Luís Henrique Pellanda e a medida da vida | Jornal Plural
10 mar 2020 - 21h47

Luís Henrique Pellanda e a medida da vida

Para o escritor, o que importa é a experiência de leitura, o impacto que o texto tem sobre o leitor: “Não importa se aconteceu ou não, porque a reação é que é real”

Ele intercala goles de expresso com outros de água sem gás e sem gelo. Enquanto fala sobre as suas conexões com Curitiba, gesticula os braços e modula a voz. Em menos de dez minutos, dá para perceber que Luís Henrique Pellanda é um contador de histórias. Nas crônicas, nos contos, nos livros, na internet, nos cursos e oficinas que ministra, ou ali, na mesa de um café no Centro da cidade. Há quem assimile a vida assim, por meio de narrativas.

As histórias de Pellanda começam em casa, com ouvidos atentos à mãe, que narrava fábulas cheias de aventura e personagens pitorescos. Do pai, de família italiana, herdou o vozeirão e o talento para a música. De ambos os progenitores, a sensibilidade para as artes. “Acho meu pai, tanto quanto minha mãe, pessoas muito sensíveis ao outro”, diz.

Foi nas estantes de casa que começou sua formação de leitor – o que mais tarde o levou a escrever. No princípio eram as enciclopédias, compradas do vendedor que batia no portão da residência no Capão Raso, e a Bíblia. Entre capas de couro, papel couché, ilustrações e letras douradas, Pellanda aprendeu a ler e a narrar: “Sempre gostei de folhear, desenhar as coisas a partir da enciclopédia, fazer histórias em quadrinhos”, diz. Depois veio a assinatura do “Círculo do Livro”, uma espécie de clube literário dos anos 1980 responsável por apresentar ao jovem Pellanda os trabalhos de outro Luís – o Fernando Veríssimo.

Depois vieram Rubem Braga e Drummond, entre outros que chegavam sempre pelo correio. Desde cedo, Pellanda associa a leitura à exploração da subjetividade, da possibilidade de fala e do desenvolvimento do pensamento próprio. Mais do que o estudo acadêmico, foi o acesso a livros e a materiais artísticos que formaram o jornalista, escritor e músico. Dos oito aos dez anos, Pellanda fez aulas de piano na casa de uma senhorinha; da infância até boa parte da adolescência, frequentou o ateliê do artista plástico Luiz Carlos de Andrade de Lima.

Carregando a imensa pasta quadrada com os papéis e as tintas, nas viagens de expresso até a rua Buenos Aires, Pellanda aprendeu uma lição importante sobre a ideia de representação. O escritor conta que o professor – sua primeira referência artística – lhe dava um exercício: que escolhesse, no ônibus, a pessoa que mais achasse interessante, e a observasse. A proposta consistia em chegar ao ateliê e desenhar o objeto de estudo. Durante um dos exercícios, o professor passou a questionar quem era a figura do desenho. “Não sei, não perguntei para o cara. É o cara do ônibus”, respondeu Pellanda. Quando a pergunta se repetiu, e o “não sei” também, veio a lição: “Claro que você sabe quem ele é, porque esse cara foi você quem fez, não é o cara do ônibus”, teria dito Lima.

Ele virou uma chave. Para Pellanda, o diálogo deixou claro que era preciso um filtro: “Você olha para as coisas de um jeito, muitas vezes, imenso, e você tem que saber controlar essa força para entender melhor o que você sente em relação às coisas que você vê, que você conhece”, explica. Não se trata da pessoa real, jamais, mas sim de uma representação criada pelo artista.

O conceito se expande, ainda hoje, para os textos. “Aquilo é a representação de algo que eu vi, ou que eu pensei, moldado para que diga algo a alguém”, diz. Para o escritor, a história é uma representação com poder de provocar uma reação: “O que é relevante é a experiência da leitura. O que importa é a experiência que aquilo produz no leitor. Não importa se aconteceu ou não, porque a reação é que é real”.

Talvez isso explique por que ele experimenta a vida por meio de histórias. Para Pellanda, são esses pequenos fragmentos que formam a nossa leitura do mundo: “A gente evoluiu a partir das histórias que nos contam, que são feitas para criar tradição, guardar conhecimento e passar para outra geração, e para criar emoção – movimentar as pessoas”, diz.

Pellanda chegou ao jornalismo por uma espécie de vocação para ouvir e observar, e pela vontade de se aproximar de um ambiente no qual as pessoas escrevessem para ganhar a vida. Começou na sala de estar de sua mãe, cheia de senhorinhas aprendendo a tricotar e de visitas de todo tipo – padre, gaiteiro, amigos de primos e uma multidão de parentes.

