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STF, antipetismo e erros estratégicos fizeram PT ser derrotado no primeiro turno

Especialista projeta vitória de Flavio Bolsonaro (PL) por 54% a 46% no segundo turno contra o presidente Lula (PT)

STF, antipetismo e erros estratégicos fizeram PT ser derrotado no primeiro turno
Flavio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputam o segundo turno das eleições 2026 | Fotos: Tami Taketani/Plural.
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Na sexta-feira (09) recomeça o horário eleitoral na televisão e as campanhas de Flávio Bolsonaro (PL) e de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já traçam as novas estratégias para conquistar o Planalto. Bolsonaro é favorito a ganhar o pleito, enquanto o Lula precisa fazer uma virada histórica para conquistar o quarto mandato.

No primeiro turno, embora as pesquisas apontassem uma leve vantagem para Lula, o resultado terminou com 47,03% de votos para Flavio contra 45,16% para Lula. Isso surpreendeu o staff petista, enquanto o clã bolsonarista comemorou o que, segundo eles, já aparecia em pesquisas internas.

Para o especialista em marketing e sociologia política Sergio Czajkowski Junior, o cenário para o segundo turno dificilmente vai mudar. Ele projeta um resultado próximo de 54% para Flavio Bolsonaro e 46% para o presidente Lula.

“Do ponto de vista macro, o resultado é uma fotografia que reflete momentos cíclicos. A gente não pode desconectar isso do que está acontecendo globalmente, esse movimento pendular, de direita e esquerda e, no Brasil, seguimos esse mesmo barco”, explica.

Um dos pontos para o qual Czajkowski chama atenção é o entendimento do que é esquerda e direita. Um eleitor pode ser liberal nos costumes e conservador na economia e o contrário também, e isso precisa ser considerado na hora de traças as estratégias. “Às vezes a gente questiona como um indivíduo que, por exemplo, tem condições socioeconômicas mais desfavoráveis pode votar no Flavio, sem entender que, para este indivíduo, o que importa é se o problema dele será resolvido. Outro fator é a percepção que o indivíduo tem sobre o cenário (...). Quando fiz trabalho voluntário na Vila Torres para a pesquisa de doutorado, por exemplo, perguntei a um senhor qual a primeira coisa que ele pensava quando eu dizia ‘Curitiba’. Ele me respondeu que era ‘capital ecológica’, mesmo morando às margens do Canal Belém”, analisou o especialista.

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Este contexto demonstra que os eleitores brasileiros têm dois perfis: aqueles que priorizam desenvolvimento e integração e outros que priorizam desenvolvimento e ganhos financeiros.

Uma das falhas na campanha do presidente Lula, identificada por Czajkowski, é a falta de entendimento sobre o que a população deseja fora da bolha. “Tivemos o esgotamento de um modelo que não consegue mais estar conectada à base da pirâmide”, disse.

A associação automática entre pobreza e identificação com a esquerda pode esconder uma das principais transformações do eleitorado brasileiro: parcelas da população de menor renda passaram a combinar a defesa de políticas sociais com valores conservadores no campo da religião, da família e dos costumes.

Para o especialista, a esquerda ainda tem uma visão limitada sobre esse eleitor. “Essa visão ainda míope, essa visão ainda, desculpa, burra da esquerda de imaginar assim: o pobre vai votar na esquerda. E não vai”.

Segundo ele, existe uma parcela do eleitorado popular que pode se aproximar de propostas de redução da desigualdade e de uma social-democracia, mas que mantém uma forte identificação religiosa e conservadora. Esse eleitor pode defender políticas sociais e, ao mesmo tempo, ter posições diferentes da esquerda tradicional em temas relacionados aos costumes. A contradição, segundo Czajkowski Junior, é apenas aparente. A identidade política desse grupo não é construída exclusivamente a partir da condição econômica.

“O PT não é socialista. Ele trabalha em uma linha mais social-democrata”, afirma. Para ele, parte do eleitorado popular poderia se inclinar para a esquerda dentro do espectro político, mas acaba mantendo uma ligação mais forte com a direita por causa de questões religiosas e socioculturais. “Essa é uma dualidade: ele até em alguns casos se inclinaria mais, digamos assim, para a esquerda dentro do espectro político. Contudo, a marca que mantém ele muitas vezes mais vinculado ao que nós chamamos de direita é a questão religiosa, a questão sociocultural, moral”, explica.

