Pular para o conteúdo

Conheça o Manifesto, um café socialista no coração de Curitiba

Na avenida Silva Jardim, cafés especiais da agricultura familiar e cartazes de líderes revolucionários desafiam o conservadorismo da capital do Paraná

bandeiras de revolucionários comunistas
Uma parede do Manifesto Café, em Curitiba. Foto: Tami Taketani/Plural.

O cheiro de café torrado atrai quem passa pela avenida Silva Jardim, no centro de Curitiba, caminhando pela calçada. Quem não resiste à tentação e entra no Manifesto Café e Torrefação, dá de cara com um ambiente aconchegante e com cartazes da franco-atiradora Lyudmila Pavlichenko, que eliminou nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, do jogador Sócrates, líder a Democracia Corintiana e do revolucionário Che Guevara.

Acima do local de preparo dos cafés, uma bandeira do Brasil um pouco diferente: ao invés do verde, o vermelho. Ao invés de “ordem e progresso”, a frase central é “Poder popular”. A decoração deixa marcado o cerne do negócio: ideologia socialista. 

Desde 2018 o Manifesto arrisca posicionamento político à esquerda em uma cidade que é essencialmente conservadora. “A ideia já era esta mesmo desde o início, ter um ‘manifesto’. Além disso, temos esse pensamento social, econômico e sustentável, somos o primeiro espaço bem definido politicamente”, destaca Rafael Suzuki, um dos sócios do Manifesto. 

Além dele, o negócio é tocado por Bruno Henrique Goy e Fernando de Liz, mas a sociedade já teve outras configurações. Todas elas com o mesmo pensamento de ser um espaço coletivo. 

O café é frequentado por membros de partidos de esquerda ou progressistas, como PT, PDT, PSol  e PCdoB, os sócios do Manifesto não têm um partido. Também vão ao local estudantes, professores, artistas e turistas de outros Estados e países para experimentar os pratos e cafés do menu.

Cardápio

Para o bebedor de café, a torra do grão faz a diferença. A qualidade do produto também precisa ser analisada pelo torrefador e no caso do Manifesto, além disso, o produto deve vir de agricultura familiar. 

O local serve cafés cujas produções são nano ou micro safras preferencialmente produzidos por mulheres ou pessoas negras. O mesmo acontece com os insumos como queijo e ovos. Entre os fornecedores está o casal Eliane Aparecida Veiga Schons e Luis Clóvis Schons, assentados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), na Lapa, a 70 quilômetros de Curitiba.

A entrega dos produtos no Manifesto começou porque um dos sócios comprava produtos orgânicos do MST. Antes a entrega era de uma peça de queijo por semana. “No começo só tinha uma vaca mesmo, não dava para fazer muito”, diz Eliane. Agora são, em média, dez peças semanais, além de ovos trazidos direto do campo para a cozinha do local. 

No fim da estrada tem um bar com comida pra lá de boa
Há muito mais segredos e sabores escondidos em panelas e lugares do que podem registrar o Google e a IA. Prova disso é o “Bar do Marcão”

“Nós tomamos esse cuidado na compra dos nossos insumos justamente por causa daquilo que te falei do social, econômico e sustentável. Ideia sem ação não faz revolução. A gente precisa priorizar pequenos produtores para fazer sentido no negócio”, explica Suzuki. 

Tem café, mas também tem cuscuz, pão com queijo e linguiça blumenau e pimenta com goiaba. Para escolher o que vai comer não é necessário acessar um QR. O cardápio é impresso e tem opções vegetarianas e veganas. 

O negócio

A torra do café gera resíduos que na maioria das vezes são descartados no ar. Em uma torrefação como a do Manifesto anualmente são geradas 2 toneladas de resíduos orgânicos, que viram compostagem. Tudo passa por um filtro, é armazenado e depois destinado para propriedades rurais parceiras. 

Outra ação é a venda de café a granel, que economizou o uso de 15 mil embalagens nos últimos quatro anos. “E também damos desconto aos clientes quando compram assim, para incentivar a redução de embalagens”, destaca Suzuki. 

Além da sustentabilidade, outro ponto estratégico do negócio é o bem-estar dos trabalhadores. Atualmente são onze funcionários trabalhando em regime CLT. O café funciona todos os dias, mas os funcionários têm escala 5x2, com folgas preferencialmente seguidas.

Os sócios entendem que o fim da escala 6x1 é possível e adotam a escala com duas folgas semanais para atender ao pilar social. “É possível encerrar a 6x1. Basta querer e organizar. Para o nosso negócio faz sentido abrir aos domingos, mas pensamos também que os trabalhadores daqui precisam ter folga e qualidade de vida”.

Polarização

Em épocas de eleições gerais, a polarização é sempre um desafio para negócios que têm posicionamentos políticos definidos, com é o caso do Manifesto Café e Torrefação. 

Em oito anos de funcionamento, os donos chegaram a receber ameaças pelas redes sociais. “Mas felizmente é sempre virtual, nunca ninguém veio aqui pessoalmente falar”, revela Suzuki.

Apesar disso, o café prosperou desde a abertura. O investimento inicial foi de aproximadamente R$ 30 mil. Depois da consolidação da marca, o espaço ficou pequeno e passou por reforma, que garantiu mais acessibilidade e mais lugares para os clientes.

No entanto, os sócios não têm planos de franquear ou abrir outras unidades. “Quem quiser tomar café no Manifesto precisa vir para Curitiba”, diz, aos risos, Rafael Suzuki.

Aline Reis

Aline Reis

Jornalista e especialista em Gestão da Comunicação, Assessoria e Marketing pela Universidade Positivo (UP). Mestra em Estudos de Linguagens pela UTFPR. Presidenta do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná.

Todos os artigos

Mais em curitiba

Ver todos

Mais de Aline Reis

Ver todos

De nossos parceiros