Para escritor, desafio é “tornar as coisas triviais interessantes” | Jornal Plural
15 mar 2020 - 22h36

Para escritor, desafio é “tornar as coisas triviais interessantes”

Thiago Tizzot deixa a fantasia de lado para escrever sobre as coisas simples da vida nos contos de “Esqueletos que dançam”

Thiago Tizzot saiu de sua zona de conforto. Como escritor, ele é mais conhecido por livros de fantasia como “O segredo da guerra” e “A ira dos dragões”. Agora, com o lançamento de “Esqueletos que dançam”, o autor curitibano deixa o gênero em que fez carreira para experimentar outras formas de narrativa.

“Esqueletos que dançam” compila seis contos – cinco deles publicados previamente e um inédito – que permitiram ao escritor transitar pelo conto policial (em “União da Vitória”, o inédito da lista) e pela literatura fantástica (no kafkiano “Caixas”). Em outro texto, ele busca as trivialidades da vida para narrar uma série de eventos que começa com um nascimento e termina com uma morte (em “Assim é a vida”, talvez o mais cinematográfico dos contos – ele parece adotar o ponto de vista de uma câmera que acompanha os personagens à medida que cruzam uns com os outros).

Na entrevista a seguir, Tizzot – que é também editor e livreiro da Arte e Letra, em Curitiba – fala sobre como foi deixar um mundo de dragões que cospem fogo para escrever sobre algo tão insignificante quanto os insetos que dão nome ao conto “Formigas”.

Você é um escritor de livros de fantasia e “Esqueletos que dançam” é seu primeiro livro de ficção fora do gênero. Para você, qual é a maior diferença entre pensar uma história de fantasia e outra mais realista?

Sempre penso que boa literatura é feita de conflitos e de um bom texto. Com a fantasia, é fácil se esquecer disso e deixar-se deslumbrar pela magia, heróis e monstros que, no fundo, são apenas ferramentas para se contar uma boa história com boas personagens. Fora da fantasia, mudam as ferramentas. Foi preciso descobrir que ferramentas eram essas, mas, passada essa etapa, o processo de narrar é parecido.

É curioso que, nos contos do livro, você tenha optado por narrar acontecimentos triviais, como a chuva chata em “Assim é a vida” e a pedrinha de açúcar que aparece em “Formigas”. Poderia falar um pouco sobre como descobriu esse interesse pelas coisas simples da vida?

Eu lembro que uma vez, conversando com o Cristovão [Tezza, autor de “A tirania do amor”], ele me disse que o escritor é antes de tudo um observador da vida. Fiquei com isso na cabeça e tentava observar tudo que passava diante dos meus olhos. Na hora percebi que uma coisa interessante seria transpor, em alguma medida, as coisas do nosso dia a dia para a fantasia. Nesse caminho, acabei fascinado pela coisas simples e pelas coisas que são quase invisíveis para nós. Esses dias peguei um catálogo de tinta e fiquei imaginando como seria a rotina de quem trabalha dando nomes para as cores… Existem regras? Os nomes são aleatórios? De alguma forma, eles escondem uma mensagem? Isso passa um pouco também pelo desafio de escrever fantasia, qualquer um pode escrever uma história com um dragão cuspindo fogo. No início, todo mundo fica impressionado, mas depois que o dragão sai de cena, o que sobra? Acho que tornar as coisas triviais interessantes é o desafio.

Nos contos, você experimenta outros gêneros como o fantástico (“Caixas”) e o policial (“União da Vitória”). Das experiências proporcionadas pelos contos, qual delas você sentiu vontade de seguir explorando?

Minhas primeiras leituras foram de livros policiais, Agatha Christie e Conan Doyle, e sempre penso em escrever um romance policial. Algumas vezes comecei a rascunhar uma história, mas a coisa nunca foi para frente. O que mais me atrai hoje fora da fantasia é o trivial, a construção de uma literatura com o simples. E suspeito que trabalhar com escritores de Curitiba nos últimos anos contribuiu de forma definitiva para isso. Para mim, é difícil ler textos de [Manoel Carlos] Karam, [Jamil] Snege, Luci Collin, Tezza, [Luís Henrique] Pellanda, [Luiz Felipe] Leprevost e [Otavio] Linhares e não querer fazer um pouco daquilo. O escritor é uma soma de suas leituras, não podemos fugir do que lemos.

Serviço

“Esqueletos que dançam”, de Thiago Tizzot. Arte e Letra, 68 páginas, R$ 38.

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