À espera de mais um novo amanhã | Jornal Plural
8 abr 2020 - 20h19

À espera de mais um novo amanhã

Francisco Camargo lembra de um velho hino contra ditadores e políticos oportunistas

Panelaços e panelaços contra Bolsonaro, ontem à noite, em Curitiba.  Inclusive com direito a palavras de ordem, trompete e tambor, no Juvevê. Mas há quem, para endossar as manifestações, tenha recorrido a uma música de 1970. Muito mais do que uma simples música. Autor? Ele mesmo, Chico Buarque. Fulminante já no título. O alvo: Médici, então o general presidente de plantão.

Apesar de você

Hoje você é quem manda
Falou tá falado
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
Lá lá lá lá laiá

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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