19 mar 2022 - 9h00

Clássicos remontados – a atualidade da arte

Clássicos se tornam clássicos devido sua atemporalidade. Perceber o quão clássicas são essas óperas, tendo a violência contra a mulher como um tema ainda atual, é uma dor e um chamado para a luta

No último mês, tive o privilégio de trabalhar na montagem da ópera cênica Carmen encontra Butterfly. Esta releitura de dois clássicos operísticos idealizada por Fabiola Bach Akel estreou na última quinta-feira, 17 de março, no teatro Regina Casilo e pode ser prestigiada durante este fim de semana.

Meu trabalho foi estritamente musical, preparei a orquestra Ladies Ensemble (grupo artístico em que atuo como regente desde 2019) para receber as três musicistas que dão voz e interpretação as obras – a maestra Priscila Bomfim e as cantoras Mere Oliveira, que dá vida a Carmen, e Masami Ganev que interpreta Cio-Cio-san, a Butterfly. Eu nunca havia trabalhado com ópera antes, esta foi minha primeira experiência com música cênica. Descobri uma nova paixão.

O formato da ópera foi criado no período Barroco, na Itália, por Cláudio Monteverdi. Na Europa renascentista a música estava majoritariamente atrelada a cultos religiosos. Porém, em 1607, L’Orfeu, favola in musica estreou no teatro da Corte de Mântua e marcou a história da música, pois abriu as portas para um dos gêneros musicais mais famosos até hoje.

A ópera é um jeito lírico de contar histórias. Cantores/atores acompanhados de uma orquestra encenam sobre um libreto. Histórias trágicas e cômicas são cantadas. E em Carmen e Madame Butterfly a tragédia não só é cantada, como também, retrata a realidade de mulheres racializadas e temporalizadas em seus próprios espaços.

Carmen e Cio-Cio-san à primeira vista podem parecer muito distintas, mas a cigana espanhola e a gueixa japonesa carregam em comum a objetificação de seus corpos, as regras sociais sobre eles e a solidão. São mulheres subjugadas por homens, independente de suas posturas de vida perante a sociedade. São mulheres que sofrem por serem mulheres em sociedades machistas e que tragicamente morrem por isso.

Eu sou uma mulher escrevendo este texto no Brasil do século XXI e percebo que estas histórias permanecem acontecendo todos os dias, especialmente com mulheres de classe social baixa, mulheres negras e de terceiro mundo. Isso é dolorido demais. Mas nesta montagem (onde Carmen não só encontra Butterfly, mas se une a ela) uma mensagem de esperança é passada, pois quanto mais mulheres estiverem juntas por si, mais nos fortalecemos.

Clássicos se tornam clássicos devido sua atemporalidade. Perceber o quão clássicas são essas óperas, tendo a violência contra a mulher como um tema ainda atual, é uma dor e um chamado para a luta. Espero que haja um dia onde ouviremos a história de Carmen e de Cio-Cio-san como tragédias remotas, que já não são mais possíveis de nenhuma forma, mas que seguiremos cantando para ter certeza de que vivemos em um mundo onde ninguém morrerá por ter se tornado mulher.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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