O Museu Paranaense (MUPA) inaugurou no último sábado (11) a mostra "500 Braças", que reúne cerca de 50 trabalhos do coletivo Vilanismo, formado por artistas negros das periferias de São Paulo. A exposição segue em cartaz até 18 de outubro com acesso gratuito.
Com intervenções internas e externas no museu, a curadoria conta com instalações, pinturas, esculturas e obras inéditas para discutir uma questão que atravessa toda a trajetória do grupo: como garantir condições materiais para a continuidade do trabalho de artistas negros no Brasil.
Relacionando memória e pertencimento, parte das instalações se volta para fotografias e histórias das famílias que rememoram suas origens retirantes. Em um dos áudios reproduzidos nos fones, a mãe relembra o passado em Capelinha, município de Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha, e relata a cena da despedida dos familiares, quando foi tentar a vida em São Paulo.
Mais do que um conjunto de obras, "500 Braças" marca uma nova etapa da pesquisa que o coletivo Vilanismo desenvolve desde sua criação, em 2021. Ao partir da compreensão de que a prática artística também envolve a disputa por infraestrutura, território e condições de permanência, os artistas articulam questões históricas, econômicas e urbanas para interrogar o acesso à terra e seus impactos na vida contemporânea.
De acordo com os integrantes, o título remete à Lei de Terras (Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850) – norma que proibiu a doação de terras no Brasil e passou a exigi-las apenas mediante compra. Esse dispositivo, ao inviabilizar o acesso à propriedade para negros libertos, previa a divisão do território em lotes de 500 braças.
Ao ressignificar esse conceito, a Irmandade Vilanismo, em conjunto com o Centro Experimental de Arte Serigráfica/Caderno Listrado, converte o que era feito para delimitar e separar em uma ferramenta de união e construção coletiva. "Braços estendidos que se encontram para inventar e sustentar novos territórios de existência e possibilidade", descreve o texto curatorial.
Criado há 5 anos na capital paulista, o Vilanismo é composto por doze homens negros que valorizam os saberes ancestrais e as experiências afro-indígenas, pautando sua atuação pela autonomia e pela criação de práticas sustentáveis.
O coletivo já integrou a 36ª Bienal de São Paulo, realizou o Baile do Vilanismo no Edifício Misericórdia e promoveu a conversa-performance "Masculinidades Negras" no Instituto Moreira Salles. Atualmente, o grupo é composto por Diego Crux, Ramo, Renan Teles, Carinhoso, Guto Oca, Rodrigo Zaim, Rafa Black, Robson Marques, Denis Moreira e Daniel Ramos.

Serviço
Exposição "500 Braças" – Irmandade Vilanismo
Em cartaz até 18 de outubro de 2026
Local: Museu Paranaense (MUPA)
Rua Kellers, 289. São Francisco. Curitiba - PR
Horário: Terça a domingo, das 10h às 17h30
Entrada: Gratuita
Classificação: Livre