2 ago 2021 - 20h56

Dr. Google sabe tudo? Os prós e os contras do uso da tecnologia na medicina

A ferramenta utiliza a câmera do celular do usuário para produzir um diagnóstico

Por seu consultório passam milhares de pessoas todos os dias. Alguns pacientes dizem que seu diagnóstico é preciso, outros reclamam que suas diversas hipóteses assustam diante de qualquer sintoma. O Dr. Google, como é conhecido, não é formado em Medicina, mas atende regularmente a cerca de 26% da população brasileira, para quem “ele” é a primeira referência quando surge algum problema de saúde.

Foi a partir da consciência dessa responsabilidade que o próprio Google passou a realizar estudos em ferramentas que ajudam na identificação de doenças nos olhos, câncer no pulmão e na mama. Seu mais novo lançamento na área da saúde é destinado à dermatologia: o Google Derm Assist ainda está em fase de teste e, após três anos de desenvolvimento, deve ser lançado até 2022.

A ferramenta utiliza a câmera do celular do usuário para produzir um diagnóstico preciso. Basicamente, quem tiver algum problema de pele pode tirar até três fotos, que serão comparadas com mais de 65.000 mil imagens de base inseridas na ferramenta, o que permite identificar 288 condições dermatológicas. Na sequência, haverá um formulário sobre os sintomas de cada paciente. Com base nesses dados, a plataforma oferecerá os possíveis resultados com os quais aquela enfermidade combina.

Segundo Karen DeSalvo, diretora de saúde do Google Health, das 1,2 trilhão de pesquisas feitas no Google por ano em todo o mundo, cerca de 10 bilhões estão relacionadas a condições de pele. “As pessoas estão vindo ao Google para perguntar sobre as condições de pele. E o Google Derm Assist se concentra nas respostas que os verificadores de sintomas dão, não na maneira como as pessoas respondem ao questionário”, disse em entrevista ao The Verge.

De acordo com a Revista Galileu, há oito doenças de pele mais pesquisadas no Google pelos brasileiros (você pode ver o índice de pesquisa das quatro primeiras clicando neste link, e as demais estão neste link).

A professora do curso de Marketing Digital da Uninter Maria Carolina Avis revela que desde o nascimento do Google as pessoas sempre pesquisaram sobre doenças, sintomas e dores. As informações contidas nesses resultados são retiradas de outros conteúdos na web. Isso significa que “a confiabilidade das informações está diretamente ligada a essas fontes de informação e, de certa forma, qualquer criador de conteúdo pode ser uma fonte de informação”.

Para evitar a desinformação e manter o foco no atendimento personalizado, o buscador realizou algumas atualizações importantes como, por exemplo, inserir o comentário “Apenas para fins informativos. Consulte um médico de confiança para receber orientações adequadas”.

É importante deixar claro que a tecnologia pensada pelo Google é considerada uma ferramenta de auxílio ao atendimento médico, não uma substituta dele. Ou seja, as cerca de 1.9 bilhão de pessoas que possuem alguma condição dermatológica no mundo não devem tomar como único e absoluto o resultado que apareceu na plataforma.

Apesar desse entendimento, Maria Avis acredita que haverá dificuldades nesta relação entre a tecnologia e os profissionais da saúde. “Mas com o tempo e com a maturidade do público, acredito que a ferramenta seja uma porta de entrada para várias outras chegarem no mercado. Sinceramente, torço por isso. A medicina está se reinventando com a ajuda da tecnologia e até mesmo da gamificação, e vejo que os usuários só têm a ganhar”, projeta a professora.

Quem também reforça a importância da relação médico-paciente é o cirurgião plástico Afrânio Benedito Silva Bernardes, coordenador da Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos (Codame) do CRM-PR e membro da Câmara Técnica de Cirurgia Plástica do CFM. “A relação médico-paciente é nobre, aliás é uma relação profissional que gera índice de confiança”, destaca.

Para Afrânio, apesar de o paciente chegar repleto de informações ao consultório, resultado de pesquisas feitas nas principais mídias antes da consulta, ele gosta do debate que isso acarreta. “Eu gosto de conversar e debater com o paciente, mas olhando no olho do paciente para ver se ele compreende aquilo que eu estou falando”, descreve.

Ainda sobre tecnologias, Afrânio comenta que, no meio médico, há receio de que os consultórios fiquem vazios devido ao surgimento de novas tecnologias. Nesse sentido, ele reforça que “a tecnologia é uma realidade com a qual temos que aprender a trabalhar, e ajudar a desenvolvê-la. Mas existe uma relação médico-paciente, a qual até pode iniciar de uma forma a distância e por intermediação tecnológica, mas em algum momento ela vai ter que ser física, presencial”.

