Enfermeira conta rotina no atendimento à covid-19 | Jornal Plural
28 maio 2020 - 17h08

Enfermeira conta rotina no atendimento à covid-19

UPA e hemodiálise fazem parte do trabalho de duas décadas, que agora se intensifica no combate ao coronavírus

“Tenho medo de ser contaminada, mas não tenho medo de morrer. Só que me cuido. No começo era bem tenso pensar que você estava indo pra um campo de guerra. Hoje ainda assusta um pouco. Mas temos que ir.”

A enfermeira curitibana, que prefere ficar no anonimato, não esconde que há momentos muito difíceis. “Tem dias que dá vontade de desistir, vontade até de parar de viver. Passamos por muitas provações, além dos conflitos pessoais. Vemos muitas coisas que chocam. Temos limitações.”

Ainda assim, segue na superação diária, persistente no atendimento em hemodiálise, na rede privada de Saúde, e também em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Curitiba, onde atua na ala restrita para pacientes com suspeita de covid-19.

“Nesse setor, estamos sempre em alerta, pois a qualquer momento pode chegar uma emergência. E todo cuidado é pouco para não se contaminar. Trabalhamos com todo tipo de doença, surto, drogas, tentativas de suicídio, agressões e traumas de adultos e crianças”, conta.

“A parte mais difícil é quando temos que intubar o paciente e aspirar a via área, ou seja, o nariz e a boca, pra tirar as secreções. Teve um paciente que chegou com queixa de dor no peito e muita falta de ar. Chegou andando e em pouco tempo piorou, tendo que intubar. Logo em seguida, parou. Reanimamos por 60 minutos, sem melhora. Não voltou mais”, lamenta.

A profissional já precisou se afastar do trabalho por suspeita de coronavírus. Ela comeu carambolas no mesmo pote da amiga que testou positivo para a doença. “Tive sintomas de gripe muito forte, dor no corpo, mal-estar, de ficar deitada por dois dias e me levantar com dificuldade devido ao cansaço no corpo. Tosse, coriza, falta de ar, com respiração curta e rápida.  Mas não tive febre e o exame deu negativo. Após sete dias, melhoreu e retornei ao trabalho.”

Força

Segundo ela, parece que as pessoas estão se cuidando mais, usando máscaras, porém, “muitos não passam álcool nas mãos”.  

“Nossa rotina deu uma aliviada nas emergências. Temos mais funcionários com a contratação do PSS e, devido muitas casas de show não estarem abrindo, diminuiu também as pessoas vítimas de agressão e coma alcoólico.”

No outro emprego, num hospital particular de Curitiba, ela cuida de pacientes em hemodiálise, coordena uma equipe de técnicos em enfermagem e outros funcionários da UTI.

Em casa, com o filho, usa máscara. “Na minha vida particular sinto falta de ir para academia pois muitas vezes temos que pegar pacientes com o dobro de nosso peso, prejudicando a lombar. A musculação ajuda a fortalecer essa musculatura da coluna. para prevenir complicações futuras”, preocupa-se.

O dia a dia com as máquinas que salvam vidas. Foto: Arquivo Pessoal

Superação

O futuro sempre esteve nos planos dela, que está na profissão há 20 anos. “Decidi fazer Enfermagem pois não tinha condições para estudar Medicina. Desde criança gostei da área da Saúde, um trabalho que admiro. Mas, para isso, precisei trabalhar sempre em dois empregos, pois o salário baixo dificulta novas realizações e sonhos.”

O caminho ficou ainda mais árduo quando ela passou no vestibular para Enfermagem. “Estudava pela manhã, saia da faculdade e ia trabalhar na hemodiálise; depois saia dali para o hospital, onde passava a noite. Terminava o plantão e ia direto pra faculdade, e de novo pra hemodiálise. Só então eu ia pra casa dormir e descansar”, recorda.

“Muitas vezes, parecia que iria morrer de tanto cansaço, mas com duas crianças pequenas, não tinha como sair de um emprego e me dar ao luxo de continuar estudando. Assim, foram longos quatro anos.”

Hoje, a enfermeira diz que levanta da cama com prazer. “Faço o que gosto. Meu trabalho me permite superação.”

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