O Fuga Café, que no fim de semana chamou a atenção dos curitibanos ao dizer que não aceitaria clientes com tornozeleira eletrônica (numa clara referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro, do PL), é parte de uma safra de estabelecimentos "politizados" que vem se destacando em Curitiba, principalmente depois da pandemia. São bares e restaurantes que se opuseram à aglomeração nos tempos de Covid e quem, de um ou outro modo, vêm demonstrando resistência ao avanço da extrema-direita no país.
Aberto há cinco anos, o Fuga, na avaliação de Victor Pandolfi, que toca a cafeteria em parceria com a esposa, Isadora Macedo, tem sua história muito entrelaçada com a pandemia. "Abrimos faz cinco anos, com um capital de giro de R$ 12 mil só. Aí acabou o dinheiro", conta ele. Participantes do movimento "Fechados pela vida", que reuniu dezenas de estabelecimentos contrários ao funcionamento normal durante o auge da pandemia, os donos do Fuga chegavam a levar cafés para pessoas em casa, quando elas tinham sintomas. "E isso que a gente nem tinha carro", diz Victor.
A crítica ao modo como o governo Bolsonaro lidou com o vírus levou a um posicionamento mais consistente do Fuga contra o bolsonarismo em geral. "A gente nem é como o pessoal do Manifesto Café. Eu nunca li o Manifesto Comunista", afirma Victor. "A nossa causa mesmo era mais o Fora Bolsonaro." E, segundo ele, os clientes se sentiram muito à vontade com essa postura.

Victor diz acreditar que o consumidor de café especial boa parte é "mais voltado para essa visão mais social. Mais pra esquerda do que pra direita". E, nesse sentido, a adesão a um posicionamento antibolsonarista foi muito orgânica. "Fizemos brincadeiras com o patriota do caminhão, quando o Bolsonaro foi proibido de entrar num restaurante em Nova York. E isso sempre foi muito bom pra gente. Nós nichamos muito", diz ele.
Tornozeleira
Segundo Victor, a brincadeira quando o ministro Alexandre de Moraes determinou o uso da tornozeleira pelo ex-presidente, foi uma ideia óbvia. E, apesar de muitos comentários agressivos vindos do pessoal ligado ao bolsonarismo, Victor diz que nem de longe se arrepende. "Eu acho que isso fideliza mais o cliente. Tem um linchamento virtual, claro, mas deu um resultado muito positivo. Nós estamos sem abrir por dois dias porque vendemos tudo, nosso movimento foi acima do normal. O número de seguidores aumentou", conta ele.

Um resultado negativo foi a piora na avaliação do Google - influenciadores e políticos fãs de Bolsonaro pediram a seus seguidores que avaliassem mal o café, e em questão de horas a nota do Fuga caiu de cinco para três estrelas.
"A avaliação do Google não me preocupa muito. Minha esposa até comentou que a gente devia aproveitar isso. Vamos fazer uma plaquinha dizendo que somos o café mais mal avaliado da cidade. Mas o Google já está até derrubando essas avaliações que têm conflito de interesse", diz ele.
Bolha saudável
O casal diz que o Fuga vive em uma "bolha saudável" na cidade. Victor veio do Espírito Santo, e Isadora do Ceará. Hoje os dois têm um filho curitibano, e encontraram na cidade muita gente que pensa como eles. "Eu acho que o Fuga é um jeito diferente de ver a cidade", afirma Victor.

Segundo ele, o Fuga Café é pensado como "um ambiente agradável, livre de preconceito". E vem avançando, na medida de suas possibilidades, para implantar internamente as causas em que acredita. "Temos escala 5 x 2, que é uma conquista nossa. Temos auxílio-terapia pros nossos colaboradores", conta Victor.
E segundo ele, esse clima diferente resulta em uma freguesia leal. "Nossos clientes são muito fiéis, tem gente que aparece duas a três vezes na semana", diz ele.