O Banco Daycoval, controlado pela família Dayan, de São Paulo — na lista Forbes de bilionários brasileiros de 2024 —, não figura em nenhuma das três listas de credores anexadas à recuperação judicial da Tradener Ltda. Mas aparece em pelo menos três momentos-chave dos meses que antecederam o pedido, protocolado em 20 de maio de 2026 na 2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba.
Em 23 de abril de 2026, 27 dias antes do pedido, o banco assinou duas cartas de fiança no valor total de R$ 6.673.828,80 para manter viva a relação contratual da Tradener com a Eletrobras — e o fez no mesmo dia em que a comercializadora resgatou do próprio Daycoval uma aplicação em CDB no valor de R$ 6.673.829,00, segundo os extratos bancários anexados à petição inicial.
Em fevereiro, dois meses antes, a Daycoval Leasing — subsidiária do mesmo grupo — havia adquirido da PIE-RP Comercializadora, outra empresa do grupo Gulin, o jato Cessna Citation CJ4 que havia sido da Tradener até novembro de 2025, com valor declarado de R$ 42 milhões no registro do arrendamento junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). E em 13 de maio, sete dias antes do pedido de recuperação, D.G.W. Participações e Fraternita Participações — as duas holdings que controlam diretamente a Tradener — realizaram assembleias idênticas, no mesmo dia e com os mesmos presentes, autorizando a cessão de direitos creditórios ao Grupo Daycoval e ratificando "os atos anteriormente praticados".
O documento 18 anexado à petição inicial da recuperação judicial (movimento 1, páginas 1.183 a 1.186 do PDF integral do processo) traz duas cartas de fiança bancária emitidas pelo Banco Daycoval S.A. em 23 de abril de 2026, em São Paulo:
| Carta | Afiançado | Favorecido | Valor Limite | Contrato garantido |
|---|---|---|---|---|
| Nº 50289/26 | Tradener Ltda | Eletrobras (Centrais Elétricas Brasileiras S.A.) | R$ 2.267.265,60 | FEN24E0001463F, firmado em 13/05/2024 |
| Nº 50290/26 | Tradener Ltda | Eletrobras | R$ 4.406.563,20 | FEN24D0002343F, firmado em 17/04/2024 |
Em ambas, o Daycoval se obriga, como "FIADOR e principal pagador", a quitar em até 48 horas qualquer parcela cobrada pela Eletrobras — até o Valor Limite —, caso a Tradener não cumpra as obrigações de pagamento decorrentes dos contratos de compra e venda de energia elétrica garantidos. A vigência de cada carta é de 365 dias, até 23 de abril de 2027. Embora datadas de 23 de abril de 2026, as assinaturas digitais dos dois representantes legais do banco levam marca de tempo do dia seguinte, 24 de abril de 2026, às 17h55 e às 18h08, horário de Brasília — mesmo dia em que a Tradener encaminhou a contranotificação à AXIA Energia descrita adiante.
Soma dos dois instrumentos: R$ 6.673.828,80.
O resgate de R$ 6,67 milhões no mesmo dia
Os extratos bancários da Tradener juntados ao processo (também no movimento 1, páginas 707 e seguintes) registram, em 23 de abril de 2026, movimentação que acompanha ponto a ponto a emissão das cartas de fiança:
- Resgate de aplicação em CDB — Banco Daycoval S.A., no valor de R$ 6.673.829,00;
- Recebimento, no mesmo dia, de PIX no valor idêntico de R$ 6.673.829,00.
Nos extratos também aparecem lançamentos de "TARIFA DE CONTRATO DE FIANCA — CTO 50289/26" e "TARIFA DE CONTRATO DE FIANCA — CTO 50290/26" — tarifas cobradas pela emissão das próprias cartas de fiança descritas acima.
A diferença entre o valor resgatado do CDB (R$ 6.673.829,00) e a soma das duas cartas de fiança (R$ 6.673.828,80) é de vinte centavos. Em operações bancárias desse tipo, o padrão é que o banco emita a fiança lastreado em aplicação da própria afiançada, mantida bloqueada como contragarantia enquanto o aval vigora. Em termos práticos, o Daycoval emitiu uma garantia bancária de R$ 6,67 milhões em favor da Eletrobras tendo, do outro lado, R$ 6,67 milhões da própria Tradener como lastro — operação sem risco material para o banco.
