18 dez 2021 - 8h47

O amadurecimento de Peter Parker

Música do novo longa representa o salto de maturidade do protagonista

Ícone da cultura pop, o atual Homem-Aranha é um personagem que dialoga perfeitamente com o mundo contemporâneo. Jovem, órfão, sem dinheiro, tentando vaga na universidade e descobrindo o amor, Peter Parker personifica a fuga de uma realidade densa que envolve milhões de adolescentes mundo afora. Ocorre que este personagem é o Homem Aranha, não o Garoto Aranha, logo, espera-se vê-lo crescido, maduro. É exatamente este um dos pilares da trama de Spiderman: no way home, que estreou nesta quinta-feira (16) nos cinemas brasileiros e que discute ainda outras interessantes questões, como a hiperexposição causada pelas redes sociais e a rápida e impactante disseminação de notícias falsas, bem como a forma com que estas podem corroer reputações e manipular a opinião pública. Tranquilizo o leitor: não haverá spoilers neste texto, leia sem receios porque vamos falar somente da música. Caso alguma coisa escape e você acabe por decifrar detalhes do filme, creio que será devido ao seu próprio “sentido aranha” ter entrado em ação.

Compositor

A música do longa foi escrita por Michael Giacchino, nome central da trilha sonora nestas duas primeiras décadas do século XXI, cujo currículo contempla partituras como as de Os Incríveis (2004), na qual utiliza a sonoridade das bigbands de jazz com perfeição; Missão Impossível: protocolo fantasma (2011), que tem uma cena incrível na qual um disparo é disfarçado em meio à dinâmica de molto fortíssimo escrita numa partitura; e Up: altas aventuras (2009), sim, aquele tema de partir o coração é dele.

O que se vê no retrospecto do trabalho de Giacchino é o uso eficiente de material musical pré-existente. Em outras palavras, o compositor consegue decupar as principais ideias e aspectos semânticos expostos em outras obras para dar personalidade àquilo que compõe, percebendo a necessidade de se criar relações entre diferentes filmes e, até mesmo, universos.  No caso deste novo longa do Homem-Aranha, estamos diante de um personagem que tem, literalmente, uma diversidade imensa em termos de fios condutores.

Trajetória

Peter Parker já foi protagonizado no cinema por outros dois atores, em universos distintos, até entrar para os Vingadores. Ocorre que, originalmente, o Homem-Aranha consiste num tipo de herói analógico, enquanto que os Vingadores carregam a marca da tecnologia, haja vista a presença de Tony Stark no grupo. Desde que Tom Holland assumiu o papel, já nesta nova fase, recursos narrativos como um fotógrafo freelancer tentando vender fotos feitas de si mesmo, em filme, para um jornal sensacionalista não parecem compatíveis com quem foi ao espaço lutar contra um Titã enlouquecido.

Além do mais, trata-se de uma figura ligada diretamente à cidade de Nova Iorque, o que evoca um tipo de sonoridade para a trilha que tem localização geográfica definida. Obviamente, o cosmopolitismo que exala das ruas e prédios nova-iorquinos serve de licença para dar ao personagem um sotaque que ultrapasse suas fronteiras.

Considerando que a música é um tipo de discurso, que comunica algo ao ouvinte, ao se escrever música para esta figura é necessário ter em mente todo esse contexto. Essa aparente contradição é solucionada por meio do roteiro deste novo longa, replicando-se também na composição musical, porque Giacchino referenciou sua obra no que Danny Elfman elaborou para o filme estrelado por Tobey Maguaire em 2002 e que James Horner aprofundou quando Andrew Garfield vestiu o capuz do aranha em 2012.

Destaque

O filme apresenta um momento de virada emocional marcante, que denota justamente o amadurecimento e a consolidação de Peter Parker. Para esta cena específica Giacchino escreveu Forget Me Knots, um tema em modo menor que flerta com a estética de música cinematográfica referenciada em obras do período Romântico. Existe uma ambiência criada pela densidade dos instrumentos, ora camerística, com menos instrumentos, ora sinfônica, com a força dos muitos naipes e do coral. Emociona e conduz o público ao centro nervoso da carga emotiva daquele momento definidor.

Saldo

Para além dos aspectos filosóficos, o filme é divertido e repleto de um criterioso humor autorreferente. Nesta minha trajetória de cinéfilo, não me lembro de ter presenciado aplausos do público em tantos momentos diferentes durante uma única sessão. 

Para ir além

Trilha Sonora de Spiderman: no way home:

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