22 mar 2022 - 19h02

“Uma separação” faz picadinho das regras do romance policial

Escritora Katie Kitamura cria trama com um crime e alguns mistérios, mas parece pouco disposta a responder qualquer pergunta

“Uma separação”, o livro de Katie Kitamura, é narrado em primeira pessoa por uma mulher que viaja à Grécia e tem de lidar com as pessoas que encontra pelo caminho. Parêntese: Em linhas gerais, esse é também o ponto de partida de “O esboço”, de Rachel Cusk, publicado três anos antes. Porém, na maneira como foram escritos, os dois livros são bem diferentes um do outro.

Cusk elaborou um texto esperto em que a narradora se deixa perceber através apenas dos diálogos que trava com as pessoas ao seu redor. Já Kitamura joga um jogo diferente e dá sinais de estar ligeiramente mais preocupada com a trama do que com a forma.

Em “Uma separação”, há um crime e alguns mistérios, e a narrativa presta atenção em como esses mistérios podem ou não ser respondidos. Se o plano era frustrar expectativas, Kitamura foi muito bem-sucedida. É como se ela pegasse o papel com as regras de um romance policial e, friamente, rasgasse até não poder mais.

A escritora Katie Kitamura, autora de “Uma separação”. (Foto: Clayton Cubbit/Divulgação)

Cansada

A narradora de “Uma separação” vive uma situação peculiar. Cansada das aventuras extraconjugais do marido, ela decide acabar com o casamento. Quando comunica a decisão, ele pede que espere um pouco antes de tornar público o fim da relação. A narradora não entende muito bem o motivo desse pedido (por consequência, quem lê também não entende), mas ela concorda.

Então o futuro ex-marido viaja para a Grécia para pesquisar rituais de luto, tema de seu próximo livro. Um dia, a narradora recebe uma ligação da sogra perguntando por que o filho não responde suas mensagens. Seu instinto materno – sim, ela é o tipo de mãe que tem “instinto materno” – diz que algo está errado.

Na mesma conversa, a sogra diz que ela, a narradora, precisa ir até a Grécia para descobrir o que aconteceu. Sem dizer por favor, nem nada. É quase uma ordem. O sumiço desse homem mulherengo é um dos mistérios que embalam a narrativa.

Tolerante

Mesmo em conflito sobre revelar ou não que o casamento havia terminado, a narradora concorda em viajar imediatamente. Assim ela se manda para uma vila chamada Gerolimenas, na península de Mani. Um lugar minúsculo e pobre, na região do Peloponeso, que vive mal-e-mal às custas do pouco turismo que ainda inspira.

Uma vez na Grécia, a narradora começa a procurar o futuro ex-marido e assim tem início uma tímida investigação.

Ao longo do livro, a narradora de Kitamura fala um pouco sobre o amor que era tão bonito entre ela e o marido, e que acabou em apenas cinco anos. Faz também uma digressão ou outra sobre fidelidade no casamento e na literatura: “tradutores estão sempre preocupados em ser fiéis ao original, uma tarefa impossível já que existem várias maneiras de ser fiel e essas maneiras muitas vezes são contraditórias, há fidelidade literal e há a fidelidade ao espírito, uma expressão que não tem um significado concreto”.

Difícil

O texto é bom de ler e isso é muito mérito da tradutora Sonia Moreira (já li livro só porque era ela a tradutora). Mas Kitamura parece determinada em não chegar a lugar nenhum, em não responder perguntas, em deixar os personagens plantados na Grécia, no passado, em questões mal resolvidas… Terminar de ler “Uma separação” é como encerrar uma conversa ruim com alguém que você torce para não encontrar nunca mais.

Livro

“Uma separação”, de Katie Kitamura. Tradução de Sonia Moreira. Companhia das Letras, 216 páginas, R$ 69,90.

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