14 dez 2020 - 13h44

Perdão, Sidnei

Enquanto Curitiba não reconhecer e se desculpar pelo racismo passado e presente não haverá justiça para o povo negro

A turma de primeiro ano do ensino fundamental tinha uns 30 alunos. Todo mundo no uniforme bordô com listras brancas. Calça, camiseta branca com a logo da escola no peito, jaqueta. Tênis e meia brancos.

Como todo grupo de alunos, existia a panelinha das meninas populares, os meninos queridinhos da professora, muito embora a freira velhinha responsável pela turma fosse muito querida com todos.

Havia ali crianças altas, baixas, as magras, as gordinhas. Gente com cabelo loiro e olhos claros. Outros com cabelo preto, castanho, encaracolado ou liso. Mas de uniforme, sentadinhos nas carteiras uma atrás da outra ou em fila era como se fossem todos um bloco só.

Todos, menos o Sidnei. Sidnei usava sobre o uniforme uma japona bordô cujo punho ele mordiscava compulsivamente, como hoje vejo minha filha do meio fazer quando está incomodada, nervosa ou ansiosa. Sidnei não fazia parte de nenhuma panelinha. Sidnei não falava com ninguém.

Não lembro muito bem como ele foi parar na nossa turma. Nem se falei com ele alguma vez. Mas tenho pensado muito no Sidnei ultimamente. Porque, vejam, Sidnei era negro. O único negro de quem lembro naquela escola. O único naquela turma de 30 alunos.

E a lembrança que tenho do Sidnei e na qual tenho pensado muito há algumas semanas é dele se aproximando de nós, seus colegas, e nós reagindo como se ele fosse uma barata. Lembro dos gritinhos histéricos, das meninas (eu entre elas) se encolhendo coletivamente para se afastar.

A gente tinha nojo do Sidnei. Do único menino negro naquele mar de pele branca no uniforme bordô. Ele se aproximava, e a gente se afastava. Não sou muito de fazer parte de grupos, mas daquele grupo eu era parte.

Pensei muito no Sidnei quando vi a notícia do assassinato de João Alberto em uma loja do Carrefour. E a onda de gente encontrando justificativas para o injustificável.

Mas o que me fez pensar ainda mais nele – e vir aqui escrever sobre isso foi a declaração do nosso prefeito Rafael Greca de que em Curitiba não há racismo ao comentar a eleição da primeira mulher negra para a câmara municipal, Carol Dartora. Porque o pai dele era amigo de uma negra.

Foi em Curitiba que eu, por poucos meses, tive um colega negro na escola, uma escola privada em que todos, inclusive o Sidnei, eram crianças de famílias de classe média e média alta. Aos 7 anos eu via o Sidnei como alguém de quem devia me afastar aos gritos.

E hoje fico me perguntando, como é que se ensina uma criança de 7 anos a ser racista? É com todo papo sobre nossa ascendência “europeia”? É o apego a brasões, a insistência em desvendar árvores genealógicas? Ou é pela completa ausência de negros nos espaços que ocupamos?

Como as pessoas evoluem, amadurecem (nem todas) eventualmente passei a interpretar ou mesmo questionar muita coisa que aprendi. Isso nunca é algo pontual, uma chavinha que você vira e pronto, deixa de ser racista.

Nos trinta anos desde que conheci o Sidnei já passei por várias fases. Teve quando me envergonhei de estar entre os que fugiam dele, mas racionalizava: por que o Sidnei tinha que morder os punhos? Mais ainda: pra que ficar se impondo para o grupo?

Em 2005, em Curitiba, o então prefeito Beto Richa criou a tarifa domingueira, um valor menor cobrado no transporte coletivo da cidade aos domingos. Isso permitia que jovens da periferia pudessem, aos domingos, circular pela cidade.

Não demorou muito para os shoppings reclamarem e agirem para impedir que “gangues” tomassem conta de seus corredores com ar condicionado. Os “vileiros” estariam promovendo arrastões. Seguranças contratados começaram a agir para impedir a entrada desses jovens nestes lugares.

Lembro de, na época, ter pensado: por que esse pessoal tem que andar em grupo?

O problema aí é que eu mesma, mulher alta e gorda que sou, também sofria cobranças semelhantes: por que eu não me vestia melhor? Se meu rosto “é tão lindo”, por que eu não emagreço? Falo mais baixo? Mudo de personalidade? Chato, né?

Eventualmente meu pensamento foi evoluindo o suficiente para entender que o jovem periférico tem direito à liberdade de andar em grupo e de vestir o que quiser. E que mesmo que esteja de terno e gravata talvez nossa reação a ele continue a ser a mesma: nojo, repulsa, medo.

Porque ele não é parte da turma. Como o Sidnei.

Dei um passo adiante e percebi que não foi nada no comportamento do Sidnei que me levou a agir como agi com ele. Foi a cor da pele dele. E mais: o problema dele não era ele. Era eu. (Como diabos uma criança de 7 anos aprende a ser racista?)

