HQ bilingue produzida por curitibano concorre ao Troféu HQMix | Jornal Plural
11 nov 2020 - 10h44

HQ bilingue produzida por curitibano concorre ao Troféu HQMix

Quadrinho resgata história e luta dos surdos, e tem a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como língua central

O quadrinho “A mulher surda na Segunda Guerra Mundial”, concorre ao Troféu HQMix na categoria “Produção para outras linguagens”. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a linguagem central da obra gráfica.

Com roteiro e idealização de Germano Weniger Spelling, recém-formado em Letras Libras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a HQ tem ilustrações de Luiz Gustavo Paulino de Almeida. O projeto é fruto do trabalho de conclusão de curso (TCC) de Spelling.

O Troféu HQMIx foi criado em 1989, e é uma das mais tradicionais premiações dos quadrinhos nacionais. A votação, que se autointitula “o Oscar dos quadrinhos”, é realizada por artistas, profissionais, pesquisadores e jornalistas da área. Os vencedores devem ser anunciados em dezembro deste ano, em uma cerimônia on-line.

O autor

Spelling tem 40 anos, é curitibano e surdo de nascença, e desconhece a causa de sua surdez. Estudando em colégio inclusivo, foi oralizado – além de falar, portanto, o professor também lê lábios.

Há dez anos ele atua como professor de biologia no Colégio Estadual para Surdos Alcindo Fanaya Junior. Foi durante sua primeira graduação, em Ciências Biológicas, que entrou em contato com a cultura surda, e por consequência, com a Libras.

Spelling relata, em vídeo, a importância da indicação ao prêmio

Em 2016, Spelling entrou para a UFPR, no curso de Letras Libras. A ideia de produzir uma HQ bilingue veio da vontade de contar parte da história e da luta das pessoas surdas. Em contato com o projeto “HQ’s sinalizadas”, dentro da própria Universidade, o autor encontrou a plataforma perfeita para atingir um público mais amplo.

Dois em um

Produzida em Libras e em português, a obra contempla pessoas surdas e não surdas. “Mesmo parecendo ser bem visual e colorido, as crianças surdas não têm muito contato [com esse gênero] devido ao excesso de balões e escrita da língua portuguesa da qual eles não se identificam. A criada por mim, leva em conta o bilinguismo relacionando imagem, libras e aspectos verbais em menor quantidade”, diz o autor.

Outro aspecto pessoal presente na obra se dá pelo fato de Spelling ser judeu – daí o recorte da Segunda Guerra. “A escolha do recorte da mulher surda foi para mostrar o sofrimento das mulheres surdas no holocausto que eram separadas de seus filhos, sofriam aborto e esterilização”, relata.

A produção da história em quadrinhos veio carregada de propósito: “Espero que eu possa servir de modelo para outros surdos e para crianças surdas. A conscientização acredito que venha ser para os leitores da história em quadrinhos que desconhecem a língua e a história da luta e dos movimentos surdos no Brasil e fora dele. Também desejo que mais histórias em quadrinhos venham a ser criadas com personagens que representem a cultura surda”, diz Spelling.

O roteiro, que tem como plano de fundo uma Varsóvia de 1939, retrata práticas aplicadas pelo regime nazista, e foi embasado em pesquisas realizadas pelo autor em um projeto de iniciação científica. A investigação bibliográfica e documental durou um ano.

A HQ pode ser lida de forma gratuita e on-line, e conta com uma exposição virtual com vídeos e materiais de apoio.

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