7 abr 2022 - 10h03

Cidade planejada para o cansaço

Considerando que a estrutura da sociedade é machista e racista, as mulheres e as pessoas negras são as mais afetadas por essas condições

Curitiba se apresenta como uma cidade moderna, inovadora e inteligente. Mas quando observamos a realidade da maioria da população trabalhadora e as prioridades da gestão pública, a gente se dá conta de que todos esses adjetivos não passam de propaganda.

Em um tempo movido pelo sistema neoliberal, marcado por constante esgotamento físico e mental, pelo excesso de atividades, pela cobrança de produtividade e pelo incentivo ao individualismo, a cidade deveria ser pensada e planejada a partir das necessidades das pessoas.

Mas as ruas cheias de carros, o trânsito engarrafado, o transporte coletivo caro e lotado, espaços públicos escassos e sem equipamentos que estimulem o convívio comunitário nos bairros, são alguns exemplos que mostram que a forma de organizar a cidade caminha na direção contrária.

Há terminais do sistema de transporte público, por exemplo, que nem banco possuem para o mínimo de conforto dos usuários. Parques e praças priorizam mais as paisagens que renderão cliques aos turistas do que as possibilidades de encontro e socialização dos próprios curitibanos.

Uma parcela relevante dos trabalhadores é empurrada para as periferias, moradias precárias, e não consegue residir próxima ao trabalho. Vivem em locais com pouca infraestrutura pública, sem espaços comunitários e de lazer, e gastam um tempo significativo de suas vidas em deslocamento.

Com esse olhar, constatamos que, na verdade, a cidade se organiza sem pensar no descanso. Isso não é moderno, não é inovador, não é inteligente. Mas faz parte de uma estratégia de dominação e exploração. Afinal, pessoas cansadas não têm tempo para pensar, para criticar, para organizar, para criar.

Considerando que, além de tudo isso, a estrutura da nossa sociedade é machista e racista, as mulheres e as pessoas negras são as mais afetadas por essas condições. Afinal, a maior parte da população que vive nas periferias é negra e ainda recai sobre as mulheres a responsabilidade pelas inúmeras tarefas relacionadas com o cuidado.

É preciso aprofundar essa reflexão e identificar as possibilidades de mudança dessa lógica que, além do esgotamento físico e mental, contribui para promoção de uma sociedade cada vez mais adoecida, desigual e que provoca diversos problemas psicológicos.

Para uma cidade de todas e todos, é fundamental que os momentos de contemplação, de descanso, de contato com o outro, também estejam dentro das prioridades do planejamento e da gestão. Neste sentido, Curitiba está muito atrasada e precisa, de fato, repensar o conceito de cidade moderna, inovadora e inteligente.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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