"Não é preciso mandar atacar a universidade: basta acusá-la de pervertida", diz reitor | Jornal Plural
Clube Kotter
16 abr 2019 - 5h40

“Não é preciso mandar atacar a universidade: basta acusá-la de pervertida”, diz reitor

Ricardo Marcelo, reitor da UFPR, diz que ataques às universidades destroem ciência e tecnologia do país

Nos últimos dias, várias universidades públicas brasileiras foram ameaçadas de ataques e atentados. Uma delas foi a UFPR. Num fórum da “deep web”, internautas anônimos disseram que haveria um massacre na universidade, o que deixou a comunidade universitária em pânico.

Embora as ameaças não tenham se concretizado, o caso foi levado à polícia e está sendo investigado. Além disso, há uma tentativa da própria universidade de compreender o que está acontecendo. O reitor da UFPR deu uma entrevista ao Plural sobre o assunto.

Há avanços nas investigações dos culpados? O que se pode dizer até agora sobre o tema?
As investigações estão sendo feitas pelos órgãos de inteligência das nossas polícias, que atenderam a universidade com muita presteza. O sigilo nesses procedimentos é essencial para um bom desfecho. Esperamos que nos próximos dias resultados concretos sejam apresentados.

As ameaças enviadas à universidade pareciam se basear em um discurso muito comum por esses dias, de que as instituições públicas de ensino superior são um antro de atividades pouco nobres. Como o sr. vê isso?
Creio que hoje vivemos em tempos conturbados e estranhos. Existem muitas patologias no ar e a tarefa de entendê-las, inclusive da parte da academia, é urgente, até para entender por que as universidades se tornaram um alvo preferencial de ataques tão variados quanto absurdos. A sociedade brasileira está padecendo de incapacidade de diálogo e de convívio com as diferenças, de fabricação de maniqueísmos toscos, o que implica num esgarçamento enorme das premissas democráticas de nossa convivência.

Nesse contexto, ganham espaço formas variadas de culto à violência, inclusive de violência simbólica: não é necessário dizer expressamente que uma dada instituição ou pessoa deva ser atacada; basta que elas sejam articuladamente caricaturizadas, ou que sejam insistentemente apresentadas como pervertidas e resultados funestos serão colhidos cedo ou tarde.

Todos os alvos das ameaças eram, até onde se saiba, universidades públicas. Como chegamos a esse ódio contra instituições tão importantes para o país?
Parece haver efetivamente um anti-academicismo no ar, uma desvalorização da ciência e da cultura. O grave é que as pessoas parecem não perceber como isso pode comprometer nosso futuro. É necessário dissecar as razões disso e identificar com muita clareza os seus emissores e suas finalidades.

O problema da desinformação e das “fake news”, que hoje andam como rastilho de pólvora pelas mídias sociais, certamente contribui também pra este estado de coisas. A caricatura absurda de que as universidades são polos de baderna e de patrulhamento ideológico parece não se aperceber que os atingidos serão não somente os chamados “intelectuais críticos” que estão nas universidades, sejam eles de esquerda ou liberais, mas as próprias esferas de produção de ciência e tecnologia que nos garantem civilidade, soberania e inclusive desenvolvimento econômico – é necessário insistir nisso.

Quem tem culpa pelas ameaças à UFPR? Eis algumas pistas

São as universidades públicas (federais e estaduais) as que concentram a maioria esmagadora da ciência e da tecnologia do nosso país, como atestam todos os rankings e avaliações que se baseiam em dados, e não em “chutes”. Aliás, em quase todos os lugares avançados do planeta o fomento à ciência e à tecnologia é assumido pelo próprio estado como algo estratégico.

Enquanto isso, segundo notícia recente de O Globo, aqui no Brasil as perdas reais acumuladas do chamado “orçamento do conhecimento” somam, desde 2015, mais de R$ 38 bilhões. Os efeitos disso serão catastróficos. Abater as universidades e os mecanismos de financiamento da pesquisa significa golpear não só a possibilidade de formação de qualidade dos nossos filhos, mas também golpear as próprias condições para um salto de desenvolvimento do país.

Sem ciência e tecnologia fortes a indústria, a prestação de serviços da saúde e o agronegócio, para citar só alguns exemplos bem visíveis, não terão avanços e vão perder competitividade. Quando isso acontecer e quando o atraso econômico, tecnológico e também de civilidade se instalarem, vai ser inútil se lamentar e querer culpar esse fantasma da “doutrinação ideológica”. O estrago econômico e cultural será irremediável.

Como reconstruir a imagem das federais num momento em que as próprias instituições políticas muitas vezes parecem se voltar contra elas?
Quem conhece de fato o ambiente das universidades sabe que elas, apesar de naturalmente não serem perfeitas (como nenhuma instituição o é), são um patrimônio social insubstituível. O mundo seria bem pior sem elas. Mas é inegável que uma parte da opinião pública passou de repente a achar que aqui é lugar só com problemas.

Reagir a isso é difícil, pois grande parte da nossa luta é contra miragens fabricadas ou estereótipos grosseiros. Fazer a “prova negativa” (ou seja, provar algo que não existe ao invés de demonstrar a presença de algo concretamente existente) é sempre complicado. Mas acho que temos que fazer, como universidades, ao menos duas coisas.

Primeiro, fazer a nossa parte e melhorar: diminuindo nosso corporativismo e burocracia, aumentando nossa eficiência, transparência e inserção social. Claro que fazer isso é um desafio quando o nosso orçamento é cada vez menor. Em segundo lugar, devemos definitivamente comunicar melhor o que já fazemos dentro dos nossos muros: a transformação que operamos na formação dos jovens e na inclusão social de tantas parcelas socialmente vulneráveis – pois a educação superior é fator forte de inclusão; o milagre da produção e da disseminação do conhecimento que acontece aqui todos os dias, em tantas áreas diferentes; a criação cotidiana de soluções e respostas essenciais para a nossa sociedade, inclusive para o setor produtivo; e também mostrar melhor como aqui é um espaço de um enorme colorido e riqueza, um espaço de juventude, de vivacidade e de pluralidade que deve ser preservado e valorizado.

Essa pluralidade viva, e às vezes irreverente e insurgente, característica do espaço universitário em qualquer lugar do mundo, é uma riqueza em si mesma. É o que faz da universidade, ainda que com os eventuais defeitos que ela possa ter, um espaço de cidadania, de liberdade e de formação sem igual. Isso pode incomodar muita gente, mas seguramente nosso mundo estaria mais pobre, mais aborrecido e mais obtuso sem isso.

A UFPR vai à guerra

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias