Resumo: a cobrança de parcelas de empréstimo na fatura de energia da Copel sai da Crefaz, uma sociedade de crédito paranaense sediada em Maringá. A financeira cresceu 32 vezes em sete anos, fechou dezembro de 2025 com R$ 73,5 milhões em ativos e opera dentro de um grupo familiar de 18 empresas — que inclui corban, cobrança e até uma securitizadora de créditos. O produto é regulado pela Aneel, mas o Ministério Público da Bahia já processou a Crefaz por cobranças sem autorização. No Paraná, o consumidor pode pedir à Copel que exclua a cobrança da fatura a qualquer momento.
O que você vai encontrar nesta reportagem
- Como a cobrança do empréstimo chega na conta Copel
- Quem é a Crefaz, a financeira que empresta
- A rede de 18 empresas do grupo em Maringá
- O que diz a lei: Resolução 1.000/2021 da Aneel
- O precedente do MP‑BA contra a Crefaz
- Como cancelar o empréstimo Crefaz na conta de luz
- Perguntas frequentes
Como a cobrança do empréstimo chega na conta Copel {#como-a-cobranca-chega-na-conta}
O empréstimo descontado na conta de luz é um produto de crédito pessoal em que o pagamento das parcelas é incluído, mês a mês, na mesma fatura que o consumidor já recebe da distribuidora de energia. No Paraná, a distribuidora é a Copel. Mas quem empresta não é a Copel — é uma financeira que tem convênio com ela.
Em respostas públicas no Reclame Aqui, a própria Copel explica o papel limitado que diz desempenhar nessa operação:
> "A cobrança referente ao empréstimo consignado em fatura decorre de contrato firmado junto à Crefaz. (…) A Copel apenas discrimina e arrecada essas parcelas por convênio entre as empresas."
A contratação costuma acontecer pela internet, por link de WhatsApp ou em pontos de venda credenciados. O cliente preenche um formulário de autocontratação com CPF, celular, data de nascimento, cidade e envia uma foto da conta de luz. Nos termos de uso que acompanham o processo, o consumidor autoriza duas coisas em separado: a consulta do CPF em APIs de terceiros e a leitura por OCR (reconhecimento óptico de caracteres) da conta de energia. A plataforma por trás desse fluxo é da AGX Software, uma empresa de tecnologia que vende um "sistema de corban" com API de simulação e autocontratação e lista o "empréstimo na conta de energia" entre os produtos oferecidos.
Depois de autorizado, o valor é creditado para o cliente (via Pix, TED ou boleto) e as parcelas passam a aparecer na fatura da Copel sob o nome da financeira — normalmente "Crefaz".
Quem é a Crefaz, a financeira que empresta {#quem-e-a-crefaz}
A CREFAZ SOCIEDADE DE CRÉDITO AO MICROEMPREENDEDOR E A EMPRESA DE PEQUENO PORTE S.A. tem CNPJ 18.188.384/0001-83 e sede na Avenida Duque de Caxias, 882, Edifício New Tower Plaza, em Maringá. Começou a operar em 16 de maio de 2013. É uma sociedade anônima de capital fechado, com capital social de R$ 18,5 milhões, e opera no CNAE 6437-9/00 — sociedades de crédito ao microempreendedor (SCMEPP).
Do lado regulatório, a Crefaz é autorizada e supervisionada pelo Banco Central: aparece no cadastro oficial sob o código Sisbacen 31509, com status "Autorizada em Atividade", tipo "Sociedade de Crédito ao Microempreendedor" e nome reduzido "CREFAZ SCMEPP SA".
Nos sete anos cobertos pela base IF.data do próprio Banco Central, a Crefaz saiu de uma operação pequena para uma das SCMEPPs mais robustas do país.
| Trimestre | Ativo total | Lucro líquido no período | Patrimônio líquido |
|---|---|---|---|
| mar/2018 | R$ 2,3 milhões | R$ 371 mil | R$ 1,0 milhão |
| dez/2019 | R$ 4,2 milhões | R$ 955 mil | R$ 1,9 milhão |
| dez/2020 | R$ 9,3 milhões | R$ 2,3 milhões | R$ 5,5 milhões |
| dez/2021 | R$ 25,2 milhões | R$ 4,8 milhões | R$ 14,9 milhões |
| dez/2022 | R$ 28,4 milhões | –R$ 1,7 milhão | R$ 14,2 milhões |
| dez/2023 | R$ 29,7 milhões | R$ 3,8 milhões | R$ 23,4 milhões |
| dez/2024 | R$ 50,5 milhões | R$ 10,5 milhões | R$ 30,1 milhões |
| dez/2025 | R$ 73,5 milhões | R$ 17,7 milhões | R$ 56,3 milhões |
> Fonte: IF.data, Banco Central do Brasil, até o último trimestre disponível (dez/2025).
