Mais de 51,4 mil casos de Covid-19 e 186 mortes provocadas pela doença desde o início da pandemia em Curitiba não constam no balanço da Secretaria de Saúde do Paraná (Sesa). Os números correspondem à diferença entre os dados divulgados pelo governo estadual e pela prefeitura.
Até domingo (13), o balanço do governo do Paraná contabilizava 1.771 mortes acumuladas em Curitiba --186 a menos do que o total contabilizado pela prefeitura da capital (1.957 óbitos).
Em relação ao número de casos, a divergência é ainda mais expressiva. Enquanto o governo estadual registra 44.782 casos na capital, a prefeitura já contou mais que o dobro disso: 96.220.

O represamento dos dados da pandemia em Curitiba afeta também os balanços do Ministério da Saúde e do consórcio de veículos de imprensa, que utilizam como fonte as tabelas compiladas pelas secretarias estaduais.
A divergência de informações entre governo e prefeitura ocorre ao menos desde 8 de outubro. O Plural apurou que, desde então, a coluna de novos óbitos em Curitiba aparece zerada em nada menos do que 16 balanços estaduais diferentes, fato que não corresponde à realidade.
Neste último fim de semana, por exemplo, o governo do Paraná registrou a ocorrência de apenas dois óbitos em Curitiba –um no sábado (12) e outro no domingo (13). Já a prefeitura, na soma de ambos os dias, contabilizou 33 mortes.

"Falta uniformização"
Questionada pelo Plural sobre esse represamento de dados, a Secretaria de Saúde do Paraná atribuiu o problema ao fato de Curitiba não utilizar o sistema oficial do Estado, chamado 'Notifica Covid-19', o mesmo que seria usado pelos outros 398 municípios paranaenses.
"Há falta de uniformização das informações e programação do sistema municipal de Curitiba para transferência de dados para o sistema oficial do Paraná", disse a secretaria, em nota. "Isto ocorre desde o início da pandemia".
De acordo com o órgão estadual, a Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba envia uma planilha diária para o governo, com casos e óbitos ocorridos no município. "Após isso, o grupo técnico do Estado e responsável pela emissão do Informe Estadual, passa a cruzar as informações fornecidas com outros bancos de dados."
Também em resposta ao Plural, a Prefeitura de Curitiba negou a existência de represamento de dados. De acordo com a prefeitura, os registros de novos casos e mortes são incluídos diariamente nos sistemas nacionais de notificação obrigatória do governo federal.
"O fluxo inicial estabelecido entre Curitiba e a Sesa [Secretaria de Estado da Saúde] prevê que nos casos de pacientes internados, os hospitais realizem a notificação no Sivep [Sistema de Informa Epidemiológica da Gripe – Síndrome Respiratória Aguda Grave] e SIM [Sistema de Informação Sobre Mortalidade] e essas informações migrariam para o Notifica Covid-19", declarou a prefeitura, em nota.
"O conflito entre os sistemas e fluxos de notificação está sendo discutido em conjunto pelas secretarias a fim de corrigir as divergências. A equipe da epidemiologia está avaliando caso a caso e repassando as informações corrigidas para a Sesa".
Passados mais de nove meses desde o início da pandemia, declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no último dia 11 de março, os órgãos de saúde de Curitiba e do Paraná ainda precisam se entender sobre a contagem de casos e mortes na capital, sob pena de afetar a credibilidade dos números divulgados.