Polícia indicia diretora de escola por tortura-castigo de crianças | Jornal Plural
26 abr 2019 - 18h16

Polícia indicia diretora de escola por tortura-castigo de crianças

Alimentação forçada, tapas e até tentativa de sufocamento são relatados no inquérito

Ao menos 19 crianças foram vítimas do crime de tortura-castigo praticado pela diretora da escola Cimdy, no bairro Água Verde, em Curitiba, é o que aponta o inquérito divulgado nesta sexta-feira (26) pela Polícia Civil do Paraná. As agressões iam de castigos a alimentação forçada até tapas no rosto e sufocamentos, afirma a polícia na conclusão das investigações. Elas mostraram que houve excessos por parte da administradora da instituição, fechada desde a denúncia, feita por pais e professores no início de abril.

Durante os depoimentos, foram ouvidas 54 testemunhas e 19 crianças, todas vítimas de tortura física ou psicológica. Segundo a delegada do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente (Nucria) de Curitiba, Ellen Victer, há relatos de agressões desde a abertura da escola, em 1997. “Constatamos diversas formas de agressão, física e psicológica. Verificamos que na hora de alimentar as crianças, algumas vomitavam. Esse vômito se misturava à comida e ela forçava as crianças a comerem novamente com o próprio vômito”, revelou a delegada durante coletiva de imprensa.

“Fazia fila no banheiro para dar palmada nas crianças. Deixava algumas presas no vaso sanitário por horas a fio, fazendo hematomas nas perninhas. Castigo em salas isoladas por longos períodos, sem contato com outras crianças; sozinhas enquanto as outras brincavam”, denunciou.

Para o delegado José Barreto, também do Nucria, o caso é grave. “Misturar vômito com comida e fazer a criança comer é de uma gravidade incrível. Temos os dois vídeos que foram para perícia e comprovam a tortura e a violência, atos totalmente incompatíveis com crianças daquela idade. Ela tenta esganar a criança e alega que a criança está sufocada e que tenta um ato de socorro, o que não nos convence, pois em nenhum momento ela pede socorro ou o auxílio de alguma pessoa. Um ato violento contra uma criança é um ato criminoso. Todos estes atos geram traumas. Vários pais relatam isso, que as crianças chegam em outras escolas perguntando se a diretora não está lá. O que evidencia um trauma, um prejuízo muito grande à saúde psicológica delas”, afirmou o delegado.

Segundo ele, os professores não denunciaram antes as agressões pois, além de não terem provas, tinham medo. “Ela apresentava uma postura muito rígida com todos e sempre falava que podiam denunciar pois conhecia juízes, promotores, delegados e nada aconteceria com ela. Com sua postura firme conseguia até ganhar a confiança dos pais, por isso demorou tanto a vir à tona.”

Em 2014, a administradora já havia sido processada pela justiça pelo mesmo crime, mas o processo acabou arquivado por falta de provas. Com cerca de 150 alunos, a instituição atendia crianças entre dois e seis anos.

Três aparelhos de DVDR, com imagens do local, estão sendo periciados pelo Instituto de Criminalística mas os laudos ainda não estão prontos. O inquérito do Nucria foi enviado ao Ministério Público, que deve apresentar denúncia à Justiça.

Pais pedem justiça

Em liberdade

O delegado Barreto lembra que a diretora não foi presa pois se apresentou espontaneamente e está colaborando com as investigações.

“É um absurdo, tem vídeo, tem prova e ninguém prende essa mulher. É uma injustiça muita grande. Nossos filhos todos traumatizados, os pais sofrendo e ela numa boa, livre”, contesta Simone Melo, mãe de uma menina de quatro anos, que estudava na escola.

“Minha filha teve lesões e ela disse que ela tinha caído, mas depois percebemos que ela ficou presa no vaso do banheiro, que era um dos castigos que a diretora dava pras crianças. Hoje, minha filha faz fono porque a fala dela ficou travada, levo no psicólogo pra fazer acompanhamento, mas ela é insegura, tem medo de tudo. Falou a palavra Cimdy, ela trava. Então estamos revoltados porque, mesmo depois de toda crueldade que ela fez com as crianças, está tranquila, em liberdade. É um absurdo, com tanta prova essa mulher tinha que estar na cadeia já”, acredita a mãe.

“Ela tinha que ser presa e ser proibida de ter qualquer instituição que cuide de crianças”, defende uma professora que atuou na escola em 2013. “Ela ensinava pra gente como enfiar a comida na garganta da criança pelo cantinho, pra não engasgar. Ameaçava as crianças com a cinta do tio Toninho. Xingava. Batia. Colocava no quartinho escuro. Tinha alguns alunos que já eram carimbados, que quase diariamente eram agredidos. Quando não era agressão física, era verbal. Era uma tortura. Nós até tentamos denunciar mas não tínhamos provas. Éramos coagidas o tempo todo e evitavam nosso contato com os pais”, assegura. “Ela era má. Aquele vídeo divulgado não é nada perto de tudo que acontecia lá”, garante a professora.

Um dos vídeos mostra a diretora de costas, sobre uma criança de dois anos que se debate deitada num colchonete. Quando outra pessoa entra na sala, a diretora senta. No outro vídeo, relatado pela polícia, a diretora dá tapas no rosto de um aluno da mesma idade, que teria mordido outro colega.

A mãe que primeiro fez a denúncia à polícia, ao lado da coordenadora da escola, diz que o sentimento é de alívio. “Acho que, passado todo o susto de início, as dúvidas, a revolta, o sentimento que fica é de alívio, de dever cumprido, de saber que realmente as crianças estavam em risco, não só as minhas como todas. Me sinto feliz em ter tido forca e estrutura para levar isso adiante, sempre com o apoio de outros pais que confiaram nas minhas palavras.”

A defesa da diretora foi procurada pelo Plural mas respondeu que não irá se manifestar sobre o assunto.

MANIFESTAÇÃO

Um grupo de pais esteve no fim da tarde em frente ao portão da escola para se manifestar. “Queremos que Ministério Público receba o indiciamento da polícia e abra o inquérito criminal”, explica o pai Gustavo Steinke. “Meu filho apanhou dela na fila do banheiro. Sabemos que é difícil ela ser presa neste momento mas não vamos desistir, vamos até o final.”

A mãe Bianca Weder, também presente no ato, lembra a dor das famílias. “É uma dor que brota do nosso ventre por saber que nossos filhos ficaram neste lugar de tortura. É muita dor, pois porque a gente confiava muito nela; é revoltante. Nunca imaginei que acontecesse conosco. Vemos e imaginamos longe e de repente está dentro de casa e te pega despreparado. Mas estamos motivados e aliviados pois nossos filhos estão libertos”, conclui a mãe.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assuntos:

Últimas Notícias