O Sidnei não ficou muito na nossa turma. Foi embora. Não sei nada dele, nem o sobrenome, para que escola foi, se está bem (torço que sim). Se pudesse, o encontraria, tentaria descobrir como ele está. Mas mesmo sem saber, quero dizer, neste espaço que tenho o privilégio de ocupar: querido Sidnei, me perdoe. Eu era uma criança, mas meu senso de justiça devia ter me colocado ao seu lado, não contra você.

Fui racista. Pior, demorei muito para aprender isso. E não sei quantos outros Sidneis passaram pela minha vida sem que eu soubesse corrigir meu comportamento.

Mesmo hoje eu erro, escorrego, falho. Mas erro tentando acertar.

Quando Greca falou que não há racismo em Curitiba, pensei em você. E pensei na nossa arrogância de sermos brancos e nos achar no direito de negar a dor dos negros.

Mais do isso, pensei em como parte significativa do racismo no Brasil é a falta de se enfrentar um passado doloroso. Somos incentivados a lembrar e celebrar nossos ancestrais europeus, e apagamos os negros do passado, como se eles não tivessem construído parte do país, levado as riquezas dessa terra nas costas.

É natural fugir de lembranças desagradáveis. Eu mesma não gostaria de estar aqui falando nisso. Mas ao nos calar, ao não admitir que temos, no sangue e nas mãos a dor e o sofrimento do povo negro, somos também parte da violência que matou João Alberto e tantos outros.

O Brasil branco sequestrou, violentou, submeteu e matou o povo negro por centenas de anos. E continua a fazer isso. E foi toda essa violência que construiu as grandes fortunas, os grandes nomes da história do país. Que ergueu nossos prédios históricos. Que pavimentou nossas ruas.

Todo dia andamos sobre essas manchas de sangue. É preciso lembrar. Todos os dias. Para que não sejamos tolos nem vis como Greca, como Bolsonaro, como tantos outros.

O Brasil precisa se reconhecer racista e precisa traçar os caminhos de sangue de sua história. Curitiba precisa se reconhecer racista. O prefeito Rafael Greca precisa se desculpar publicamente por se ver no direito de julgar a experiência da mulher negra curitibana do alto de seus sapatos de homem branco e rico. (Deve desculpas também à vereadora eleita Carol Dartora, inclusive por ter menosprezado a formação acadêmica dela).

(Também o Ministério Público do Paraná deve desculpas, no mínimo, à conselheira tutelar eleita Aline Farias, mas isso é assunto para outro texto).

Tive vergonha da fala do prefeito. Tive vergonha de nossa cidade. Mas principalmente tive vergonha de mim. Que o Sidnei, a Carol Dartora e tantos outros negros de Curitiba possam me perdoar, nos perdoar e nos ajudar a caminhar em direção a um futuro em que a cidade realmente tenha justiça racial.

E que nunca mais nessa terra uma criança de 7 anos aprenda a ser racista.

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11 comentários sobre “Perdão, Sidnei

  1. Um texto em favor de humanidades. Lucidez, mea culpa, sensibilidade, empatia, ainda nos conduzirão ao lado mais humano e solidário da “encruzilhada civilizatória”. Pode ser que o mundo não tenha mesmo jeito, mas se tornará, pelo menos, mais respirável.

  2. Como me identifiquei com esta reflexão! Lembrei da Fernanda, o meu Sidnei. Também torço que ela esteja bem. Sigamos como racistas em desconstrução, devemos demais ao povo negro. Obrigada pelo artigo!

  3. Uma sugestão: procure a escola peça a relação de alunos na sua turma daquele ano e se tiver sorte vai poder falar sobre isso com o Sidney. Deus queira que ele tenha superado isso e tudo o mais que ele deve ter passado.
    Que bom que somos dessas pessoas que conseguem aprender.

  4. Quando vivi na Alemanha conheci uma pessoa de Florianópolis que me disse que não queria mais retornar. Na Alemanha ele sentia muito menos preconceito do que em sua cidade natal. E conheci um descendente de alemães, muito “alemão”, que não conseguiu prosseguir seus estudos naquele país, pois lá ele descobriu que era brasileiro.
    E o baque foi forte. Há muito o que aprendermos e construirmos sobre nós mesmos. Os brasileiros. Certamente muita educação, conhecimento e saúde mental são necessários.

    1. Minha filha mora na França há 13 anos e não pretende voltar para Curitiba pelo mesmo motivo
      Diz q nunca se sentiu tao estrangeira como nos seus primeiros 20 anos , vividos em Curitiba cidade na qual ela nasceu

  5. ótimo texto, que nos leva a reflexão, tenho 44 anos, sou neta de negro, meu vô era lindo, pos tinha era misrtura de negro com índio, cresci gostando e adimirando a cor negra, mas também tive a infelicidade de conhecer o racismo, minha vó paterna não gostava de minha mãe por ela ser negra…e já vi algumas pessoas falando mal de pessoas negras, ficou chocada, acho isso tudo uma burrice da humanidade.

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