“Esboço” é simples na forma, mas fala de coisas difíceis | Plural
24 jul 2019 - 22h31

“Esboço” é simples na forma, mas fala de coisas difíceis

Rachel Cusk transita com elegância entre a ficção e a não ficção

Que a foto na capa de “Esboço”, o livro de Rachel Cusk, seja de uma concha, faz sentido. É preciso se segurar para não encostar a orelha na capa e tentar “ouvir” o mar. Se o livro fosse resumido num verbo, com certeza seria ouvir.

A narradora da história, Faye, uma escritora de língua inglesa de 40 e tantos anos, viaja para Atenas a fim de dar um curso de literatura. Ela tem filhos e acabou de se separar. Uma frase dita por ela dá uma ideia de seu estado de espírito: “Havia uma diferença grande, falei, entre as coisas que eu queria e as que pelo visto podia ter, e até que eu tivesse de uma vez por todas me conciliado com esse fato decidira não querer absolutamente nada.”

Faye é o tipo de pessoa que inspira confiança, uma boa ouvinte e uma perguntadora eficiente. Mas o mais importante aqui parece ser a capacidade que ela tem de escutar as histórias alheias. Os personagens que encontra pelo caminho falam de suas vidas como se estivessem numa sessão de terapia: o homem que senta ao seu lado no avião e depois a convida para dar um passeio de barco, o amigo que não via há tempos, os alunos na sala de aula… Todos falam de seus casamentos e separações, de frustrações com o trabalho, de trivialidades por qualquer motivo marcantes que encontraram pela rua.

“Esboço” é então uma série de conversas narradas sob o ponto de vista de Faye. Quase não há enredo na história. Não é o tipo de romance que você lê para saber como vai terminar. Você lê porque ele fica dizendo coisas que fazem pensar: “A capacidade humana de se autoiludir é aparentemente infinita – e se for assim, como é que podemos saber, a não ser existindo num estado de pessimismo absoluto, que mais uma vez estamos enganando a nós mesmos?”.

É de pensar também como a escritora Rachel Cusk, que é canadense e vive no Reino Unido, conseguiu escrever um romance que é tão aparentemente simples na forma – ela nunca chama atenção para o texto – quanto é complexo no conteúdo. Ela fala de como lidamos com as mudanças que a vida impõe ou que nós mesmos escolhemos, como as relações são possíveis ou de repente deixam de ser, fala de ambições e de frustrações.

Em outro episódio, um amigo leva Faye para jantar num lugar muito simples com a desculpa de que ali eles poderiam conversar sem serem interrompidos. A narradora diz que o amigo não tinha mais interesse em socializar. “Na verdade, cada vez mais ele achava os outros incompreensíveis. As pessoas interessantes são como ilhas, disse ele: não se esbarra com elas numa rua ou numa festa, é preciso saber onde estão e combinar de ir ao seu encontro.”

Alguém já disse que ler certos livros é como passar o tempo com pessoas interessantes. “Esboço” é, definitivamente, um livro assim. Um livro-ilha.


Serviço

“Esboço”, de Rachel Cusk. Tradução de Fernanda Abreu. Todavia, 192 páginas, R$ 59,90. Romance.

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