A presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) nos mercados ilegais da fronteira paranaense com o Paraguai é uma das mudanças descritas pelo estudo “O novo mapa do contrabando: a ascensão das facções nos mercados ilegais”, do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF).
A pesquisa descreve uma logística mais profissionalizada, com transporte multimodal, custos padronizados e capacidade de adaptar mercadorias à demanda. Segundo publicação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública citada no estudo, o CV aparece ligado à distribuição de cigarros ilegais, enquanto o PCC atua no transporte de grandes cargas e no controle de rotas a partir do Paraguai.
Na fronteira paranaense, o comandante do Batalhão de Polícia de Fronteira (BPFron), major Eldison Martins do Prado, ouvido pelo estudo, relata sinais dessa expansão. “Nós temos observado a possibilidade de que facções criminosas, como o PCC e o Comando Vermelho, ampliaram sua atuação no contrabando de cigarros na fronteira”, afirma. Segundo ele, a atividade oferece grande margem de lucro e risco penal menor que o tráfico de drogas.
O BPFron descreve uma operação por vias aquáticas e terrestres. Grandes carregamentos atravessam o Lago de Itaipu e desembarcam em portos clandestinos. Depois, seguem em caminhonetes, vans, caminhões-baú e carros por estradas rurais e rodovias. Imóveis urbanos e propriedades rurais funcionam como depósitos temporários.
A logística do contrabando
Depois de entrar no Brasil pela fronteira com o Paraguai, parte das cargas segue por rodovias que conectam o Oeste do Paraná a outros mercados. O estudo cita BR-163, BR-277 e PR-272 como corredores onde grandes carregamentos de cigarros se misturam ao fluxo regular de caminhões.
Ouvido pela pesquisa, o diretor do DOF, tenente-coronel Wilmar Fernandes, descreve uma rede de apoio para monitorar a presença policial e proteger as cargas. “Eles colocam uma rede de pessoas para avisar onde estão os policiais. É muito bem estruturado. Tem o batedor, o olheiro, o chefe da vila”, detalhou.
Nos últimos cinco anos, a Receita Federal contabilizou mais de R$ 1,7 bilhão em veículos usados no transporte de contrabando e descaminho e mais de R$ 150 milhões em aeronaves e embarcações. Só no Paraná, o BPFron apreendeu quase 800 mil pacotes de cigarros em 2025.
Eloiza Dal Pozzo, autora do estudo, e Luciano Stremel Barros, responsável pela pesquisa e coordenação-geral, apontam a padronização dos custos como mudança central da última década. As facções passaram a operar com custo logístico médio de 22%, independentemente da mercadoria.
Ao Plural, Barros explicou que o percentual resulta de pesquisas, entrevistas com agentes de segurança e comparação de preços entre Paraguai e varejo brasileiro, e vale para a fronteira paraguaia no Paraná e em Mato Grosso do Sul.
Ao tratar do enfrentamento, o estudo defende investigação financeira, inteligência e cooperação com o Paraguai para atingir rotas, patrimônio e fontes de financiamento. “Não basta reprimir”, afirma o documento, ao propor estratégias para enfraquecer o poder econômico das organizações criminosas.