Dia 36 - Sandra | Jornal Plural
3 maio 2020 - 20h39

Dia 36 – Sandra

Dirão que estou politizando sua morte. Mas só aqueles que ainda não perceberam que toda morte é política

Recebo uma mensagem da Companhia de Saneamento avisando que vai faltar água no meu bairro novamente. Olho pela janela procurando uma nuvem, na esperança de que eles tenham se enganado. Não se enganaram. Não deve chover tão cedo.

Fecho a cortina, abro o Facebook. Vejo a notícia pela primeira vez: uma pessoa teria sido morta em uma confusão por causa de uma máscara no mercado Condor. Depois, outra informação diz que a pessoa morta não tinha relação com a briga, era uma funcionária do mercado.

Na terceira vez soube seu nome: Sandra.

Também uma informação nova: o segurança do mercado é que teria atirado nela após entrar em confronto com um cliente que se recusava a colocar uma máscara. O tiro não era para ela. Depois a Secretaria de Segurança de Araucária se manifestou: houve um “erro gravíssimo” na conduta do segurança.

Só bem no fim e depois de as câmeras revelarem o comportamento do cliente, o típico empresário-homem-branco, é que foi impossível deixar a culpa só com o segurança e com a fatalidade. Para o empresário-homem-branco a inocência é sempre presumida até que se prove o contrário.

O mercado, cujo dono é também um empresário-homem-branco, um dos recordistas em ações trabalhistas no Estado, “lamentou profundamente o ocorrido”, sem citar o nome de Sandra. A empresa de segurança Protege (ora, que ironia) também “lamentou profundamente o ocorrido”, sem citar o nome de Sandra.

Estou me policiando para tomar mais água, o ar seco começa a incomodar demais. Todo dia a garganta dói e preciso me segurar para não sucumbir à certeza de que estou morrendo de Covid.

Chegamos ao patamar de mais de 400 mortos por dia no Brasil. O presidente reage com a maturidade típica: ameaça encerrar a concessão da Rede Globo e acusa a OMS de promover a masturbação e a homossexualidade em crianças.

Abro novamente a janela e reparo que o vizinho está lavando o carro, como fez anteontem, como fará depois de amanhã. Passo a me perguntar se ele sabe que vai faltar água, se ele se importa, se ele acha que os dados da Sanepar são fake news ou que o racionamento é um plano do PT em conluio com a China para vender mais cães de raça contaminados com o vírus para desmoralizar o governo.

Quando a total imbecilidade chegou ao poder tudo passou a ser permitido.

Se fosse outro governo, outra abordagem, outra estratégia social, não teríamos a idiotização do debate público. Se tratássemos a pandemia com a seriedade devida não haveria gente se recusando a usar máscaras em ambientes públicos.

E Sandra estaria viva.

Dirão que estou politizando sua morte. Mas só aqueles que ainda não perceberam que toda morte é política.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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