papéis que surge a maior parte da minha inspiração. A ideia de ‘mulher’ desempenha um papel importante no meu trabalho, não apenas pelo status de gênero, mas também pela condição humana. É o papel que eu conheço melhor e do qual posso falar com mais honestidade”, disse a artista.

As ruas são artérias pertencentes a um organismo vivo maior, que são as cidades, onde tudo pulsa. A arte de rua é profana, nela tudo pode: dessacraliza o museu, a galeria de arte, os intelectuais do circuito; ao mesmo tempo que os fornece material/artistas para que possam continuar a ter relevância como intuições formadoras de opinião.

O muro cerca, protege, divide, promove oração, guerra, morte, e muito grafite e pichações. Sempre importante diferenciar o grafite, que é uma pintura consentida ou não, em espaços sociais, sob qualquer tipo de estética e tema. Já a pichação é uma ação política no entorno. O bem público/particular não possui representação positiva, é algo sem valor. A grosso modo, o grafite embeleza a decadência, e a pichação enfeia o progresso.

Hyuro é uma artista que possui discurso elaborado, coerência nos temas escolhidos e primazia no seu fazer.


Até a semana que vem!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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