Por que os homens brocham | Jornal Plural
1 jul 2020 - 21h53

Por que os homens brocham

Ao deparar com a outra pessoa, na perspectiva do ato sexual, esse “eu ideal” se vê sob ameaça

Pra entender as brochadas, primeiro vamos passar por uma visão mais fisiológica da coisa. E depois por uma visão mais psicológica. Mas lembrando que não dá pra separar uma da outra.

O sistema nervoso autônomo – aquelas coisas que o nosso corpo faz ou deixa de fazer e sobre as quais não temos tanto controle assim ou mesmo nenhum controle – se divide em sistema nervoso simpático e parassimpático.

Nem tão simpático assim

O sistema nervoso simpático é responsável por nossas reações físicas em situações de emergência, quando precisamos fugir, lutar ou simplesmente ficar paralisados, fechando os olhos e acreditando que se não olharmos nada de mal acontecerá.

Tá na cara que isso vem de um período muito primitivo, quando a gente ainda tinha que se defender de tigres dentre de sabre, de cobradores de dívidas da máfia e lutadores de MMA armados com tacapes feitos de ossos.

O sistema simpático é responsável por liberar adrenalina, acelerar os batimentos cardíacos, aumentar a pressão arterial e ao mesmo tempo tirar o sangue da superfície do corpo e levar para um lugar onde será mais útil para sair correndo ou partir pra porrada: para os músculos mais profundos.

Por isso a pessoa fica pálida quando leva um susto.

Do ponto de vista bioenergético, a energia sai da periferia do corpo, onde estão nossos sentidos, nossa sensibilidade e vai para o centro, ela se contrai.

Tudo se contrai, se é que você me entende.

E, se a energia não está na periferia, em nossos principais órgãos de prazer e sensibilidade, obviamente não estaremos em um estado voltado para o prazer.

Você também perde o controle sobre sua respiração.

Parassimpático

O sistema parassimpático é praticamente ao contrário, para usarmos de uma interpretação simples.

Ele conduz a um estado de relaxamento, calma, o sangue volta a circular nas regiões periféricas do corpo, como a pele, e você não fica parecendo um fantasma. Pode até ficar bem coradinho e com uma aparência saudável.

Do ponto de vista bioenergético, a energia se concentra no exterior. Se há energia na periferia do corpo, temos condições de sentir mais todo o prazer (e toda a dor) que o mundo nos proporciona.

O parassimpático também permite o controle da respiração, essa função que, a um só tempo, pode ser consciente e inconsciente, de acordo com a ocasião.

Por que o simpático está agindo nas brochadas

Bom, se o sistema simpático é disparado por situações de emergência e medo, isso quer dizer que o homem que brocha está com medo da outra pessoa?

Mas medo do quê? Claramente aquela outra pessoa está em uma predisposição razoavelmente afetiva (embora isso seja discutível muitas vezes, vamos imaginar que, sim, é o caso) e não representa uma ameaça à integridade física do homem.

Porém, as pessoas ignoram que existem outras integridades mais frágeis que o nosso corpo. Pra não complicar muito, vamos dizer que todos nós, humanos, temos o que podemos chamar de um “eu ideal” e acreditamos com mais ou menos força nesse “eu ideal”.

Bom, esse “eu ideal” nem sempre está de acordo com o que é melhor para nós, às vezes não está de acordo sequer com a realidade e outras vezes sequer está de acordo com uma perspectiva saudável de vida.

Ao deparar com a outra pessoa, na perspectiva do ato sexual, esse “eu ideal” se vê sob ameaça. E ele está sob a vigilância concreta, ainda que imaginária, dos amigos de bar do sujeito, do pai, das figuras masculinas de sua vida e até das femininas. Tá tudo na cabeça, mas está lá sim: “Quero ver se é ideal mesmo!”, dizem todos, de braços cruzados, olhando de cima para baixo.

E, sob ameaça, o simpático é acionado: suor, tremedeira, nervosismo, vontade de fugir, ficar paralisado, a energia sai da periferia e o sangue sai da superfície e vai para os músculos, que ficam tensos: nem Viagra, Cialis e afins resolvem nesses casos.

Além disso, nunca é demais lembrar: potência de ereção não significa potência orgástica.  Mas esse é assunto para outro texto. Aqui estamos falando de ausência de ereção.

O que fazer?

O meu conselho para a ocasião da brochada é não valorizá-la.

Não há obrigação nenhuma de que as coisas aconteçam desta ou daquela maneira. Não existe uma forma “certa” de se fazer sexo, embora a gente devesse descobrir aquelas que são mais gostosas para a gente.

Se, na ocasião de uma brochada, você está com alguém com quem realmente se sente à vontade, não haverá problema em ficar conversando afetuosamente, se acarinhando e aconchegando, como quem não quer nada, sem muitas expectativas, até que o sistema simpático inconscientemente entenda que não há ameaça alguma, se desligue e permita a atuação do parassimpático.

Eventualmente vai pintar um clima gostoso de sacanagem e afetividade. E tudo vai correr bem.

Por outro lado, se você não se sente à vontade com a pessoa, talvez você não devesse estar com ela nem ela com você. Ou simplesmente você precise mais do que nunca de terapia (aconselho terapia corporal reichiana ou derivadas, como a bioenergética): afinal por que está em uma situação de intimidade com alguém com quem não se sente à vontade? Eis uma boa pergunta.

O processo que pode levar a uma brochada certamente é bem mais complexo que isso e pode ter inúmeras razões, inclusive físicas mesmo, independentemente da psique da pessoa.

De qualquer modo, se estiver passando por dificuldades com o comportamento do seu pinto com frequência, não esqueça que ele não está simplesmente ligado a você, ele sim, faz parte de você: não é um ser independente, nem é a totalidade de seu ser e nem pertence a outra pessoa (seus amigos de bar, por exemplo). Na hora que você tomar consciência disso, vai procurar ajuda médica, se seu problema for de origem fisiológica puramente, e ajuda psicológica (o que é a maioria dos casos).

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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