Da capital de Portugal ao mogango | Jornal Plural
21 out 2019 - 22h54

Da capital de Portugal ao mogango

Um passeio pelas transmissões de futebol na tevê brasileira

Semana retrasada, confortavelmente instalado numa mesa de bar, alguém aguardava o início de um jogo pela tevê. Pelas eliminatórias da Eurocopa. Portugal x Luxemburgo. Aí, na abertura da transmissão, o narrador, saudando os teletorcedores, não deixa por menos:

– Estamos aqui, em Lisboa, capital de Portugal…

O complemento da informação seria totalmente dispensável. Ou será que, no Brasil, alguém (ainda) não sabia disso? Ou achava que a capital era Coimbra, ou, talvez, Guimarães?

Começa o jogo, que terminaria com a vitória de Portugal, 3×0. Cristiano Ronaldo marcou o dele, “com a camisa portuguesa”, segundo o detalhista narrador. E, não satisfeito com o espetáculo em si, lançou um repto aos telespectadores: quem seria o melhor jogador do mundo, Cristiano Ronaldo ou Pelé?

Aí, alguém, da mesa ao lado, reagiu:

– Não dá pra comparar. São dois craques de épocas distintas! Pelé jogou até 1977, levou Cosmos à conquista do campeonato americano daquele ano, e encerrou a carreira no dia 1º de outubro de 1977, em uma partida de exibição entre o Cosmos e o Santos.

De fato: e, no dia 19 de novembro de 1969, Pelé entraria para a história do futebol mundial como o milésimo gol. Foi no Maracanã, contra o Vasco. Vitória por 2 a 1, em uma partida sem grande importância na classificação do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Pelé anotou o segundo gol santista cobrando pênalti. O goleiro era o Andrada. E mais: fez o gol e caiu nas redes, beijando a bola. Depois, ainda emocionado, lançou um apelo ao mundo:

– Pelo amor de Deus, minha gente! Agora que todos estão ouvindo, faço um apelo especial a todos: ajudem as crianças pobres, ajudem os desamparados. É o único apelo nesta hora muito especial para mim.

Acho que não…

Ainda das transmissões de futebol pela TV: o Premiere Futebol Clube é taxativo em seu bordão – O melhor time é o seu.

Ao que, na plateia do boteco, muitos torcedores reagem:

– Melhor coisa nenhuma. Continua lanterninha no campeonato. E, há 2 anos, na série B…

E o gol deixou de ser gol

Pra encerrar, voltamos ao tempo em que transmissão de futebol só tinha um canal, o rádio. Já naquela época não poucos narradores e comentaristas gostavam de apelar a neologismos. Certa feita, em jogo na velha Baixada, um atacante dá um baita chute, a bola passa raspando a trave e o locutor não deixa por menos:

– Faltou pouco, muito pouco! Desviou na última fração de segundo, talvez efeito de uma lufada de vento, senão, senão seria mogango!

E como era comum acompanhar um jogo ouvindo rádio em casa, alguém buscou o dicionário. E não é que a palavra existia mesmo?

– Mogango – substantivo masculino. Conhecido também como moganga e bugango, é uma espécie de cucurbita maxima. Popularmente é uma espécie de abóbora de pouco valor comercial, mais utilizada nos rincões das roças brasileiras.

Mais uma (pra encerrar)

Quanto ao Brasileirão 2019, tanto série A como B, tem um narrador nas transmissões pela TV que insiste. Os dois times entram em campo, fazem uma saudação aos torcedores e ficam perfilados, à espera da cerimônia de abertura do jogo.

Aí, o tal narrador anuncia:

– Agora teremos a execução do hino nacional brasileiro

Isso mesmo. E precisaria dizer que o hino nacional, aqui do Brasil, é o hino nacional brasileiro?

Afinal, e pelo menos até agora, o Brasil continua sendo dos brasileiros. E as torcidas, certamente em sua quase totalidade, não entregam o jogo pra nenhum gringo dando apoio aos vendilhões da pátria.

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