1 jun 2021 - 8h55

Todo fascista é bunda mole

É preciso coragem pra se falar da dor

Lá no interior de Santa Catarina, onde cresci, se define por “bunda mole” aquelas pessoas cujas nádegas estão pouco usadas devido ao tempo inutilizado. Bunda mole, sobretudo, é também adjetivo para pessoa de ética pouco corajosa, que não faz o que é preciso ser feito. “Vai lá e não tenha medo de dizer o que pensa, não seja bunda mole.” É uma frase bem usada por lá.

Mas o que precisa ser feito? Esta pergunta tem respostas infinitas, entretanto, o que une à todos atualmente está no nível da pergunta e não da resposta: somos péssimos em matéria de prazer e de desejos, pois sucumbir à ditadura da felicidade constante, nos permitimos alcançar apenas prazeres medíocres. Estamos com o músculo do desejo enfraquecido, queremos poupar tudo que é ruim e nos proteger das tristezas a todo custo. O resultado é que os sonhos andam cada vez mais pequenos.

A estética pode ajudar nessa hora, pois um juízo estético permite fundar uma ética que nos conduza para conhecimentos mais aprofundados do mundo e de nós mesmos. Por exemplo, dizemos para uma criança “que feio!” como recurso para ensinar o que é certo e errado. Da mesma forma, não podemos saborear um vinho sem o aproveitamento estético por meio da cultura, pois o vinho não faz sentido se não soubermos diferenciar as diferentes cepas de uvas e as nuances derivadas dos territórios geográficos de onde provém.

O psicanalista e escritor Contardo Calligaris dizia que precisamos atualmente ser mais hedonistas, mas não no sentido superficial da palavra, mas naquele hedonismo traduzido como projeto sério e dedicado de atenção ao mundo. Assim como quando nos dedicamos a contemplar uma obra de arte, devemos nos lançar no projeto de viver com atenção com a própria vida e desejos. Tal projeto requer um trabalho sistematicamente contínuo para tornar nossas escolhas pessoais interessastes. Se Calligaris tivesse nascido lá no interior talvez concordasse comigo que viver uma vida fascinante não é pra gente bunda mole.

Mas por quê? Os bundas moles também não tem direito à felicidade? Sim, eles têm, mas o desejo pede um preço para ser concretizado e sem esse pedágio fica difícil.

A característica de um desejo funcional é seu caráter de desejar, um desejo desejante, tal como um coração a bater, pulsante. Ele, o desejo, também não deve se encarnar em objetos específicos, apenas se traduzir por eles, torná-los em suas equivalências contigentes.

Tal é o preço do desejo: saber o que se quer justifica o quanto pagamos. Pagamos com gosto o preço alinhado com o que queremos. Mas isso só se levarmos pra casa o que nós queríamos comprar.

O desejo é um processo experimental, um fazer de todo dia, um experimento com a vida. Fazemos com que sejamos o cientista e o rato de laboratório ao mesmo tempo. Queremos ir do ponto A ao ponto B, mas não sabemos onde está o ponto B. Não há planejamento e isto é a essência do processo. Perder de vista esse caráter processual pode significar engessar o desejo, pois tudo que não se pareça com o plano é descartado. É nessa hora que ciência e arte dividem o mesmo lugar, que é o da busca por um objeto desconhecido.

O poeta Manoel de Barros escreveu: “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras —liberdade caça jeito”. Ou seja, não basta saber desejar, é preciso fazer por onde, caçar as traduções para o desejo equivaler. O psicanalista francês Jacques Lacan falava sobre um saber fazer especificamente ligado ao “se virar”, uma saber fazer com inventividade para achar o jeito de fazer tradução ao desejo mesmo quando as coisas não saem como planejado.

Olhemos um pouco agora para o cenário político atual. Vemos o apagão da sensibilidade, a rebeldia contra a ciência e mentes medrosas fugindo para o sectarismo.

O filósofo Franco Berardi, outro Italiano, comenta que o novo fascismo resulta justamente da implosão dos desejos, da tentativa de manter sobre controle o pânico e a raiva depressiva da impotência. Desta forma o novo fascismo seria uma reação histérica à depressão manifestada pelo fracasso de uma economia que coloca toda a culpa no desempenho pessoal. Berardi também diz que para sermos políticos hoje é preciso sermos estéticos, em um sentido amplo, pois a estética não é apenas entender a arte, é também entender a percepção psíquica da dor e do desejo.

O neofascismo não tem coragem de experimentar a vida fora do quadrado, da linha, do armário. O neofascismo não consegue aguentar a impotência da experiência. O neofascismo não entende a dor porque ignora a estética. O neofascismo cultiva a pança, nunca o desejo. Um neofascista é um bunda mole.


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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