Eleito deputado estadual no último domingo (4) com 192.409 votos, Paulo Melo (PL) declarou à Justiça Eleitoral que é empresário, mas até março deste ano tinha um cargo no gabinete do prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), com um salário bruto de R$ 14,9 mil. Ele foi exonerado no dia 31 de março, após receber um total de R$ 74 mil da prefeitura, segundo dados do Portal da Transparência.
Antes de ocupar o cargo na Secretaria de Governo Municipal, Melo chegou a ser nomeado por Pimentel para a mesma pasta, em julho do ano passado, para prestar serviços no Instituto Municipal do Turismo (IMT). Mas acabou exonerado uma semana depois, após participar de um ato contra o presidente Lula (PT) e o ministro do Supremo Tribunal Alexandre de Moraes (STF) durante a tarde.
Apesar de se declarar empresário, Paulo Melo consta apenas como sócio-administrador do Instituto Luzeiro, definido como "Instituto conservador de formação política". Ele já apareceu como sócio de duas empresas em Curitiba, a academia Body Smart Studio de Pilates e a Suplemen Ação a Comércio Varejista de Suplementos Nutricionais e Moda Fitness, mas a ambas constam como baixadas no portal de consultas de CNPJ do governo federal.
"Nomeado erroneamente"
Na tarde de 24 de julho de 2025, quando já ocupava o cargo de Gestor Público Municipal I da Secretaria de Governo, Paulo Melo participou de um ato contra Lula e Alexandre de Moraes no viaduto da Avenida João Gualberto, no bairro Alto da Glória. A manifestação foi organizada pelo vereador de Curitiba Guilherme Kilter (Novo), eleito deputado federal no último domingo.

Questionada pelo Plural no dia seguinte, a Prefeitura informou apenas que Melo havia sido exonerado. Procurado, Melo afirmou, em nota enviada à reportagem, que havia sido nomeado "erroneamente".
"A nomeação é publicada no dia 21 de julho e é cancelada publicada com a mesma data. Ou seja, não exerci qualquer função, não tive vínculo funcional com a Prefeitura, não recebi remuneração, nem cumpri horário ou desempenhei qualquer atividade no Instituto de Turismo. Estou seguindo normalmente com minha vida particular e minhas atividades profissionais privadas."
Paulo Melo, deputado estadual eleito, em nota enviada ao Plural em julho do ano passado
O Portal da Transparência de Curitiba, no entanto, mostra que Paulo Melo recebeu R$ 4.068,18 líquidos em julho de 2025 (o bruto foi de R$ 4.740,88). Publicado no dia 18 de julho, o decreto de Eduardo Pimentel nomeou Melo para atuar a partir do dia 21 no IMT. Já a exoneração foi publicada no dia 25, após o questionamento do Plural, com data retroativa ao dia 21.

O cargo destinado ao militante bolsonarista foi previsto em um projeto da prefeitura aprovado no dia 16 de julho de 2025 pela Câmara Municipal de Curitiba. A base de apoio a Pimentel aprovou a criação de 39 cargos comissionados, a um custo estimado de R$ 20 milhões por ano.
No mesmo dia em que autorizaram R$ 20 milhões por ano para cargos políticos na prefeitura (segundo cálculo do Instituto e o Conselho de Gestão e Responsabilidade Fiscal da prefeitura), os vereadores limitaram o crescimento na carreira dos servidores municipais.

Nova nomeação para o mesmo cargo
Cerca de três meses depois de dizer ao Plural que seguiria com suas "atividades profissionais privadas", Paulo Melo foi nomeado para o mesmo cargo do qual havia sido exonerado – Gestor Público Municipal I, sigla EAG, símbolo C-3 – na Secretaria de Governo Municipal, mas ser cedido para o IMT. O decreto de Eduardo Pimentel foi publicado no dia 25 de setembro de 2025.
Na Secretaria de Governo, Paulo Melo recebeu um total de R$ 70.153,61 entre outubro de 2025 e abril deste ano. O salário bruto era de R$ 14.957,94 e o líquido de R$ 10.847,04 em março. O decreto de exoneração é do dia 31 de março. Ao todo, ele recebeu mais de R$ 74.221,79 nas duas nomeações.
Reduto do PL
O IMT vem abrigando filiados ao PL desde que Eduardo Pimentel assumiu a prefeitura, em janeiro do ano passado. Em maio, o presidente do Instituto, José Luiz Gonçalves Velloso, foi exonerado por ter assumido o cargo com mesmo tendo uma condenação judicial por improbidade administrativa. Ele era presidente do PL Jovem no Paraná.
Em abril do ano passado, a prefeitura exonerou Andréia Gois Maciel, que era lotada no IMT, mas dizia atuar como assessora do vereador Eder Borges na Câmara Municipal de Curitiba.
Borges (que era filiado ao PL e migrou para o Partido Novo em abril deste ano) vereador nomeou a filha de Andreia, Victoria Lauren Maciel Almeida, como sua chefe de gabinete, com salário de R$ 17.685,33. Ela permanece no cargo – a difrença é que agora ela recebe R$ 27.131,83.
Em redes sociais e em pronunciamento na própria Câmara, Eder Borges havia afirmado que Andreia era sua mulher, mas o Conselho de Ética da Câmara entendeu que o caso não configura nepotismo – com a ajuda de Guilherme Kilter, que votou para livrar o colega bolsonarista de investigação.
Claque de militantes
Acompanhados por uma claque de militantes, Paulo Melo e Guilherme Kilter estiveram no Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) no último domingo, após o anúncio do resultado da eleição. O deputado estadual eleito disse que em seu mandato "não haverá negociação com o centrão e a esquerda". Questionado sobre a afirmação, não precisou responder: a pergunta foi abafada pelos gritos dos militantes – talvez uma mostra de como pretende exercer seu mandato, silenciando questionamentos.

