Aprenda com seus avós. Aprenda com seus netos | Jornal Plural
4 dez 2020 - 16h11

Aprenda com seus avós. Aprenda com seus netos

A convivência entre gerações ensina ambas as partes a viver melhor

“Quando era criança aprendi a viver a vida com meus avós. Agora, quando voltei, adulta, tenho aprendido sobre a vida. Antes era uma coisa mais educativa e agora é algo mais filosófico. Observar uma pessoa idosa é uma filosofia, uma poesia de vida muito grande”, diz a empresária e professora de artes Bruna Fialla.

Bruna cresceu na companhia dos avós em um terreno com um grande jardim. Na infância, passava manhãs, tardes e noites com eles enquanto a mãe, viúva, trabalhava. Dos sete aos 22 anos, conviveram diariamente, até que Bruna se mudou e passou a ter ocupações de “gente grande”, o que reduziu o contato a visitas semanais. 

Dez anos depois, por conta do isolamento social causado pela pandemia do coronavírus, neta e avós voltaram a compartilhar cada minuto. Ela viu a relação voltar à cumplicidade da infância, mas agora com um outro olhar: “Quando era pequena, eu era cuidada. Agora voltei pra cuidar.” Nessa inversão de papeis, Bruna aprendeu a levar uma vida mais calma: eu vinha num ritmo frenético de produção na empresa. Mudei meu tempo com as coisas, minha dedicação, meu cuidado com a alimentação e com o meu corpo. Eles me fizeram frear a vida, estacionar a vida, eu diria.” 

O aprendizado entre gerações vem sendo cada vez mais estudado e tendo sua importância reconhecida pela ciência. Pesquisdores do Boston College, nos Estados Unidos, em um estudo que durou 19 anos, entrevistaram 374 avós e 356 netos. O objetivo era entender o impacto da convivência entre avós e netos tanto para os idosos, quanto para as crianças.

Os resultados mostraram que os dois lados saem ganhando. Para os avós, o contato com uma geração mais nova possibilita uma abertura a novas ideias e à inclusão tecnológica, além do sentimento de valorização social ao cuidar de uma criança. Já para os netos, os idosos são fonte de conhecimento e sabedoria, que acabam sendo incorporados pelas crianças refletindo nas escolhas da vida adulta.

Além disso, a convivência permite que os jovens saibam mais sobre seu histórico familiar e sobre um tempo que passava em outra velocidade, com outras paisagens e experiências. Ainda de acordo com o estudo, para ambas as partes, a relação ajuda a diminuir sintomas depressivos, já que os laços afetivos familiares proporcionam uma sensação de segurança e pertencimento.

Os resultados da pesquisa foram publicados em 2014, mas a o conceito de aprendizado intergeracional não é novo. A coleta de dados começou em 1985 e, de lá pra cá, diversas outras pesquisas e programas de incentivo ao aprendizado entre idosos e jovens surgiram no Brasil e no exterior.

Projetos como o Grandfriends, da Austrália, o Centro de Aprendizado Intergeracional do Providence Mount St. Vincent, nos Estados Unidos, e os brasileiros Encontro em Gerações, que acontece em Mogi das Cruzes (SP), e Vovó Criança, de São Paulo (SP), abrem espaço para a troca de vivências e aprendizados entre pessoas idosas, crianças e adolescentes. Nos encontros, acontece contação de histórias, diversão, artesanato, afeto. Parece brincadeira, mas essa troca entre gerações acontece há milhares de anos e foi essencial para a sobrevivência e continuidade dos grupos sociais humanos. 

Manoel de Barros, o poeta que tinha a infância na ponta do lápis, fala com carinho da sua avó em seu poema Obrar. Ela não brigava quando ele fazia peraltagens na horta. Ao contrário, entrava na onda e o ensinava a olhar.

“Eu tinha vontade de rir

Porque a avó contrariava os ensinos do pai.

Minha avó, ela era transgressora.” 

Manoel tinha com a avó a cumplicidade que apenas o encontro das levezas da infância e da velhice poderia proporcionar, coisa que um adulto, sempre preocupado e sem tempo, não tem. Na velhice, ele escreveu sobre a infância como ninguém, carregava em si essa similitude.

Quando estava trabalhando na empresa, no início da pandemia, a Bruna adulta, preocupada e sem tempo se pegava pensando no que gostaria de fazer se esse fosse o último ano de sua vida. A resposta era sempre “estar com meus avós”. “O isolamento foi um divisor de águas na minha vida e só foi possivel que ele tivesse esse significado por eu estar aqui [com os avós]. Foi importante para que eu mudasse meu estilo de vida e para que eu me reconectasse com eles em um momento em que estão prestes a se despedir desta vida”, conta a neta. 

A avó, Marli Teresinha Fialla, de 80 anos, agradece à neta por ter retornado e estar presente em um momento tão difícil. Chorando, ela diz que a a Bruna foi sua salvação: “Você é ótima, é minha companhia, não sei mais viver sem você.”

Esta coluna é uma parceria entre o Colégio Medianeira e o Plural.

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