A crônica família | Jornal Plural
31 jan 2020 - 13h20

A crônica família

Somos um povo latino-americano que vive para a família, para os nossos

Nos últimos dias revi quatro filmes que têm a família como tema central: Mamãe faz 100 anos (de Carlos Saura – 1979), Parente… é Serpente (de Mario Monicelli – 1992), Footnote (de Joseph Cedar – 2012)  e a obra-prima, o belíssimo Interiores (de Woody Allen – 1978).  Juntos formam um amplo e realista espectro de conflitos no seio das relações familiares. Com despretensão e fugacidade, dou minha contribuição para o tema a partir de hábitos conhecidos por todos.

As palavras “casa” e “família” são sinônimos na gramática brasileira, representando a base dos laços afetivos hereditários e patrimoniais, que indicam rumos, interesses e ventura dos integrantes dessa estrutura nuclear. A casa/família é mãe primordial de qualquer sociedade, foco de harmonia e desarmonia em seu contexto público e privado. Estou falando aqui da família judaico-cristã-sincrética brasileira, seja hétero ou homotransafetiva. Família é família.

Somos um povo latino-americano que vive para a família, para os nossos. O afeto (genuíno ou mimético) é um bem e uma segurança, um PIB familiar.

Um exemplo arraigado. A parentela cumpre anualmente um extenso calendário de ritos e comemorações. São datas significativas no âmbito pessoal, religioso e comercial, tendo o objetivo principal (acreditamos que sim) fomentar a união e paz (muitas vezes compulsória) de seus entes, bem como recuperar as lembranças geracionais, e não menos importante, a troca de agrados e presentes.

Nas situações mais prosaicas é possível observar as discordâncias, os conflitos, o “não dito”, as proibições no interior da família.

Com olhares fixos, fugidios, caretas inofensivas, sussurros aqui e ali; o clã demonstra para si que algo está fora do lugar. Mesmo assim as tradições são cumpridas à risca. São compromissos obrigatórios e exigem a submissão de todos: casamentos, batizados, aniversários, chá de bebês, enterros…. Dia das mães, dos pais, das crianças, Páscoa…. O churrasco do final de semana, as festas na escola dos filhos, Natal, Ano-Novo, lentilhas e tudo mais. Sem contar os aniversários dos decanos da família (alguns desses, mal conhecemos).

Com a tecnologia na palma da mão, a relação umbilical exercitada pela família nuclear para com os seus potencializou-se a níveis de “espionagem e controle” 24hs.

Essa maratona parental, muitas vezes sem sentido (palavras non grata no âmbito afetivo familiar), é imposta sob pena de ser malvisto ou até mesmo preterido, caso um dos membros não concorde com tal rito sócio-familiar. Uma observação importante: a palavra “família” vem do latim famulus, famili, que significa “servo ou escravo doméstico”.  

Claro que há exceções; onde a felicidade de estar junto, a liberdade de falar abertamente sem julgamento e a compreensão das diferenças na forma de sentir a vida, se fazem presentes. Entretanto as exceções não produzem grandes filmes como os citados no início desse texto.

Para minimizar os desgastes e o silêncio no seio familiar, os animais de estimação têm um papel fundamental da homeostasia psicológica da casa. Cães, gatos, passarinhos, papagaios, tartarugas, se revezam para receber a atenção de seus donos. Uma possibilidade de equilíbrio entre as necessidades afetivas e a sua situação na composição do grupo, ajudando a manter a sanidade do ambiente em níveis aceitáveis. Há uma sensação de suspensão do tempo, uma falsa sensação de paz, harmonia e compreensão.

Uma alegoria: é o papagaio que rouba a cena, reproduzindo palavras e frases; fragmentos de códigos que os integrantes da família reconhecem como sendo apenas seus, impressionam os convidados, e enche de orgulho os longevos da casa. Uma valorização “justificável”, diante da desvalorização dessa linguagem de adestramento e coerção por partes dos filhos.O papagaio com as asas cortadas, alegrando a todos, jamais encontrará seus pares, sendo dependente por toda a vida de um habitat muito diferente do seu, para a alegria de seus donos.

A casa da família é um espaço composto de emoções e sentimentos silenciosos dos mais variados. É muito comum o pai rivalizar com o filho homem cuja virilidade está em ascensão, ou a mãe invejar   a beleza da filha, e se comportar como uma adolescente grotesca, num continuum de ações que parecem perfeitamente certas dentro do grupo familiar. Situações obscuras como essas são a porta para abusos de todos os tipos, e por consequência, enfrentamentos são inevitáveis. A família nesse ponto é apenas um “seguro de vida ou de saúde” para os mais novos.

Não é óbvio que a emoção predominante entre parentes seja o amor. Todo grupo familiar é ambíguo: amores, ódios e invejas se entrelaçam ao mesmo tempo, e são capazes de enlouquecer qualquer um. O medo da rejeição familiar atrasa ou até mesmo impede aos filhos a terem independência afetiva, e por esse motivo, a financeira. É uma tessitura invisível e tão bem estruturada que tem seu lugar no inconsciente de cada um.

É muito comum que a casa tenha uma sólida hierarquia, estabelecida a partir de critérios como status social, profissão, gênero e idade. E para organizar tudo isso, as “leis caseiras” são criadas e precisam ser obedecidas, a despeito de nossos planos e vontades. Elas objetivam utopicamente nos proteger da rua, da escuridão, dos becos sem saída, no início de nossas vidas.

A segurança fantasiosa da casa, não impede que seus descendentes vivenciem o sexo sem proteção, netinhos fast-food, drogas e delitos variados. Em ambientes sectários o desenvolvimento do “afeto bom” é impossível.

O outro lado da moeda é a rua, ambiente crucial para a socialização e construção de afetos e identidade, misturando-se “com a massa” sem compromisso. Ela, como espaço público, é considerada “vida e movimento”, enquanto a casa, o “tédio, de não ter o que fazer” e o centro nevrálgico de tensões. Essa dicotomia dificilmente se desfaz, tamanha a cristalização dos acontecimentos negativos.

A rua é o espaço da sobrevivência, da conquista e do fracasso, da lei formal e informal, de Deus e dos diabos; das mães santas e das putas; “dos pais” anônimos e protetores.  Nesse contexto, a rua mostra-se como salvação física e psíquica.

Hoje é possível constituir família como se desejar, escolhendo seu par com base em similitudes e cumplicidade de valores de vida, que no ideário do grupo de origem não é plausível e sequer existiria tal condição.

Até a semana que vem!

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