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Quem tem medo do Bolsa Família?

Antes do Bolsa Família, ajuda social em Curitiba vinha numa sacola, entregue em cima de um palanque. Duas décadas depois, 57.981 famílias da cidade recebem o benefício direto no cartão, e é exatamente isso que incomoda

Quem tem medo do Bolsa Família?
Foto: Nathália Rosa / Unsplash
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Em agosto de 2026, 57.981 famílias de Curitiba e 567.669 no Paraná recebiam o Bolsa Família, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Desde 2004, o número mais que dobrou na capital. Neste artigo, a jornalista Rosiane Correia de Freitas compara o programa às políticas de distribuição de cestas e sacolas que marcaram a assistência social em Curitiba no início dos anos 2000.

A minha carreira de repórter começou no início dos anos 2000, quando a guerra das cestas, litros de leite, botijões de gás e outras "políticas sociais" estava em pleno andamento. As campanhas eleitorais daquela época eram uma disputa para ver quem prometia mais litros de leite para a população carente.

Foi nesse contexto que me vi como repórter num evento da Prefeitura de Curitiba, no Sul da cidade, para o lançamento de mais uma iniciativa do gênero. Num dia quente, fim da manhã, sol a pino, algumas dezenas de mulheres com seus filhos pequenos esperavam pacientemente enquanto as autoridades chegavam: prefeito, vice, a primeira-dama, um punhado de vereadores, lideranças locais, chefes das regionais da prefeitura e diversas equipes de jornalistas, numa época em que isso significava pelo menos repórter, cinegrafista ou fotógrafo e motorista.

No palco lotado, cinco, seis pessoas discursaram antes de passar a palavra para o prefeito. Você, como eu, pode estar se perguntando por que as mães com os filhos pequenos assistiram a tudo isso. A resposta: no fim do evento, a prefeitura fez a entrega da benesse do dia, uma sacola com meia dúzia de legumes, hortaliças e frutas.

Aquela sacola custou às mães uma manhã inteira e rendeu aos políticos uma fotografia e entrevistas para a tevê e para as rádios. Não era um acidente de cerimonial, era o modelo: o benefício só existia se houvesse palanque, e o palanque só existia se houvesse gente esperando pelo benefício.

Foi essa lógica que o Bolsa Família quebrou. Criado em outubro de 2003, o programa federal juntou o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação, o Auxílio-Gás e o Cartão Alimentação numa transferência só. O dinheiro passou a cair num cartão, pago preferencialmente à mulher responsável pela família, como determinava a lei que criou o programa. Hoje, 83,9% das famílias atendidas no país têm uma mulher como responsável, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Sem fila no sol, sem discurso, sem padrinho.

Em agosto de 2026, 57.981 famílias de Curitiba recebiam o Bolsa Família, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. No Paraná, eram 567.669. Uma em cada dez famílias atendidas pelo programa no estado mora na capital. O benefício mínimo é de R$ 600 por família, com adicionais para crianças pequenas, gestantes e adolescentes.

A transferência direta faz mais do que cortar o intermediário entre o dinheiro do governo e o bolso do cidadão. Ela redistribui renda e movimenta a economia local. No modelo anterior, quem decidia o que comprar, de quem e onde era o poder público. A cesta básica era licitada pela prefeitura ou pelo governo e entregue por fornecedores contratados. Mesmo quando a compra era feita de produtores do estado, como no Leite das Crianças, do governo do Paraná, abastecido por laticínios e cooperativas, a escolha era do governo, e o fornecedor nem sempre ficava na região de quem recebia o leite. O dinheiro passava longe das comunidades. Com o Bolsa Família, o dinheiro vai dos cofres públicos para o bolso do beneficiário. E do bolso dele para o comércio do bairro.

A diferença é brutal. Se antes a entrega de cestas básicas, leite e gás só resolvia pontualmente as necessidades das famílias, o dinheiro do Bolsa Família alimenta a economia local, gerando oportunidades e empregos onde eles são necessários.

O que se sabe depois de duas décadas não é pouco. Um estudo publicado na revista The Lancet em 2013 mostrou que a mortalidade de crianças menores de cinco anos caiu mais nos municípios com maior cobertura do programa, sobretudo nas mortes por desnutrição e diarreia. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que cada real gasto no Bolsa Família gera cerca de R$ 1,78 no Produto Interno Bruto, porque o dinheiro vira consumo no comércio do bairro.

O programa também sobreviveu à troca de governos. Passou por Dilma e Temer, foi rebatizado de Auxílio Brasil por Bolsonaro em 2021 e voltou a se chamar Bolsa Família em 2023, com Lula. O nome mudou, o desenho mudou, mas a transferência direta de renda nunca foi interrompida. Desde dezembro de 2021, ela está na Constituição. O artigo 6º garante a todo brasileiro em situação de vulnerabilidade social uma renda básica familiar, paga em programa permanente. Quem quer que seja eleito pode mudar o nome, as regras e o valor. Acabar com a transferência de renda, não.

Os números acompanham essa história. Em dezembro de 2004, primeiro ano completo do programa, 24.369 famílias curitibanas recebiam o benefício; no Paraná, 308.754. Em pouco mais de duas décadas, o total mais que dobrou na capital, uma alta de 138%, e cresceu 84% no estado. O caminho não foi uma linha reta. Em Curitiba, o número chegou a 49.140 famílias em 2009 e caiu para 27.433 em 2019, o menor desde 2004. Com a recriação do programa, em 2023, voltou a passar de 60 mil. Em 2025, recuou para 54.123, queda de quase 12% em relação ao ano anterior, movimento que se repetiu no estado. Não é uma lista que só cresce: famílias entram e saem conforme a renda, a economia e as regras do programa.

O repasse direto do dinheiro tem outro ganho importante: ele devolve ao cidadão o controle sobre a própria vida. Com o dinheiro em mãos, é ele quem decide como gastar. Não é preciso mais se conformar com o que tem na sacolinha. Agora a mãe pode comprar um tênis novo para o filho ir para a escola, colocar crédito no celular, pegar um saco de cimento para dar uma melhorada na casa.

É aí que reside a razão do medo. Quem está dentro dos critérios faz o cadastro e recebe, sem precisar da bênção do vereador do bairro nem do chefe da regional. E quem vivia de intermediar a sacolinha perdeu a moeda de troca. O palanque ficou vazio.

Sim, o presidente Lula ganha crédito pelo programa. Assim como Fernando Henrique Cardoso recebe pelo Plano Real e pelo Bolsa Escola federal. Luciano Ducci, então secretário municipal da Saúde, é lembrado pelo Mãe Curitibana, criado em 1999. Rafael Greca, pelos Faróis do Saber. E Jaime Lerner, pelo planejamento urbano de Curitiba. É isso que acontece com políticas públicas duradouras e de efeito comprovado, sejam elas "de direita" ou "de esquerda".

O que o eleitor precisa saber sobre quem pede seu voto não é se é contra ou a favor do Bolsa Família. É se é capaz de criar políticas igualmente duradouras, que tenham objetivos e metas claros e se tornem permanentes por seus próprios méritos. Políticas que não precisem de mães esperando no sol para existir.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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Assuntos: Artigos

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