Os contribuintes sem grana, e os governos gastando em publicidade | Jornal Plural
17 dez 2019 - 20h20

Os contribuintes sem grana, e os governos gastando em publicidade

Só o governo Ratinho gastou R$ 6 milhões por mês em publicidade

Papais e mamães que não querem deixar os filhos sem um presente no natal precisam pesquisar muito até encontrar ofertas que caibam nos orçamentos apertados da maioria da população. Pra algumas famílias, nenhuma pesquisa resolve: a única prioridade, a escolha possível é garantir que o dia 25 tenha comida na mesa, pelo menos.

Mas basta uma verificada rápida na Internet pra ver que, com R$ 6 milhões, dá pra comprar mais de 100 mil bonecas ou carrinhos de boa qualidade nas maiores redes populares. Se for pra multiplicar o alcance da grana, numa loja do centro de Curitiba tem um conjunto de arco e flecha por R$ 8 – dá pra formar uma tribo de umas 700 mil crianças…

Pois R$ 6 milhões foi o que o governo Ratinho Jr. (PSD) gastou em propaganda por mês em 2019. Pouco menos que os R$ 7,4 milhões gastos pelo prefeito Rafael Greca para contar que tá asfaltando até paralelepípedos em Curitiba. Tudo isso devidamente divulgado por esse Plural, fundamental novo espaço com noticiário sério e independente sobre o que acontece no Paraná.

A maior parte dessa dinheirama vai para o caixa das empresas que dominam o mercado de emissoras de rádio e tv, Internet, jornais e revistas no Paraná. As mesmas empresas que, não é de hoje, passaram a organizar eventos e campanhas de solidariedade, de cidadania.

O modelo é quase sempre o mesmo, não importa em que cidade e qual o veículo promove. Entidades patronais, igrejas, algumas ONGs e até secretarias municipais ou estaduais cuidam da logística, cedem os espaços para a realização das festas e organizam a distribuição dos presentes. O povo, contribuinte, é convocado pra doar agasalhos, brinquedos, cestas básicas etc. É o espírito solidário do brasileiro que não costuma falhar.

Sobra para o jornal, o portal de Internet, a emissora de rádio colocarem sua programação para divulgar o evento. Jornalistas viram celebridades por um dia e participam da entrega do que o povo doou. Também há versões mais, digamos, elitizadas, chiques, quando a festa também arrecada dinheiro de jantares, shows etc.

Quase todos os envolvidos botam a mão no bolso, menos a turma da mídia. A mesma que, ao longo do tempo, só bota a mão no bolso para pegar os milhões recebidos do Poder Público em propaganda. É isso mesmo, essa parcela do empresariado não gosta de gastar do próprio bolso. 

Nessa brasileiríssima mistura do público com o privado, a novidade do ano no Paraná foi a decisão da Assembléia Legislativa de investir em divulgação dos próprios atos, uma bolada de R$ 30 milhões. Isso é verba igual à das maiores empresas da maioria dos estados, é muito dinheiro pra torrar sob o slogan “Quando é bom pra você, a Assembléia aprova!”…

É como se cada deputado estadual pudesse gastar uns R$ 500 mil pra explicar aos seus eleitores o que andou fazendo em nome do povo. Mas não é pra explicar exatamente isso que os parlamentares passam grande parte dos seus dias lá nas bases, em contato com a população, prestando contas e ouvindo novas reivindicações? Ou o Legislativo paranaense precisa de propaganda porque corre o risco de ser substituído pela Assembleia dos vizinhos catarinenses?

Não, a propaganda tem sido usada mesmo é para falar bem de quem está no poder, mostrando as realizações que foram prometidas nas campanhas. E isso acaba gerando absurdos num tempo em que falta recurso pra quase tudo na maioria das cidades, quando o funcionalismo público é atacado como inimigo, perde direitos e é substituído por modelos terceirizados de contratação.

Como pode a administração do jovem município de Campo Magro gastar com propaganda o que poderia melhorar a merenda da criançada? Alguém acha que precisa mesmo fazer propaganda das belezas de Guaratuba?

Aqui, uma informação importantíssima. Quem mora na região de Curitiba, por exemplo, é bombardeado com a divulgação do poder público da região metropolitana, não vê o festival de gastos publicitários que se espalha por Maringá, Foz, Guarapuava etc.

Ok, não vai tudo SÓ para as empresas de mídia, também tem a parte das agências de propaganda, produtoras e profissionais avulsos. Se o argumento de que a propaganda é um mercado importante, que dá emprego a milhares de pessoas, pelo menos o conteúdo do que é veiculado merece, sim, questionamentos.

Se é pra gastar o dinheiro do cidadão, por que não substituir o oba-oba eleitoral por serviços de interesse real pra população? Divulgar a feira de produtos que um grupo de agricultores organiza, abrir espaço para que a população conheça os talentos esportivos que precisam de patrocínio, encher de orgulhos pais e mães com as atividades culturais de seus filhos…

Tem tanta coisa bacana sendo feita por aí, mesmo num período de tantas dificuldades. Cursos de qualificação, jornadas de discussão dos problemas de uma comunidade, a própria História dos municípios, não falta assunto com utilidade bem maior do que ouvir o prefeito dizer que asfaltou…

É uma tradição que não merece ser preservada: quando a crise chega, o capitalismo liberal se socorre do dinheiro público num perigoso relacionamento que pode contaminar a independência, por exemplo, do jornalismo. Se é pra continuar gastando os impostos dos cidadãos e ainda pedir que eles levem Barbies, arroz e óleo de soja, cobertores e moletons, que a ética seja respeitada e os valores não sejam trocados por…valore$.

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