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O casamento acaba. A família permanece

Hoje, não raro, observamos tentativas de “cancelamento familiar” pós divórcio. E há um paradoxo evidente nisso

O casamento acaba. A família permanece
Foto: Canva Pro
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Por muito tempo, o divórcio foi visto como o fim de tudo: da relação, da convivência, dos laços. No entanto, a realidade é bem mais complexa — e humana. Quando um casal se divorcia, é bem verdade que o vínculo jurídico matrimonial de fato termina, mas, na maioria das vezes, a família persiste. Filhos, netos, amigos em comum e até sogros e sogras fazem parte de uma rede que continua existindo, mesmo com o casamento desfeito. A família, agora sob uma nova configuração, permanece.

Segundo dados do IBGE, o número de divórcios no Brasil nunca foi tão alto, girando em torno de 420 mil casos por ano, dos quais mais da metade envolviam casais com filhos ainda menores de idade. Esse aumento revela não só uma maior autonomia das pessoas para refazer suas vidas, mas também a urgência de compreender o impacto emocional e social do fim do casamento sobre todos os envolvidos. O divórcio, cada vez mais comum, precisa ser tratado com cuidado, empatia e aceitação. Um caminho possível para isso é enxergá-lo como uma reestruturação — e não como uma destruição.

Conforme já mencionado, o problema mais agudo é que muitos confundem o fim do casamento com o fim da família. E esse equívoco é doloroso especialmente para os filhos. São crianças e adolescentes que, em vez de se beneficiarem de um ambiente de respeito e afeto entre os pais separados, muitas vezes são vítimas de disputas, silêncios e afastamentos forçados. Essas feridas abertas certamente perdurarão por toda a vida e gerarão dores crônicas mesmo quando parcialmente cicatrizadas.

Hoje, não raro, observamos tentativas de “cancelamento familiar” pós divórcio. E há um paradoxo evidente nisso: ele é operado justamente por quem escolheu aquela outra pessoa para dividir a vida, para ser o pai ou a mãe de seu filho, para construir um lar. No entanto, após o divórcio, há quem queira apagar esse “outro” da história, como se nunca tivesse existido. Não se ignora que o luto do fim do casamento pode ser extremamente difícil e desafiador, lidando com o desamor e a decepção. Como diz o ditado, ninguém se casa para se separar. Mas o apagamento do outro não é o caminho adequado para superar o trauma do sonho que tragicamente acabou.  

Também é preciso combater a normalização de atitudes de abandono. Divorciar-se do parceiro não pode ser confundido com romper o compromisso de ser pai ou mãe. É inaceitável que um dos lados simplesmente suma, deixe de se comunicar, isente-se das responsabilidades afetivas e financeiras. O fim da relação amorosa não afeta em nada o vínculo parental. A responsabilidade integral permanece.

Felizmente, há iniciativas importantes que promovem debates e ações educativas, contribuindo para uma mudança de mentalidade e de cultura. A campanha da OAB Santo Amaro “O divórcio não é o fim. A família continua” tem sido importante para conscientizar a população de que a cooperação entre ex-cônjuges é essencial para o bem-estar dos filhos. Outro exemplo inspirador é o espaço “Laços e Afetos”, em Curitiba, que oferece atendimento multidisciplinar para tornar as visitas assistidas pelo Poder Judiciário mais acolhedoras, contribuindo para a reconstrução do tecido familiar. O movimento “Divórcio com Respeito”, organizado pela Comissão Nacional e pelo Instituto Brasileiro de Práticas Colaborativas, também é bastante significativo, contando com a realização de eventos e rodas de conversa que incentivam o diálogo e a busca de soluções voltadas para a reconstrução saudável das relações familiares.

É preciso, acima de tudo, desmitificar o divórcio. Ele não precisa ser sinônimo de guerra. Pode, ao contrário, principiar uma nova fase baseada no respeito mútuo, na escuta ativa e na responsabilidade compartilhada. As famílias contemporâneas estão cada vez mais diversas, e isso exige maturidade emocional para lidar com as transições. Que esse processo de mudança seja acompanhado de empatia, diálogo e apoio de profissionais especializados.  O casamento acaba, a família — com seus laços, memórias e afetos — ainda permanece. E ela merece continuar com dignidade, respeito e amor.

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