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Primeiro romance de Marleth Silva usa Japão como cenário para história de abandono familiar

Autora paranaense diz que tenta escrever sem pensar que o amigo Dalton Trevisan está olhando por cima de seu ombro

Primeiro romance de Marleth Silva usa Japão como cenário para história de abandono familiar
Marleth Silva, autora de "Na Casa do Pai". Foto: Luisa Boguszewski/Divulgação

Um dia desses estava lendo uma listas de exercícios para novos escritores. Coisas do tipo: "narre uma cena do ponto de vista de um cachorro"; ou então algo como "invente uma entrevista com uma celebridade que já morreu". E acho que um belo teste para um escritor é: "Descreva um lugar que você nunca conheceu e que talvez nem exista".

"Na Casa do Pai", primeiro romance de Marleth Silva (Arte e Letra, 108 páginas) passa pelo teste com brilho: a escritora faz seus personagens passearem por uma cidadezinha do Japão e descreve os cenários, a vida local com tamanha autoridade que, depois de ler, fui obrigado a perguntar para ela se alguma vez já tinha ido ao Japão. A resposta foi: nunca.

Sei que Marleth gosta de viajar para todo canto (trabalhamos juntos e depois das férias ela contava que tinha ido com os filhos para Mali, ou sei lá qual outro lugar distante). Mas para o Japão nunca foi; e no entanto, foi o Japão que ela escolheu como cenário de boa parte de sua primeira narrativa longa - até aqui, na ficção, só tinha publicado contos.

A escolha do país, porém, mais do que se justifica. A história começa com uma família no Brasil. Descendente de japoneses, o pai decide tentar a sorte como dekassegui e deixa por aqui a mulher com dois filhos. O problema é que, com o tempo, a comunicação fica mais rara, o dinheiro que ele mandava mingua e, no fim, o sujeito simplesmente some.

O centro da história é a viagem que o filho, agora já adulto, casado e com um filho, decide fazer para reconstituir os passos de seu pai. Por que ele abandonou a família? Estará vivo? Casou de novo? É essa viagem que Marleth segue, desde o começo até o inusitado fim.

Você disse que nunca foi ao Japão, certo? Que tipo de intuição ou pesquisa te guiou nas descrições? Aquele lugar existe mesmo?

Nunca fui ao Japão. Pretendo ir um dia. A cidadezinha onde a maior parte da história acontece é fictícia. Pensei naquela região do Japão porque, há muitos anos, um amigo me contratou para registrar as memórias do avô, que tinha vindo de Hokkaido. Passei algumas horas deliciosas ouvindo-o falar daquela região. Então, o Japão para mim começou a existir lá, na terra do seu Washida. Claro que fiz pesquisas para saber um pouco mais.

Por que você escolheu exatamente o Japão? Foi mais pela existência dois dekasseguis ou tem mais alguma coisa por trás disso?

Sinceramente, não lembro direito como a ideia surgiu. Mas a experiência de filhos abandonados pelo pai me persegue desde a adolescência. Vi isso acontecer com amigos e, por coincidência, eram quase todos meninos. Nos anos 1990, fui a Londrina em duas ocasiões fazer reportagens e ouvi relatos que me ajudaram a escrever "Na Casa do Pai". Em uma ocasião, escrevi sobre dekasseguis que procuravam se casar antes de ir para o Japão porque temiam a solidão. Na outra, o assunto eram as famílias comandadas por mulheres. Entrevistei uma moça muito jovem cujo marido de origem japonesa estava no Japão e não mandava notícias. Ela falou comigo na calçada em frente à casa, o filhinho no colo, o desespero nos olhos. Nunca esqueci. Enquanto escrevia, falei com conhecidos que moraram no Japão e todos me disseram que a situação que eu uso no livro é muito comum. Uma amiga que mora nos Estados Unidos me contou que, entre os brasileiros que vivem lá, há homens naquela situação do pai de Orlando. Foram ganhar dinheiro e abandonaram a família no Brasil. Gosto de pensar que parti de uma situação real, mas que ainda é pouco explorada.

A ideia do “abandono” da família é meio o que amarra os dois personagens masculinos. E isso é um drama muito real no nosso mundo ainda. O livro nasceu da vontade de discutir isso?

O abandono ou afastamento parental me comove e choca muito. Noto que causa uma ferida dolorida nos filhos. Mas tem outro tema de fundo que é muito importante para mim: a instabilidade econômica do Brasil sacrificando várias gerações. Cresci nos anos 1980 e a minha geração assistiu muita crise econômica, muita gente indo embora por falta de perspectivas. Isso durou até o Plano Real e a partir daí deu uma abrandada. A gente tende a esquecer o quanto o ambiente onde vivemos nos molda até na forma como conduzimos a vida pessoal.

Você é vista por muita gente no mundo literário como “a amiga do Trevisan”. Tem lições dele aí? Vocês conversavam sobre literatura? Pelo que eu sei ele sempre te incentivou a escrever e publicar, certo?

A partir do momento em que soube que eu escrevia, ele me incentivou. Sou muito grata a ele por isso. Deve ter várias lições dele em tudo que eu escrevo. Aliás, o meu esforço é para não escrever pensando que o Dalton está olhando por cima do meu ombro porque isso é intimidador. Até porque somos pessoas bem diferentes. Posso cravar que tem algo que ele achava fundamental e que eu incorporei totalmente: deixar no texto só as palavras essenciais. 

O livro é bem conciso até, pensando em tudo que está ali, parece quase um conto longo. Você tem intenção de escrever narrativas maiores?

Quando escrevi "Na Casa do Pai" pensei em um conto. Mas ele ficou longo e preferi chamar de novela. Até agora, tudo que escrevi é curto. Não sei se consigo ou preciso escrever algo longo, mas quero tentar.  

Serviço
Na Casa do Pai, de Marleth Silva
Editora Arte e Letra, 108 páginas
R$ 54,00 no site da editora

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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Tags: cultura

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