Lado B: Flávia Carvalho, tatuadora e idealizadora do projeto "À flor da pele" | Jornal Plural
29 maio 2019 - 22h59

Lado B: Flávia Carvalho, tatuadora e idealizadora do projeto “À flor da pele”

Artista cobre cicatrizes de mulheres que passaram por cirurgias ou mutilações

Flávia Carvalho é uma tatuadora inigualável. Não só pelo traço – ela é rápida e tem a mão firme – mas pela sororidade, que a fez criar um projeto que atende, de graça, mulheres vítimas de violência, mastectomizadas e automutiladas. 

As cicatrizes são cobertas com flores multicoloridas e outros desenhos lindos. Flávia coleciona depoimentos do tipo “Eu não conseguia vestir nada que não fosse de mangas compridas” ou “Você não imagina o bem que me fez, não tenho mais vergonha do meu corpo”.

Eu conheci Flávia através de uma das minhas filhas (todo mundo, em casa, é ligado em iniciativas do bem). Ela fez uma tattoo com Flávia e me contou a respeito do trabalho dela. Imediatamente me apaixonei. Passei a seguir o Instagram @flavia_daedratatto e, assim que surgiu uma oportunidade, marquei um “chocoflash”: uma flash tattoo, a preço acessível e não muito grande, desde que o cliente levasse três tipos de chocolate. Flávia distribuiu a comunidades carentes na Páscoa.

Assim que cheguei ao Daedra, estúdio de Flávia, vi uma caixa enorme cheia de bombons e chocolates. Ela mesma abriu a porta e pediu que eu aguardasse um pouco – estava tatuando. Num instante, terminou. Enquanto me atendia, fazendo uma tattoo em homenagem à gatinha que temos em casa, eu perguntei algumas coisas – depois, complementei a entrevista. 

Tatuagem da gata Kelly Cristina. Foto: Bia Moraes.

Flávia tem 34 anos, é curitibana e tem dois filhos: Marcela, de 8 anos, e Alexandre, de 4, que é autista. A tatuadora cursou até o último ano de Ciências Biológicas na UFPR; trancou a faculdade para “viver da minha arte”, como ela mesma diz. E também porque engravidou de Marcela. 

Ela trabalhava com ilustração científica na UFPR; fazia desenhos anatômicos de animais, especialmente insetos e pássaros, e plantas. “Isso tem grande influência no meu estilo de tattoo”, aponta. Vem daí a firmeza e a rapidez do traço de Flávia, que já tem nove anos como tatuadora, enquanto o Estúdio Daedra tem quatro anos. 

Como você definiria o teu estilo de desenho?

Não sigo uma linha restrita (aquarela, preto & branco, etc)… Mas meu estilo segue temas relacionados a natureza, principalmente. Gosto de coloridos e com técnicas de pontilhismo e hachuras. Tatuo principalmente animais e florais!

Você atende mais homens ou mulheres?

Seguramente 80% dos meus clientes são mulheres. Além delas se identificarem com meu estilo e com o projeto social, meu estúdio é pensado para recebê-las, pois tenho um pequeno “espaço kids” para receber mães com crianças!

Alguém já sentiu medo, tipo pavor, a ponto de desistir na hora?

Algumas pessoas ficam bem ansiosas! Mas tento acalmar com paciência e bom humor. Sempre, nesses casos, peço para trazer um acompanhante, para ficar na “torcida” e encorajar a cliente. Nunca nenhuma desistiu de fato, mas demorou um pouquinho para deixar eu encostar a máquina de tattoo, hehe.

Todo mundo sente dor?

Bom… São agulhas perfurando a pele, né? Um desconforto sempre vai sentir. Aí vai de como a pessoa vai lidar com a dor. Quanto mais relaxada e distraída estiver, melhor. Alguns clientes ficam tão relaxados que quase cochilam… Outros já dão mais trabalho. Mas todos terminam a tattoo! Não é uma dor insuportável. Se fosse ninguém faria! 

Qual foi a coisa mais bizarra que te aconteceu tatuando?

Tirando casos de marmanjos de quase 2 metros de altura passarem muito mal tatuando hehe… já rolou de namorados irem fazer uma tattoo “de casal”, eu estar no meio de uma tattoo e o outro parceiro desistir de fazer a tattoo dele, eles começarem a discutir no meio da sessão… e eu ficar com aquela cara de “planta” haha!

Quem fez as tuas tattoos?

Muitos tatuadores! Sempre meus amigos; a gente troca as tattoos, um tatua o outro. Tenho tattoos de artistas renomados internacionalmente, das quais me orgulho muito!

Flávia tatua vítima da boate Kiss. Foto: Kellem Ferreira.

Agora queria que você falasse sobre “A pele da flor”. Quando começou e porquê, a repercussão que o teu projeto social conseguiu….

A ideia do projeto surgiu quando atendi uma cliente com uma grande cicatriz no abdômen, causada por um golpe de canivete, em que o agressor a atacou em uma boate. A emoção da cliente ao ver a tattoo pronta me comoveu muito, e quando eu consegui montar meu próprio estúdio, tentei tocar o projeto.

Com a ajuda da então secretaria municipal da Mulher, da prefeitura de Curitiba, que fez um post na página do Facebook deles (com uma enorme repercussão), consegui o alcance para as mulheres começarem a entrar em contato comigo, contar suas histórias e agendar suas tattoos. Isso faz 4 anos!

Desde então atendi quase 200 mulheres de todos os cantos do país, tive mais de 280 matérias em 41 países diferentes, recebi homenagens – um livro escrito por feministas de Tel Aviv, Israel, me citou, e a companhia aérea europeia Vueling Airlines “batizou” uma de suas aeronaves com o meu nome! Muita coisa legal aconteceu e eu considero o projeto uma das coisas mais intensas que aconteceram na minha vida! É o meu legado e a minha missão servir a essas mulheres!

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