Embora tenha desistido da carreira como artista plástico aos 16 (“Eu era ruim!”, reconhece entre goles de expresso), a escrita – presente desde a infância, nas histórias em quadrinhos baseadas na leitura das enciclopédias – se estabeleceu com força. Na pré-adolescência já escrevia contos. Jogava boa parte no lixo – e ainda joga. Também foram para o lixo algumas peças de teatro e dois romances, escritos aos 20 anos. Mesmo em meio ao trabalho nas redações pelas quais passou (“Veja”, “Primeira Hora”, “Gazeta do Povo” e “Rascunho”), Pellanda sempre escreveu.

Seu primeiro livro saiu em 2009, “O macaco ornamental” (Bertrand Brasil), que levou anos para ser escrito. “Lembro de ter chegado a um ponto em que tinha uma quantidade de contos que achava interessante”, diz. Na época, Pellanda resolveu pedir a opinião do amigo Flávio Stein, que sugeriu mostrar os textos para o escritor José Castello. A sugestão não foi acatada por Pellanda, mas Stein acabou falando com Castello mesmo assim. “O Flávio intermediou esse meu interesse pelos escritos do Pellanda”, relembra Castello, que se ofereceu para ler a obra. Porém, Pellanda lembra de Castello ter dito: “Não garanto que vou ler tão cedo”.

Depois de um ano, Castello fez um telefonema indicando o livro para a editora Bertrand Brasil – e ele foi publicado em seguida. De lá para cá, saíram mais duas antologias de entrevistas do “Rascunho”, um livro de contos e outros quatro de crônicas – o mais recente é “Calma, estamos perdidos”, que saiu no ano passado pela Editora Positivo.

 “Já na primeira vez que li o Pellanda senti essa forte vocação dele para a crônica”, explica Castello, para quem o talento de cronista é um item bastante raro no meio literário. Sedutor, envolvente, rico e original são alguns termos que descrevem, para Castello, a obra de Pellanda: “Ele tem uma sensibilidade fantástica, isso salta aos olhos como uma característica muito forte. (…) Extremamente atento ao mundo real, o Pellanda faz disso matéria dos seus escritos”.

A vocação, de acordo com Castello, não é sem propósito. É do interesse de Pellanda pelas pequenas coisas e pelos personagens do cotidiano que vem uma boa dose dessa aptidão natural do escritor. “O Pellanda caminha na contramão dos preconceitos. Ele pega essas pessoas miseráveis, insignificantes; as situações miseráveis, as pequenas tristezas e trabalha com elas. E faz isso de uma forma não só amorosa, mas extremamente rica e inteligente”, diz Castello. De fato, entre os personagens de Pellanda estão tipos comuns, prostitutas, traficantes, moradores de rua, pedintes, transeuntes, homens mortos em via pública e até mesmo um sabiá afogado em fezes humanas.

Em um mundo que só se interessa pelo sucesso, é preciso estar atento para encontrar significado nas coisas que a maioria das pessoas ignora. “Gosto de imaginar que a crônica pode servir como uma ponte para que o leitor possa se identificar com todos aqueles personagens cujas histórias são passadas através da crônica, e não só com o cara que conta a história”, diz Pellanda.

É da relação com os leitores que o autor tira as maiores lições. “Pra mim, foi a grande sorte que, trabalhando como cronista eu não só escrevo, mas tenho uma resposta dos leitores”, diz. Além de publicações esporádicas, Pellanda ainda recebe direitos autorais por alguns livros, mas tem como renda principal os cursos, oficinas e palestras que ministra, e as leituras críticas que faz. “Dá pra viver disso, ainda”, relata o homem que já trabalhou como locutor, teve uma assessoria que virou produtora de conteúdo e de espetáculos, foi músico por mais de 15 anos e agora se adapta às possibilidades da escrita como fonte de renda.

O plano para 2020 é trabalhar em um livro de contos e voltar à música de vez, lançando um disco novo ainda neste ano. Apesar de todas as suas habilidades, Pellanda acha irrelevante o título de “artista”. “Relevante é continuar vivendo, inserido nas coisas”, diz.

Ei, você! O Plural pretende sempre oferecer conteúdo gratuito e de qualidade. Mas isso só é possível se a gente tiver apoio de quem gosta do projeto. Olha só: você entra na nossa lojinha, faz uma assinatura de R$ 15 e ganha um jornal para a cidade. Tá barato, hein?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias