28 ago 2021 - 8h30

Um filme para inspirar

O preconceito contra a mulher no ambiente da música erudita está no centro do debate proposto em Antonia: Uma Sinfonia

Baseado na história da maestrina holandesa Antonia Brico, o filme, da diretora Maria Peters, é um deleite sensorial. Dotado de fotografia e ambientação criteriosas, o longa descreve a saga de Antonia, nascida em 1902 e que furou os bloqueios do preconceito no início do século XX para se formar regente pela Academia Estatal de Música de Berlim, tornando-se, em 1930, a primeira mulher a liderar um concerto da Orquestra Filarmônica da capital alemã. Com o título original The Conductor, foi lançado em 2019 e entrou há pouco tempo no catálogo da Netflix.

Camadas musicais

A trilha sonora deste longa é dividida em três camadas possíveis de se analisar: música erudita europeia até o século XIX, temas de jazz do início do século XX e música original composta para o filme. No caso desta primeira camada, as obras foram gravadas pela Orquestra Filarmônica da Rádio Holandesa. Algumas das peças que se destacam são o Libster Jesu, wir sind heir, BWV 731, de Bach, o Romance para Piano e Violino, de Antonín Dvorák, e a inquietante In the Hall of The Mountain King, de Edvard Grieg. Tais obras, somadas a diversas outras, surgem tanto de forma diegética (quando a música que se ouve corresponde àquilo que as personagens estão ouvindo, ou seja, a música faz parte da cena) ou extra diegética (quando somente o público ouve a peça musical). Tais obras foram de fundamental importância para o desenvolvimento da trama, porque afinal de contas correspondem ao material musical que fez parte da trajetória da maestrina.

Na segunda camada estão os temas de jazz cuja sonoridade remete ao início do século XX, época em que o estilo surge nos EUA. No caso dessas obras, as gravações foram feitas por um grupo instrumental específico do gênero, contando com uma base de piano, baixo, bateria e banjo, somada a instrumentos melódicos, como clarinete, saxofone e trompete. Por mais que o filme tenha a música de concerto como fio condutor, os temas populares criam o ambiente perfeito para o desenvolvimento das personagens, até porque estão no centro da sobrevivência de Antonia durante certo período de sua vida.

Por último vem a música original, composta por Bob Zimmerman e Quinten Schram, que fizeram uma boa mescla do material sonoro erudito escolhido, criando uma partitura que remete à época, no entanto, sem deixar de parecer atual. Digo isso porque existe um protagonismo do piano, caracterizado por arpejos, que tem como base uma sólida orquestra de cordas. Essa instrumentação, como se notará ao longo do filme, é bastante presente na vida de Antonia, principalmente nas cenas de concerto, mas devido às sequências harmônicas escolhidas pelos compositores, com ótimos acordes de empréstimo modal que são desenvolvidos por meio do contraponto escrito para as cordas, tem-se a sensação de contemporaneidade. A gravação da trilha original foi feita pela Metropole Orkest, especializada em jazz e temas de filmes.  

Gênero

O filme é bastante eficiente ao discutir questões de gênero, que vão para além do preconceito nutrido pelas pessoas endinheiradas, estivessem elas nos EUA ou na Europa. Lida, ainda, com o debate envolvendo os estrangeiros, o mercado da música erudita e seus exploradores, a relação entre o músico e a economia, entre outros temas, tendo como pano de fundo os impactos causados pela crise econômica de 1929.

Por mais que a narrativa esteja localizada no início do século passado, o preconceito contra as mulheres na música erudita ainda é percebido. O próprio filme traz essa informação, quando relata que Antonia Brico continuou sendo convidada ao longo de sua vida para reger orquestras importantes, contudo, sem nunca ter conseguido uma posição permanente como maestrina chefe. Não termina aí, em 2008, a Revista Gramofone, respeitada publicação do meio, ranqueou as 20 melhores orquestras do mundo e nenhuma delas era regida por uma mulher. Ainda mais recente é a classificação feita em 2017 pela mesma revista, na qual listou os 50 melhores maestros de todos os tempos e, adivinhe só, não havia nenhum nome feminino. O que se nota é que, apesar da bravura de Antonia, o segmento ainda é dominado por homens em todas as suas esferas. A presença de mulheres aumentou entre as orquestras, mas o mesmo não se pode dizer da regência.

Balanço

Misturando-se a atuação envolvente da atriz Christinne de Bruijin no papel principal aos demais ingredientes trazidos no filme, que são temperados por um bem cuidado processo de consultoria em regência e execução instrumental, se fizermos uma lista dos títulos disponíveis atualmente no streaming que têm na música seu foco narrativo Antonia está, sem dúvida, no topo.


Para ir além

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