“Destacamento Blood” é muito mais do que um filme de guerra | Jornal Plural
18 jun 2020 - 9h15

“Destacamento Blood” é muito mais do que um filme de guerra

Spike Lee usa fatos para iluminar a ficção na história de quatro veteranos do Vietnã que voltam ao território do conflito a fim de encontrar os restos mortais de um amigo

Há cineastas que contam histórias baseadas em “fatos reais”. E perturba a redundância desse “reais”, como se existissem “fatos ficcionais”, ou “fatos alternativos”, apesar do que dizem certos líderes mundiais. Fatos são fatos e, nesse tipo de filme, eles tendem a ser exagerados, ignorados ou manipulados em favor da narrativa.

O diretor Spike Lee faz algo diferente. Ele prefere usar os fatos para iluminar a ficção, e o impacto disso é enorme. Assim, na história de um grupo de ex-soldados negros que volta para o Vietnã a fim de recuperar o corpo de um amigo morto durante a guerra, Lee insere fotos de soldados negros que morreram de fato na Guerra do Vietnã. Eles são os verdadeiros heróis, como diz um dos personagens (fictícios) do filme. Ao contrário dos Rambos e dos Braddocks que circularam pelo cinema (personagens de Sylvester Stallone e Chuck Norris).

Mas “Destacamento Blood”, em cartaz na Netflix, é bem mais do que um filme de guerra. Ele é também sobre dívidas e recompensas. A procura pelo amigo (Chadwick Boseman, o “Pantera Negra”) é uma fachada para encontrar o ouro que enterraram em 1971, durante o conflito, descoberto nos escombros de um avião americano enviado para pagar pela ajuda dos sul-vietnamitas.

É um filme sobre a história americana e sobre o racismo nos Estados Unidos. É também sobre cinema. E é sobre negros que lutaram e morreram por um país que os sufoca até a morte. (Que a data de estreia de “Destacamento Blood”, divulgada meses atrás, tenha coincidido com as manifestações detonadas pelo assassinato de George Floyd, é uma dessas coincidências da vida. Faz mais de 30 anos que Spike Lee fala da opressão aos negros.)

Black

Além de sangue, blood, no Merriam-Webster, significa “homem afro-americano – usado principalmente entre os negros” (em registro informal). Pode ser uma forma diferente de chamar alguém de irmão: chamar de “sangue”. E é assim que Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.) se referem uns aos outros: blood.

As referências citadas por Lee são tantas que inspiram listas. E elas vão de “Apocalypse Now”, que Francis Ford Coppola lançou em 1979, até “Charada”, um filminho água-com-açúcar de Audrey Hepburn e Cary Grant, produzido em 1963 (para não citar as referências mais políticas e históricas).

Com tudo isso, com essa mistura entre fatos e filmes, com imagens reais de Muhammad Ali, Malcolm X e Angela Davis, com um enredo de caça ao tesouro e com as canções de Marvin Gaye na trilha sonora, Spike Lee consegue um resultado original, com sua marca. Um filme que pode ser mais complexo do que parece (se você quiser), que é bom de ver, que é intenso e longo.

(Perceba como a imagem muda de acordo com a época em que a história se passa. Quando a narrativa volta para o passado, durante a Guerra do Vietnã, ela encolhe nas laterais, a tela fica quadrada e a fotografia, mais saturada.)

Delroy Lindo

O que mais impressiona nesse filme feito de coisas impressionantes é, com certeza, Paul, o personagem principal. Lee, que não esconde seu desprezo pelo presidente Donald Trump e o Partido Republicano, fez Delroy Lindo interpretar um eleitor de Trump, do tipo que usa o infame boné vermelho estampado com a frase “Make America Great Again”, ou “faça a América ser importante de novo”, uma inscrição que os americanos chamam simplesmente de MAGA. O boné, à medida que a história avança, vai se tornando uma espécie de personagem coadjuvante e, diferente de muitos coadjuvantes, ele é difícil de ser ignorado.

Não bastasse ser partidário do presidente de reality show, Paul age como Trump: truculento, desconfiado, paranoico, em alguma medida indiferente até ao próprio filho.

A sacação do ator e do diretor foi pegar um personagem que seria fácil de odiar e fazer dele alguém que inspira alguma compaixão. Como a maioria dos homens raivosos que existem por aí, o ódio de Paul esconde sentimentos mais difíceis de entender, traumas, impotências e um passado que ainda não é passado.

Streaming

“Destacamento Blood” está disponível na Netflix.

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