Em agosto de 2026, 57.981 famílias de Curitiba e 567.669 no Paraná recebiam o Bolsa Família, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Desde 2004, o número mais que dobrou na capital. Neste artigo, a jornalista Rosiane Correia de Freitas compara o programa às políticas de distribuição de cestas e sacolas que marcaram a assistência social em Curitiba no início dos anos 2000.
A minha carreira de repórter começou no início dos anos 2000, quando a guerra das cestas, litros de leite, botijões de gás e outras "políticas sociais" estava em pleno andamento. As campanhas eleitorais daquela época eram uma disputa para ver quem prometia mais litros de leite para a população carente.
Foi nesse contexto que me vi como repórter num evento da Prefeitura de Curitiba, no Sul da cidade, para o lançamento de mais uma iniciativa do gênero. Num dia quente, fim da manhã, sol a pino, algumas dezenas de mulheres com seus filhos pequenos esperavam pacientemente enquanto as autoridades chegavam: prefeito, vice, a primeira-dama, um punhado de vereadores, lideranças locais, chefes das regionais da prefeitura e diversas equipes de jornalistas, numa época em que isso significava pelo menos repórter, cinegrafista ou fotógrafo e motorista.
No palco lotado, cinco, seis pessoas discursaram antes de passar a palavra para o prefeito. Você, como eu, pode estar se perguntando por que as mães com os filhos pequenos assistiram a tudo isso. A resposta: no fim do evento, a prefeitura fez a entrega da benesse do dia, uma sacola com meia dúzia de legumes, hortaliças e frutas.
Aquela sacola custou às mães uma manhã inteira e rendeu aos políticos uma fotografia e entrevistas para a tevê e para as rádios. Não era um acidente de cerimonial, era o modelo: o benefício só existia se houvesse palanque, e o palanque só existia se houvesse gente esperando pelo benefício.
Foi essa lógica que o Bolsa Família quebrou. Criado em outubro de 2003, o programa federal juntou o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação, o Auxílio-Gás e o Cartão Alimentação numa transferência só. O dinheiro passou a cair num cartão, pago preferencialmente à mulher responsável pela família, como determinava a lei que criou o programa. Hoje, 83,9% das famílias atendidas no país têm uma mulher como responsável, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Sem fila no sol, sem discurso, sem padrinho.
Em agosto de 2026, 57.981 famílias de Curitiba recebiam o Bolsa Família, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. No Paraná, eram 567.669. Uma em cada dez famílias atendidas pelo programa no estado mora na capital. O benefício mínimo é de R$ 600 por família, com adicionais para crianças pequenas, gestantes e adolescentes.
A transferência direta faz mais do que cortar o intermediário entre o dinheiro do governo e o bolso do cidadão. Ela redistribui renda e movimenta a economia local. No modelo anterior, quem decidia o que comprar, de quem e onde era o poder público. A cesta básica era licitada pela prefeitura ou pelo governo e entregue por fornecedores contratados. Mesmo quando a compra era feita de produtores do estado, como no Leite das Crianças, do governo do Paraná, abastecido por laticínios e cooperativas, a escolha era do governo, e o fornecedor nem sempre ficava na região de quem recebia o leite. O dinheiro passava longe das comunidades. Com o Bolsa Família, o dinheiro vai dos cofres públicos para o bolso do beneficiário. E do bolso dele para o comércio do bairro.
A diferença é brutal. Se antes a entrega de cestas básicas, leite e gás só resolvia pontualmente as necessidades das famílias, o dinheiro do Bolsa Família alimenta a economia local, gerando oportunidades e empregos onde eles são necessários.
O que se sabe depois de duas décadas não é pouco. Um estudo publicado na revista The Lancet em 2013 mostrou que a mortalidade de crianças menores de cinco anos caiu mais nos municípios com maior cobertura do programa, sobretudo nas mortes por desnutrição e diarreia. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que cada real gasto no Bolsa Família gera cerca de R$ 1,78 no Produto Interno Bruto, porque o dinheiro vira consumo no comércio do bairro.
O programa também sobreviveu à troca de governos. Passou por Dilma e Temer, foi rebatizado de Auxílio Brasil por Bolsonaro em 2021 e voltou a se chamar Bolsa Família em 2023, com Lula. O nome mudou, o desenho mudou, mas a transferência direta de renda nunca foi interrompida. Desde dezembro de 2021, ela está na Constituição. O artigo 6º garante a todo brasileiro em situação de vulnerabilidade social uma renda básica familiar, paga em programa permanente. Quem quer que seja eleito pode mudar o nome, as regras e o valor. Acabar com a transferência de renda, não.
Os números acompanham essa história. Em dezembro de 2004, primeiro ano completo do programa, 24.369 famílias curitibanas recebiam o benefício; no Paraná, 308.754. Em pouco mais de duas décadas, o total mais que dobrou na capital, uma alta de 138%, e cresceu 84% no estado. O caminho não foi uma linha reta. Em Curitiba, o número chegou a 49.140 famílias em 2009 e caiu para 27.433 em 2019, o menor desde 2004. Com a recriação do programa, em 2023, voltou a passar de 60 mil. Em 2025, recuou para 54.123, queda de quase 12% em relação ao ano anterior, movimento que se repetiu no estado. Não é uma lista que só cresce: famílias entram e saem conforme a renda, a economia e as regras do programa.
O repasse direto do dinheiro tem outro ganho importante: ele devolve ao cidadão o controle sobre a própria vida. Com o dinheiro em mãos, é ele quem decide como gastar. Não é preciso mais se conformar com o que tem na sacolinha. Agora a mãe pode comprar um tênis novo para o filho ir para a escola, colocar crédito no celular, pegar um saco de cimento para dar uma melhorada na casa.
É aí que reside a razão do medo. Quem está dentro dos critérios faz o cadastro e recebe, sem precisar da bênção do vereador do bairro nem do chefe da regional. E quem vivia de intermediar a sacolinha perdeu a moeda de troca. O palanque ficou vazio.
Sim, o presidente Lula ganha crédito pelo programa. Assim como Fernando Henrique Cardoso recebe pelo Plano Real e pelo Bolsa Escola federal. Luciano Ducci, então secretário municipal da Saúde, é lembrado pelo Mãe Curitibana, criado em 1999. Rafael Greca, pelos Faróis do Saber. E Jaime Lerner, pelo planejamento urbano de Curitiba. É isso que acontece com políticas públicas duradouras e de efeito comprovado, sejam elas "de direita" ou "de esquerda".
O que o eleitor precisa saber sobre quem pede seu voto não é se é contra ou a favor do Bolsa Família. É se é capaz de criar políticas igualmente duradouras, que tenham objetivos e metas claros e se tornem permanentes por seus próprios méritos. Políticas que não precisem de mães esperando no sol para existir.