19 mar 2022 - 10h00

Para ignorar a lei, música por favor

De repente, vejo cruzando o gramado lentamente uma pequena figura vestindo farda cáqui de policial. Passos firmes, o pequeno homem da lei segura com as mãos o cinturão folgado, de onde pendem, chacoalhantes, um coldre e um cassetete de plástico que quase encosta no chão

– Zezinho, abre o portão para eles entrarem!

Estávamos em estado deplorável, tínhamos enfrentado 80 km numa terça-feira de carnaval. Partindo do Rio Sagrado, em Morretes, passamos por Antonina, Rio do Nunes e Cacatu com sol na lata, atravessamos a dura serra da PR 405 com uma chuva torrencial no cocuruto, e finalmente chegamos a Porto Tagaçaba ao anoitecer. Ao entrar na pousada, não pensava em outra coisa além de arrancar meus tênis, um pântano particular a cada passo. No meio do trajeto, não foi uma nem duas vezes que me perguntei: Por quê, Caio? 

José Guilherme, o Zezinho, neto da proprietária, não oferecia respostas para a questão intermitente, mas perguntas ele tinha um monte: “Vocês são ciclistas? Para que usam essas luvas? Têm uma luva sobrando para eu usar? Sabiam que eu também tenho uma bicicleta? Para que esse espelhinho?” Meu parceiro de roubada, o Glog, também conhecido como Guilherme, respondia a todas as perguntas do pequeno xará com paciência. A certa altura, prometeu que logo que deixássemos as coisas no quarto e tomássemos um banho iriamos voltar para jantar, e então ele traria uma luva para o Zezinho usar. Atravessamos o gramado que separava a casa, onde também funcionava um pequeno refeitório e uma lanchonete que dava para a rua, e os quartos.

Banho tomado e pé quentinho, abri a porta do quarto e coloquei o par de tênis para secar do lado de fora. Zezinho esperava na porta do quarto do Glog, já montado na sua caloicross. “Minha avó disse que pode fazer hamburguer para vocês. O sanduíche dela é muito bom, eu vou comer um misto quente.” Ao sair do quarto, Glog entregou-lhe um par de luvas de médico. Sem sinal de decepção, vestiu as luvas de borracha folgadas e saiu pedalando pelo gramado. “Obrigado, agora eu posso pedalar muito melhor, e quando eu crescer eu posso ser médico também, médico e caminhoneiro, eu também sei dirigir caminhão, sabia?” Zezinho não parava de falar.

O sanduíche realmente estava muito bom, e apesar das ameaças da avó, que insistia para o garoto nos deixar jantar em paz, ele ficou o tempo todo conosco. De pança cheia, dissemos para a avó que o menino não nos atrapalhava de jeito nenhum, e começamos a nos divertir com as histórias que nos contava. Nosso novo amigo nos fez esquecer por um momento que o mundo está bem louco, não assistimos televisão e não tocamos no celular. Mas a canseira bateu, e o clima pesou na hora de dar boa noite:

– Zezinho, agora vou para o quarto escutar música e dormir, estou cansadão.

– É proibido música na pousada, é lei.

– Sério? Como vou fazer? Não consigo dormir sem escutar música!

– Eu sou da polícia, se escutar música eu posso prender.

– Pô, mas eu vou escutar bem baixinho! Ninguém vai ouvir, eu garanto!

– Estou avisando! Não pode!

Ignorando a lei, soltei a playlist para tocar assim que entrei no quarto, Spoon. O sinal do wi-fi era bom, aproveitei para mandar algumas fotos para Sonia e avisar que está tudo bem. Nilüfer Yanya, encaminhei as fotos para um grupo de amigos, escovo os dentes e decido não abrir o aplicativo de notícias. The Delines, tentei ler um pouco, mas não consegui avançar mais do que duas páginas na biografia da Elis Regina. Adormeci com os velhos amigos do Tears for Fears.

De manhã, abro a porta do quarto e, sem surpresa, observo que meu tênis continua pantanoso, triste. Choveu durante a noite, e o gramado molhado na luz da manhã parece bem maior, se estende até as margens do Rio Tagaçaba, que normalmente tem águas claras e fundo de pedra, mas com o tempo chuvoso as águas estão turvas e quase transbordando, talvez não seja uma boa ideia passar no Salto Morato, a caminho de Guaraqueçaba. De repente, vejo cruzando o gramado lentamente uma pequena figura vestindo farda cáqui de policial. Passos firmes, o pequeno homem da lei segura com as mãos o cinturão folgado, de onde pendem, chacoalhantes, um coldre e um cassetete de plástico que quase encosta no chão.

– Olôoco, Zezinho! Você veio me prender?

– Não, dessa vez vou deixar passar porque você é meu amigo. Minha avó mandou avisar que o café está pronto.

É por isso, Caio.

Spoon – Lucifer on the Sofa. Um clássico particular, desde Girls Can Tell, de 2001, a banda texana liderada por Britt Daniel alterna seus lançamentos entre álbuns bons e álbuns excelentes. Lucifer on the Sofa está na segunda categoria.

Nilüfer Yania – PAINLESS – É ótimo quando jovens artistas conseguem imprimir uma marca pessoal em seu trabalho desde cedo. Em seu segundo álbum, a cantora, compositora e guitarrista britânica Nilüfer Yania mostra evolução e força.

Delines – The Sea Drift – Uma pérola do country alternativo, The Delines surgiu em 2012 em Portland, Oregon. Sua formação original, além da cantora Amy Boone, conta com integrantes de bandas clássicas do gênero, como Richmond Fontaine, Minus 5 e The Decemberists. The Sea Drift é o quarto álbum da formação.

Tears For fears – The Tipping Point – A dupla britânica de Art-Pop-Rock, que viveu seu auge nos anos 1980, retorna após 17 anos de intervalo. Uma produção cuidadosa, com temas emocionantes, arrisco dizer que The Tipping Point pode figurar entre os três melhores álbum da carreira de Curt Smith e Roland Orzabal.

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