O ativo total multiplicou-se por 32 entre 2018 e 2025. O único ano com prejuízo foi 2022. Em release corporativo de 2024, a empresa afirmou operar com 115 lojas e cerca de 1.200 colaboradores em todo o país, e naquele ano inaugurou um escritório em São Paulo (Edifício Villa Lobos, zona oeste).
A rede de 18 empresas do grupo em Maringá {#rede-de-empresas}
A Crefaz não opera sozinha. Um cruzamento no cadastro de sócios da Receita Federal (dados abertos, competência mais recente) mapeia a rede empresarial em torno do presidente da financeira, Carlos Eduardo Navarro Ribeiro, e dos seus parceiros habituais. O resultado: um grupo de 18 empresas, quase todas em Maringá, controladas por seis pessoas físicas — duas famílias no núcleo (Navarro Ribeiro e Porcu) e um sócio operacional, Danilo Tadeu Alves.
### Os seis donos
| Pessoa | Papel no grupo |
|---|---|
| Carlos Eduardo Navarro Ribeiro | Presidente da Crefaz; aparece como administrador ou diretor em dez empresas da rede. |
| Danilo Tadeu Alves | Presidente da securitizadora Sul Prime Security; sócio-administrador em cinco empresas. |
| Ana Carolina Porcu | Sócia da holding Ribeiro & Porcu; dona da franquia Isocred em Londrina. |
| Daniela Soledad Poblete Salas | Sócia do Danilo em duas holdings de participação. |
| Carlos Alexandre Porcu | Família Porcu; sócio da administradora de bens OMOCA e dono de lojas de informática e variedades em Maringá. |
| Ottavio Porcu | Família Porcu; sócio da OMOCA. |
### Como as 18 empresas se organizam
Operação do crédito (o núcleo do negócio):
| CNPJ | Empresa | Função | Capital social |
|---|---|---|---|
| 18.188.384/0001-83 | CREFAZ SCMEPP S.A. | Financeira regulada pelo BC | R$ 18.500.000 |
| 28.424.732/0001-28 | CFZ Promotora de Vendas | Corban (vende o produto) | R$ 530.000 |
| 56.046.132/0001-09 | CFZ Intermediações | Intermediação de negócios | R$ 100.000 |
| 26.018.963/0001-06 | AR Cobranças e Participações | Cobrança da carteira | R$ 300.000 |
| 20.616.208/0001-47 | Sul Prime Security Companhia Securitizadora | Securitiza créditos | R$ 10.000 |
Holdings e veículos de participação:
| CNPJ | Empresa | Sócios | Capital social |
|---|---|---|---|
| 28.868.203/0001-13 | Ribeiro & Porcu Participações | Carlos Eduardo + Ana Carolina Porcu | R$ 8.104.000 |
| 11.678.930/0001-15 | A S Ducalli Participações | Danilo + Daniela Poblete | R$ 5.084.000 |
| 28.912.021/0001-00 | Tesda Participações Societárias | Danilo + Daniela | R$ 1.777.576 |
| 48.683.683/0001-55 | OMOCA Administradora de Bens | Família Porcu | R$ 240.000 |
| 63.932.565/0001-27 | Prospera Participações | Carlos Eduardo | R$ 10.000 |
Serviços auxiliares e empresas pessoais (FAZ Serviços, Prospera Assessoria, AC Intermediação/Isocred Londrina, C A Porcu Comercial de Variedades, Sara e Carlos Portais de Internet, mais três CNPJs já baixados: AC Serviços, Micro Pronto Informática e Micro Maringá Informática).
### A pista Isocred: a franquia que veio antes da financeira
Entre as 18 empresas, uma antecede a própria Crefaz. A AC Intermediação Ltda (CNPJ 12.080.011/0001-08), com nome fantasia "Isocred Londrina", foi aberta por Ana Carolina Porcu em 11 de junho de 2010 — três anos antes da fundação da Crefaz, em 2013. A Isocred é uma marca nacional de franquia de correspondente bancário, pertencente à Nipocentro Serviços Ltda, sediada em Belo Horizonte, que intermedeia consignado de BMG, Pan, Bradesco e outros bancos. Em outras palavras, o grupo começou vendendo consignado como franqueado de uma rede nacional e, em 2013, montou a própria sociedade de crédito.
