Um novo discurso cheio de ataques feito pelo deputado estadual Ricardo Arruda (PL) uniu parlamentares de direita e esquerda em defesa da deputada Luciana Rafagnin (PT) na sessão da tarde desta terça-feira (12) da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Conhecido por falas ofensivas que miram sempre os alvos do público bolsonarista, Arruda disse que Rafagnin devia “criar vergonha na cara”.
O bolsonarista usava seu tempo para novamente atacar o presidente Lula (PT), a quem chamou de “prepotente”, “arrogante”, “incompetente”, “corrupto” e “inútil”, quando se referiu a Luciana Rafagnin. “Aí veio a deputada Rafagnin (e disse) 'Bolsonaro matou 700 mil pessoas'. Ora, tenham vergonha na cara. Essa mentirinha não cola mais”.
A deputada Flávia Francischini (União), que presidia a sessão, interrompeu a fala. “Estou solicitando ao deputado que mantenha a urbanidade e o decoro em plenário”, disse ela. “Tomar vergonha na cara é um termo totalmente coloquial no Brasil", defendeu Arruda. "Não é ofensivo. Quando a gente usa um adjetivo para o Lula, que foi investigado, julgado, condenado e preso, não pode falar”, afirmou o deputado, ignorando que o processo que gerou a condenação do presidente foi declarado nulo e que o juiz do caso, Sergio Moro, foi considerado parcial pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Flávia Francischini interrompeu novamente a fala. “O senhor está falando com outra colega aqui de dentro. O mínimo é manter o respeito e a urbanidade. A gente não está discutindo sua opinião a respeito de outras pessoas, mas sim de sua colega de trabalho. Ela além de tudo é mulher. Enquanto mulher eu me sentiria ofendida”, disse a presidente da sessão.
Luiz Cláudio Romanelli (PSD) pediu um aparte. “Está esgotado o horário do deputado Arruda, até que ele aprenda a respeitar os parlamentares e especialmente as mulheres. Leia o Regimento da casa, o regimento não permite que o senhor use a linguagem que usa. O senhor está usando uma linguagem inadequada ao parlamento”.
Capivaras
Arruda ainda usou o restante do seu tempo e mandou uma indireta para Romanelli. “Ontem ainda tive que ouvir ‘eu sei o que você fez no verão passado’, ainda mais de alguém que fez acordo com o Ministério Público”. Segundo o Ministério Público do Paraná (MP-PR), Romanelli manteve uma funcionária fantasma da Alep na sede do PMDB, partido ao qual ele foi filiado entre os anos de 2007 e 2010. Ele fez um acordo de não persecução cível com o MP-PR.
"Nós conhecemos as suas 'capivaras', deputado."
Luiz Cláudio Romanelli, deputado, para Ricardo Arruda
Romanelli reagiu, mas não citou que Ricardo Arruda é réu em um processo suspeito dos crimes de associação criminosa, desvio de dinheiro e tráfico de influência. Segundo o MP-PR, o bolsonarista usou seu poder político para ajudar a reintegrar policiais militares excluídos da corporação em troca de dinheiro. Ele também teria recebido dinheiro de um empresário para intermediar o pagamento de um contrato com o governo do Paraná.
Em maio, o Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) negou o pedido da defesa de Arruda para anular a investigação que levou a outro processo, em que o bolsonarista foi denunciado pelo MP-PR pelos crimes de lavagem de dinheiro e concussão. O deputado é suspeito da prática de “rachadinha” – quando seus assessores repassam parte de seus salários.
Os endereços do parlamentar em Curitiba e São Paulo (inclusive seu gabinete na Alep) foram alvo de uma operação de busca e apreensão em outubro de 2023. O Órgão Especial do TJ-PR ainda não decidiu se aceita a denúncia, o que tornaria o deputado réu em mais um processo. Arruda nega todos os crimes e se diz perseguido pelo Ministério Público.

Repercussão
Após o pronunciamento de Ricardo Arruda, outros deputados ocuparam a tribuna para criticar as discussões em plenário.
"Qual projeto de grande monta está sendo discutido por essa Assembleia? A culpa também é da Assembleia, da Mesa Diretora" criticou Denian Couto (Podemos). "São inúmeros projetos apresentados que não chegam a discussão. Quando não se discute o que importa, abre-se brecha para debater o que não tem nenhuma relevância. Nós estamos pagando mico como parlamento. Que Assembleia Legislativa é essa, é para produzir vídeo?", questionou.
A deputada Cristina Silvestri (PP) também criticou as discussões.
"Está insuportável. Eu não tenho mais a mínima vontade de estar aqui nessa casa, porque você fica ouvindo uma discussão tão banal, de A contra B, quando nós temos tantos problemas no Paraná para serem resolvidos. E nós temos que ficar aqui ouvindo essa barbaridade".
Cristina Silvestri, deputada
Líder da oposição, Arilson Chiorato (PT) pediu que a fala de Arruda seja registrada. Para ele, houve quebra de decoro. "Peço que todas as expressões impróprias e insultos proferidos pelo deputado Ricardo Arruda sejam registrados em ata e sejam publicados integralmente no Diário Oficial da Assembleia, para que tenham consequência, principalmente no tocante à violência de gênero, que já foi cometida contra a deputada Ana Júlia e contra a deputada Luciana hoje".
Reichembach (PSD) pediu para a Mesa Diretora tomar providências. "Está muito improdutivo, está desconfortável para este plenário e imagino que muito mais desconfortável para a população paranaense".
Líder da bancada feminina, Mabel Canto (PP) defendeu Luciana Rafagnin. "Ele (Arruda) se refere a uma deputada que iniciou sua carreira em 1992 como vereadora, foi eleita deputada estadual em 2002, assumiu como segunda secretária da Mesa Diretora, foi a primeira mulher em 60 anos a ocupar um cargo dessa importância nessa casa. Comandou a Comissão de Agricultura, está no seu quinto mandato".
"O respeito não é só por conta desse vasto currículo, não é só porque é mulher, mas porque respeito é bom e todo mundo gosta. A gente não pode mais tolerar esse tipo de afirmação aqui."
Mabel Canto, deputada
Hussein Bakri (PSD), Márcia Huçulak (PSD), Renato Freitas (PT) e Moacyr Fadel (PSD) também defenderam Luciana Rafagnin. "Eu sei o trabalho que a senhora faz, com humildade", disse Fadel. "Acho que tem deputado para quem falta serviço, falta trabalho, falta saber o que é a boa política".

Por fim, Luciana Rafagnin se pronunciou. "Não quero aqui julgar o deputado, mas que ele faça uma análise na sua consciência sobre a forma como vem agindo com as parlamentares nessa casa. Foi assim há poucos dias com a deputada Ana Júlia. Atitudes com essa não colaboram para que mais mulheres venham para o parlamento".
"Esse deputado (Ricardo Arruda) precisa, de repente, ter mais um pouco de trabalho. Não vejo esse parlamentar subir na tribuna para falar de ações importantes que precisam acontecer no Paraná, estar preocupado com a educação, com a saúde, com o servidor público, com a segurança. Eu só vejo esse deputado subir na tribuna com uma obsessão contra o PT e contra as parlamentares dessa casa".
Luciana Rafagnin, deputada