Tecnologia está presente há muito tempo

Por mais que as soluções do Google sejam de encher os olhos, essa não é a primeira vez que a Medicina ganha um reforço das tecnologias. A Telemedicina, como é conhecida, já é regulamentada pela Resolução CFM nº1.643/02 e, em 2014, chegou a introduzir a robótica nas operações cirúrgicas. O robô Da Vinci, por exemplo, projeta uma imagem tridimensional do corpo do paciente ao médico cirurgião, o qual pode estar a quilômetros de distância do operado.

Afrânio comenta que, ao longo dos anos, tivemos uma facilidade de comunicação a distância, e que “em muitos casos não havia mais a necessidade de deslocamento do paciente, mesmo que estivéssemos em cidades distantes. Apesar de no início ela ter sido revogada, atualmente a telemedicina já é bastante difundida e utilizada, sendo um dos aspectos em que a pandemia favoreceu. Por outro lado, por mais que a tecnologia facilite os procedimentos, uma equipe de médicos treinada e capacitadas deverá sempre estar pronta a interceder nos casos de urgência”.

Maria Avis complementa dizendo que, antes da pandemia de coronavírus, a telemedicina não era tão comentada, e por causa disso tinha baixa adesão. Após o isolamento social, esse comportamento mudou. “Pelo fato de estarmos trabalhando de casa, as pessoas já passam a pensar mais se vale a pena pegar o carro e encarar o trânsito para fazer uma consulta, então preferem poupar tempo e fazer tudo de forma remota. O Google investir em tecnologias voltadas para a área da saúde só nos faz perceber que essa tecnologia não é mais uma tendência, mas uma realidade, e principalmente que ela pode auxiliar o ser humano até em atividades como as voltadas para a saúde”, complementa a professora.

Cibercondríacos

A confiança excessiva no diagnóstico da web pode trazer alterações significativas na psique humana. Uma simples busca no Google pode “transformar” uma dor de cabeça em meningite, ou um simples desconforto intestinal em câncer. As pessoas que exageram as informações fornecidas pelo buscador são chamadas de cibercondríacos.

A hipocondria nada mais é do que a preocupação excessiva com a saúde. Geralmente, pessoas hipocondríacas relacionam qualquer sintoma ao surgimento de uma doença mais grave. Já os cibercondríacos são estimulados a acreditar no pior diagnóstico recebido pelos canais do universo digital.

É por essa razão que Maria Carolina acredita que “precisamos difundir informações relevantes sobre a relação tecnologia e humanos: seres digitais com seres humanos. Se a máquina substituir o homem, não terá mais consumo. Isso não vai acontecer, até porque precisa do ser humano para operar a máquina. Estou dizendo isso para refletirmos sobre o papel das funcionalidades digitais, que nunca são para substituição, e sim para somar. E o mais beneficiado é o ser humano”.

Afinal, a tecnologia é amiga ou inimiga?

Muitos médicos ainda veem as questões tecnológicas de uma maneira temerária, talvez pelo receio de que a autonomia desses profissionais seja posta em xeque. Entretanto, Afrânio vê com bons olhos esse novo casamento entre medicina e tecnologia. “Falando especificamente do aplicativo desenvolvido pelo Google, estamos bastante seguros com sua possível aprovação, visto que um órgão de referência como o EAD nos Estados Unidos [uma espécie de vigilância sanitária americana] está chancelando seu desenvolvimento. Dessa maneira entendo que as tecnologias, tendo aprovação e regulamentação de órgãos como esse e outros de mesmo nível no mundo, possibilitarão que os pacientes busquem corretamente as informações na internet e em aplicativos confiáveis entre médicos e pacientes”, vislumbra Afrânio.

A professora da Uninter é direta quando diz que tudo isso dependerá de uma maturidade do usuário. Afinal, não adianta criar atalhos que ajudem na caminhada ao entendimento sobre doenças se a pessoa toma como verdade absoluta a primeira informação que vê.

Outro fator importante nesse debate é recordar que a saúde não é uma ciência exata, ou seja, tudo dependerá do histórico e do atual estado de cada paciente. O que pode ser um sintoma leve para alguém, pode representar algo diferente para outra pessoa. Por isso é fundamental entender que “a tecnologia veio para auxiliar o ser humano em atividades manuais, mas jamais substitui a presença de um médico que possa diagnosticar com certeza, considerando essas muitas variáveis. Os aplicativos, sites e ferramentas orientam o usuário que aquela funcionalidade é um ‘quebra-galho’ e que a certeza vem da interpretação do médico, mas depende mesmo do usuário levar a orientação a sério”, finaliza Maria Carolina Avis.

Orientação: professor Mauri König, jornalista.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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