A arquitetura atual replica, em escala maior, o que fazia a franquia Isocred: há uma empresa que origina o crédito (a CFZ Promotora, o corban), uma que cobra (AR Cobranças), uma holding patrimonial (Ribeiro & Porcu, com R$ 8,1 milhões em capital social) e uma securitizadora de créditos própria — a Sul Prime Security, cujo presidente é Danilo Tadeu Alves e cujo diretor é o próprio Carlos Eduardo Navarro Ribeiro. A securitização permite que a Crefaz "empacote" e venda a carteira de recebíveis para investidores, levantando funding para continuar emprestando.
O que diz a lei: Resolução 1.000/2021 da Aneel {#base-regulatoria}
A inclusão de parcelas de empréstimo na fatura de energia tem regra. Ela está no Capítulo X da Resolução Normativa 1.000, de 7 de dezembro de 2021, da Aneel, que trata das cobranças de serviços e produtos de terceiros na fatura. Dois pontos são essenciais para o consumidor:
- A cobrança só pode entrar com autorização prévia e expressa do titular da unidade consumidora.
- O consumidor pode pedir a exclusão da cobrança a qualquer tempo, de forma parcial ou total, sem precisar justificar.
O artigo 346 da mesma resolução proíbe a distribuidora de condicionar religação, transferência de titularidade ou nova ligação ao pagamento de uma dívida que o consumidor não tenha autorizado ou que seja de terceiro. Ou seja: se a cobrança chegou sem o aval do titular, a Copel não pode usar o corte de luz como ferramenta de pressão para cobrar.
O precedente do MP‑BA contra a Crefaz {#precedente-mp-ba}
A Crefaz já foi parar no banco dos réus em outro estado. O Ministério Público da Bahia ajuizou ação civil pública contra a Coelba (concessionária de energia do grupo Neoenergia) e a própria Crefaz, acusando as duas de incluir cobranças de empréstimo em faturas de energia sem autorização do consumidor. O caso começou depois que uma consumidora relatou ter recebido cerca de R$ 200 em parcelas cobradas em quatro meses em nome da Crefaz, sem recordação de contratação.
Em sua defesa, a Crefaz costuma afirmar que valida cada contrato por reconhecimento facial e envio de documento. Essa é também a descrição que a Enel X — braço da Enel que faz a ponte com a Crefaz no Ceará — dá do processo. Mas as queixas de contratação por terceiros (parente que usou os dados, "fiz pensando que eram seis parcelas", contrato não recebido) seguem aparecendo com frequência no Reclame Aqui e em processos administrativos de Procons. A reputação da Crefaz na plataforma é classificada como "boa", com 72,3% de reclamações resolvidas, mas o volume absoluto é alto: mais de 4 mil reclamações em um semestre.
No Paraná, o Procon de Cascavel apontou, em balanço do primeiro semestre de 2025, que empréstimos não reconhecidos estão entre as queixas mais comuns do setor financeiro no município. O Procon-PR já multou outros bancos (como o C6, em cerca de R$ 300 mil) por empréstimos não solicitados a idosos.
Como cancelar o empréstimo Crefaz na conta de luz {#como-cancelar}
Para quem já tem a cobrança na fatura e quer tirá-la, o caminho tem três frentes paralelas:
1. Pedir a exclusão à Copel. O artigo 345 e seguintes da REN 1.000/2021 dão esse direito; o consumidor pode fazer o pedido pela Agência Virtual da Copel, pelo 0800 ou presencialmente. Em respostas em canais de reclamação, a Copel afirma que inativa o convênio com a Crefaz naquela unidade consumidora a pedido do cliente.
2. Contestar o contrato na Crefaz. Pedir cópia do contrato por escrito, do Custo Efetivo Total (CET) e das autorizações (reconhecimento facial, OCR, assinatura eletrônica). Se o contrato foi assinado por terceiro ou houver fraude, registrar boletim de ocorrência e pedir cancelamento com estorno.
3. Buscar Procon e Banco Central. O Procon-PR aceita reclamação formal; o Banco Central tem canal específico de reclamações contra instituições financeiras supervisionadas — a Crefaz é uma delas.