Religião

Nesse processo, a religião também tem impactos. Ela não funcionaria apenas como uma convicção individual. É também seria um mecanismo de pertencimento social. Em comunidades nas quais a Igreja ocupa um papel importante na vida cotidiana, a posição política do indivíduo pode ser influenciada pelas relações familiares, pelas amizades e pelo ambiente social construído nesses espaços.

Czajkowski vê que este fator ajuda a explicar por que determinados eleitores, mesmo tendo interesses econômicos que poderiam aproximá-los da esquerda, permanecem vinculados à direita.

“Como é que eu, indivíduo lá que mora numa região periférica, vou poder sequer argumentar lá com a minha família ou com o meu colega de trabalho que eu sigo uma linha ideológica política mais à esquerda se isso que eles apregoam, em alguns casos, vai contra a minha religiosidade, vai contra a minha moral?”

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Para ele, existe uma pressão social exercida pelas relações mais próximas. “Existe um microcosmos ali muito forte. Essas nanorrelações, se você quiser colocar, são muito baseadas nessa moralidade ligada a essa tradição judaico-cristã”, detalha.

Nesse cenário, a escolha eleitoral deixa de ser apenas uma decisão individual. O eleitor também precisa lidar com a identidade construída dentro da família, da igreja e da comunidade em que vive. “Esse indivíduo vai se sentir confortável em andar lá com o botão ‘voto em Lula’, por exemplo?”, questiona o professor.

Segundo ele, o eleitor pode temer ser associado a comportamentos que sua comunidade religiosa rejeita e, por isso, encontrar dificuldades para assumir publicamente uma identificação com a esquerda.

STF

A visão da população sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) também teve impacto na campanha eleitoral. A maioria dos deputados eleitos pelo Partido Liberal e aliados, embasou o discurso de campanha na cassação de ministros do STF, sobretudo depois do caso do Banco Master.

Ligações de Daniel Vorcaro, CEO do Banco, com o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Morais e diálogos com Ciro Soares para uma intermediação de contato com Gilmar Mendes, por exemplo, aumentaram a antipatia dos eleitores com o STF.

O campo bolsonarista, para o especialista, soube ‘surfar’ nesta onda. Em contrapartida, Lula foi mais contido em relação às críticas ao STF, embora tenha falado em mandatos com validade ou outras formas de indicação aos cargos de ministro.

Por outro lado, apesar da ligação documentada de Flavio Bolsonaro com Vorcaro, o caso do Banco Master não ‘colou’ no candidato direitista, outro ponto que poderia ter sido melhor explorado pela campanha de Lula.

“Quando Flavio foi anunciado como candidato ao invés de Tarcísio [de Freitas, governador reeleito de São Paulo, do Republicanos], o grupo de Lula comemorou, achando que seria mais fácil derrotar Flavio. Ficaram muito tempo em silêncio, deixando Flavio fazer sua campanha sem incômodo”, destacou Czajkowski.

Juventude

Lucas Pavanato (PL), 28 anos, recebeu 3.038.438 votos para se tornar o candidato a deputado federal mais votado em São Paulo. Eduarda Campopiano (PL), 23 anos, acumulou 1.956.238 votos como candidata a deputada estadual em São Paulo. No Paraná, Ana Julia (PT), de 26 anos, recebeu 184.691 e Guilherme Kilter, de 24 anos, teve 269.820 votos.

Em contrapartida, políticos como Roberto Requião (PDT) e Beto Richa (PSDB), ex-governadores do Paraná, ficaram de fora, o que demonstra uma troca geracional do eleitorado. Este entendimento precisa refletir na comunicação da campanha, algo que o time de Lula não compreendeu.

Existe um eleitorado jovem que, ao contrário das últimas décadas, é conservador, mas aprendeu a usar as redes sociais para se comunicar. Para Czajkowski, o histórico de programas sociais bem-sucedidos e outros avanços do campo da esquerda deixou a campanha acomodada. “A esquerda ficou acomodada, ficou tocando a bola de lado, perdeu a posse e tomou o gol. Agora tem a prorrogação para tentar empatar e virar, mas eu acho difícil”.

Militância

Após a derrota no primeiro turno, Lula mencionou, em tom de brincadeira, que gostaria de ter ganhado em primeiro turno, mas que o eleitor gostava de vê-lo disputando o segundo.

A militância do Partido dos Trabalhadores e aliados do presidente, por outro lado, também precisa compreender como eleitores do clã Bolsonaro decidiram o voto. Fatores como a rejeição ou valores pessoais não fazem deste sujeito uma pessoa fascista ou antidemocrática. “Colocar a pecha de fascista ou golpista neste eleitor é um erro, porque muitos deles fazem a escolha pelo Flavio somente por não querer o PT, não porque são contra a democracia ou a favor do golpe”, destaca.

