A bolha dos esclarecidos | Plural
6 ago 2019 - 23h08

A bolha dos esclarecidos

Beto Madalosso fala sobre os “esclarecidos” que preferem sonegar e negar direitos

Naquela bolha as pessoas se dizem esclarecidas. Estranhamente isso tem relação com dinheiro: quanto mais rico, mais esclarecido, essa é a régua da sabedoria.

Cheios de si, os esclarecidos acham que somente eles deveriam votar, pois se ficaram ricos sabem o que dá certo, o que funciona para o país.

Mas voto é tudo igual. Então, nas eleições, é praxe, a pessoa esclarecida exerce seu poder: vira cabo eleitoral. Reúne os funcionários numa sala e diz “eu sei o que é bom para vocês, para o país, se candidato X ganhar daremos mais empregos, se não ganhar, fecharemos as portas, escolham entre direitos ou trabalho”.

A pessoa esclarecida acha que “gerar emprego” é ação social, se sente um herói, um benfeitor. Heróis mesmo. Além de gerar emprego a maioria deles ajuda alguém, um enorme coração benevolente. Pagam a escolinha pro filho da empregada, doam pra uma creche, pra um asilo ou pra um hospital.

Pro governo preferem não pagar nada. Pessoas esclarecidas são especialistas em sonegar. Não veem como desonestidade, claro. A justificativa é simples: 1. o governo é ladrão e os impostos vão para seus bolsos 2. o governo não sabe investir onde precisa. Quem sabe investir são eles, afinal, são pessoas de sucesso. Eles têm méritos, acreditam em meritocracia.

Nada disso de cotas para os menos favorecidos, ou leis para as minorias, se querem chegar no topo, tem que remar. Muitos nem se dão conta que já nasceram no topo, outros, simplesmente, fingem não ver, dói demais ver. Contam com subordinados e serviçais, cursos no exterior, carros do ano na garagem e, quase sempre, um amigo do papai pra furar a fila do Detran e conseguir a dispensa do serviço militar. Não precisam se preocupar com aposentadoria, as próximas gerações estão garantidas.

São conservadores, obstinados por construir uma família exemplar, ser a melhor foto das colunas sociais.

Vivem para a felicidade dos filhos desde que os filhos sejam exatamente como sonharam. Filhos gays, por exemplo, preferem trancar em casa. E filho artista? Como assim, artista? Tem que trabalhar e ganhar dinheiro. Vida real, porra!

São absolutamente contra o aborto, a favor da vida, até que não aconteça um deslize numa relação extra conjugal, aí, tudo bem, afinal, foi apenas um caso isolado.

É fundamental manter o status quo, suas felicidades se baseiam nisso: quanto mais bem posicionado, melhor. Desfilam joias e bolsas francesas. Viajam para destinos excêntricos em busca de paz interior e auto conhecimento. Auto conhecimento: um olhar exclusivamente pra dentro de si mesmo. Voltam cada vez mais incapazes de se colocar no lugar do outro, daqueles que vivem do lado de fora de suas bolhas sociais. O discurso “essa viagem mexeu muito comigo, voltei uma pessoa diferente” não se sustenta por mais de semana.

São convictos de suas crenças, detestam intelectuais, pensadores ou filósofos: “o que importa é a prática, o resto é mimimi”. Seria melhor se os diferentes não existissem e o mundo fosse belo e limpinho como num condomínio fechado. Mas quem é que lavaria suas cuecas, calcinhas e serviria seus breakfasts com avocado? Hum, melhor não, esquece. Deixe vai assim mesmo. Tá bom demais do jeito que está.”

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