Pelo Código de Defesa do Consumidor, o cliente tem ainda o direito de arrependimento de 7 dias corridos para desistir de contratos à distância, desde que o dinheiro ainda não tenha sido sacado ou transferido.
O que ainda está em aberto {#limites}
Alguns pontos ficam de pé para quem quiser olhar com mais fôlego:
- A lista oficial de financeiras conveniadas com a Copel não é pública — depende de pedido via LAI à distribuidora.
- O CNPJ e os sócios da AGX Software, a plataforma de autocontratação, não aparecem nas buscas abertas.
- A composição acionária completa da Crefaz não consta do cadastro da Receita (que, para S.A., mostra apenas administradores); conhecer os acionistas controladores é essencial para entender quem decide no grupo.
- As buscas públicas não revelaram vínculo entre o grupo Crefaz, o governo do Paraná, a gestão Ratinho Junior, a família Pimentel (de Paulo Pimentel, ex-governador) ou lideranças políticas de Maringá — mas o cruzamento com dados completos do TSE e com o Portal da Transparência do Paraná segue pendente.
Perguntas frequentes {#faq}
O que é a Crefaz?
A Crefaz é uma Sociedade de Crédito ao Microempreendedor e à Empresa de Pequeno Porte (SCMEPP), sediada em Maringá, Paraná. É uma instituição financeira autorizada pelo Banco Central (CNPJ 18.188.384/0001-83, código Sisbacen 31509). Oferece empréstimos pessoais, inclusive na modalidade descontada na conta de luz.
A Crefaz é confiável?
A Crefaz é uma empresa regulada e supervisionada pelo Banco Central e tem autorização para operar. No Reclame Aqui aparece como "verificada" com reputação "boa" (72,3% de reclamações resolvidas, 97,8% respondidas). Ao mesmo tempo, acumula milhares de reclamações sobre contratação por terceiros, falta de contrato e cobranças que o consumidor não reconhece — e já foi alvo de ação civil pública do Ministério Público da Bahia por cobrança indevida em faturas de energia.
Quem é o dono da Crefaz?
O presidente da Crefaz é Carlos Eduardo Navarro Ribeiro. A sociedade controladora aparente é a holding Ribeiro & Porcu Participações, formada por Carlos Eduardo e Ana Carolina Porcu, com R$ 8,1 milhões em capital social. Por ser uma S.A. de capital fechado, a composição acionária completa não é pública nos dados da Receita.
A Copel é dona do empréstimo cobrado na minha conta?
Não. A Copel afirma que apenas inclui a parcela na fatura e repassa o valor à financeira, por meio de convênio. O contrato de empréstimo é com a Crefaz, não com a Copel.
Como cancelar o empréstimo Crefaz na conta de luz?
Peça a exclusão da cobrança na Agência Virtual da Copel (direito previsto na Resolução Normativa 1.000/2021 da Aneel). Em paralelo, exija cópia do contrato na Crefaz, registre boletim de ocorrência em caso de fraude e abra reclamação no Procon‑PR e no canal do Banco Central.
O empréstimo na conta de luz é legal?
Sim, desde que haja autorização prévia e expressa do titular da unidade consumidora, nos termos do Capítulo X da REN 1.000/2021 da Aneel. Cobrança sem autorização é indevida e pode ser contestada.
O que acontece se eu não pagar o empréstimo que está na conta de luz?
A dívida continua existindo mesmo com a exclusão da cobrança da fatura: ela passa a ser cobrada diretamente pela financeira, com os encargos previstos no contrato. A distribuidora não pode cortar a energia por causa de dívida que não seja de consumo de energia (REN 1.000/2021, art. 346).
Metodologia
O levantamento cruzou o cadastro de empresas da Receita Federal (dados abertos, competência mais recente) com os cadastros de instituições autorizadas pelo Banco Central (Olinda/BcBase) e com a série histórica do IF.data (trimestres de 2018 a 2025). As falas atribuídas à Copel vêm de registros públicos no Reclame Aqui. O precedente judicial contra Crefaz e Coelba está em Bahia Notícias. Dados do Procon de Cascavel: balanço do 1º semestre de 2025. Resolução Normativa 1.000/2021 da Aneel acessada no Legisweb. A rede societária foi consolidada a partir das tabelas públicas de sócios e estabelecimentos da RFB.