Nesta segunda-feira (05) uma reunião virtual do PT discutiu estratégias para o segundo turno, maneiras de virar voto e/ou convencer eleitores de Flavio Bolsonaro a não votar. É um esforço para tentar reverter revés do primeiro turno.

O bolsonarismo venceu

“Quem ganhou de fato a eleição foi uma nova direita que não é a direita nem dos cafeicultores, nem dos ervateiros, nem das capitanias hereditárias, mas é uma elite nova que está se formando aí, que veio de baixo”, salienta o especialista.

No primeiro turno a diferença entre Lula e Flavio Bolsonaro foi de 1,87 ponto percentual, a menor desde a redemocratização. Antes, a marca era de 2022, quando Lula superou Jair Bolsonaro (PL) por 5,23.

A vitória de Flavio Bolsonaro neste contexto não é uma vitória da extrema-direita no Brasil, mas sim do próprio bolsonarismo. Como mencionado acima pelo professor Sergio Czajkowski Junior, o eleitorado bolsonarista não é composto apenas por pessoas que declaradamente são de extrema-direita, mas sobretudo por aqueles que esperam respostas práticas para seus anseios, algo que o bolsonarismo soube fazer.

Em 2022, Lula terminou o primeiro turno com 57,26 milhões de votos, contra 51,07 milhões de Jair Bolsonaro. A diferença de 6,19 milhões de votos correspondia a 5,23 pontos percentuais dos votos válidos.

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Naquela eleição, os candidatos que não avançaram para a segunda etapa concentraram quase 9,7 milhões de votos. Simone Tebet (MDB) recebeu 4,92 milhões, Ciro Gomes (PDT), 3,60 milhões, Soraya Thronicke (União Brasil), 601 mil, e Felipe d’Avila (Novo), 560 mil. Apenas a soma dos votos de Tebet e Ciro, de quase 8,5 milhões, já superava a vantagem de Lula sobre Bolsonaro no primeiro turno.

A migração desse eleitorado foi um dos fatores que marcaram a campanha de 2022. O PDT anunciou apoio a Lula em 4 de outubro, dois dias depois do primeiro turno, após pedir a incorporação de três propostas de Ciro ao programa de governo petista. No dia seguinte, Tebet declarou voto em Lula e passou a fazer campanha ao lado do candidato.

Do outro lado, Bolsonaro recebeu o apoio de Romeu Zema (Novo), reeleito governador de Minas Gerais. Soraya Thronicke, por sua vez, declarou que se absteria no segundo turno.

Mesmo com a vantagem de 5,23 pontos percentuais no primeiro turno, Lula terminou a eleição com uma diferença bem menor. O petista foi eleito com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro, uma vantagem de apenas 1,8 ponto percentual.

Para as eleições de agora, o cenário é mais favorável a Bolsonaro. Lula terá que apostar em eleitores que não têm voto obrigatório ou na abstenção de quem votou no campo da direita e que eventualmente não vote neste segundo turno.

Todavia, para Czajkowski, o resultado está consolidado e a vitória deve ser de Flavio Bolsonaro, o que dá ao PT a missão de recalcular a rota para 2030, 2034 e pensar em novas lideranças para concorrer ao pleito. “O que aconteceu neste primeiro turno começou há dois anos. Quando o PT começou a perder prefeituras isso já devia ter servido de alerta para esta campanha. Agora é pensar em 2030. Para mim esta campanha já está resolvida, muito dificilmente haverá mudança porque mesmo as medidas como o encerramento das Bets não foram suficientes para chamar atenção do eleitor”.

Nesse cenário, a disputa política não se resume à divisão entre ricos e pobres, nem entre esquerda e direita. O eleitor pode combinar diferentes posições econômicas, sociais e culturais. E é justamente nessa intersecção entre classe, religião, costumes e pertencimento que Czajkowski identifica uma das principais razões para a força atual da nova direita brasileira.

Segundo turno

O segundo turno das eleições brasileiras acontece no dia 25 de outubro, das 8h às 17h, nas mesmas zonas eleitorais do primeiro turno. Quem não votou no primeiro turno pode votar normalmente no segundo. É preciso levar documento com foto e é proibido uso de celular na cabina de votação.

 

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Aline Reis

Aline Reis

Jornalista e especialista em Gestão da Comunicação, Assessoria e Marketing pela Universidade Positivo (UP). Mestra em Estudos de Linguagens pela UTFPR. Presidenta do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná.

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