A emissão das cartas foi apresentada pela Tradener como fato relevante no dia seguinte. Em contranotificação à AXIA Energia S.A. — sucessora de contratos da Eletrobras —, datada de 24 de abril de 2026 e anexada aos autos nas páginas 1.188 a 1.192 do PDF integral, a comercializadora afirma que "na presente data (24 de abril de 2026), a TRADENER concluiu, com êxito, o processo de estruturação e de obtenção da carta de fiança bancária exigida contratualmente, instrumento este que garante integralmente as obrigações futuras decorrentes do contrato". No texto, a Tradener pede à AXIA que reconsidere a rescisão contratual que a credora havia comunicado, por falta de garantia — rescisão que, até a emissão das cartas pelo Daycoval, era iminente.
O jato que saiu de uma Gulin e foi para outra, com o Daycoval no meio
Dois meses antes das cartas de fiança, a Daycoval Leasing S.A. — Arrendamento Mercantil (CNPJ 57.731.012/0001-03), subsidiária do Banco Daycoval, entrou numa segunda operação com o grupo Tradener/Gulin, por meio da PIE-RP Comercializadora de Energia S.A. (CNPJ 04.810.290/0001-90).
Segundo o Registro Aeronáutico Brasileiro da ANAC, o Cessna Citation CJ4 (prefixo PP-PGA, ano de fabricação 2018) foi matriculado pela Tradener em 12 de fevereiro de 2019 e operado como aeronave própria da comercializadora até outubro de 2025. Em novembro de 2025, o cadastro no RAB registrou a mudança de titularidade para a PIE-RP Comercializadora — empresa cujo acionista único, segundo a certidão de inteiro teor emitida pela Junta Comercial do Paraná em 30 de setembro de 2026, é a TRD Participações Ltda, outra sociedade do grupo.
Três meses depois, em fevereiro de 2026, o RAB registrou nova mudança de titularidade: a aeronave passou a operar sob arrendamento mercantil da Daycoval Leasing, com a Asim Participações e Holding Ltda (CNPJ 58.534.722/0001-06) como arrendatária. A Asim é uma sociedade aberta em 20 de dezembro de 2024, em Mogi das Cruzes (SP), cujos sócios são integralmente empresas do Grupo Simpar — JSL S.A., Movida Participações, Vamos Locação, Simpar S.A., Automob Participações e CS Infra.
No cadastro do RAB, o valor declarado da aeronave é de R$ 42.000.000,00. O valor efetivo pago pela Daycoval Leasing à PIE-RP não consta nem no cadastro público, nem nos documentos anexados ao processo de recuperação judicial. Os R$ 42 milhões podem representar o preço de aquisição à vista, o valor total do contrato de arrendamento (com principal, encargos financeiros e valor residual garantido) ou outra referência contábil. O balanço auditado da Tradener de 2025 — anexado ao processo — registra, para o mesmo jato, custo original de aquisição de R$ 31,751 milhões (em 2019), depreciação acumulada até a baixa de R$ 22,082 milhões e valor contábil líquido na data da transferência de R$ 9,669 milhões.
A operação ficou assim constituída, segundo o RAB: a Tradener desfez-se da aeronave em novembro de 2025 com valor contábil líquido de R$ 9,67 milhões; a PIE-RP, empresa do mesmo grupo, ficou dona por três meses; e em fevereiro de 2026 a Daycoval Leasing adquiriu-a para arrendá-la a uma empresa do Grupo Simpar, com valor declarado seis vezes superior ao que a Tradener havia dado baixa.
A assembleia da véspera
Em 13 de maio de 2026 — sete dias antes de a Tradener protocolar seu pedido de recuperação judicial —, as duas holdings que controlam diretamente a comercializadora de energia lavraram atas de reunião de sócios idênticas. Nas duas, consta a mesma data, o mesmo horário (10h00), as mesmas três pessoas presentes e o mesmo texto deliberativo. A da D.G.W. Participações Ltda (CNPJ 02.877.050/0001-87) registra como sede a Rua Estados Unidos, 1680, Boa Vista; a da Fraternita Participações Ltda (CNPJ 02.708.443/0001-67), a Estrada Nova de Colombo, 6.410, Km 3, Santa Cândida — bairros situados a cerca de dez quilômetros um do outro em Curitiba. Nas duas, os mesmos presentes: a KITH Participações Societárias S.A., representada por Carlos Frederico Gulin e Patricia Gulin Narezi, e a Atena Holding Ltda, representada por Walfrido Victorino Avila — fisicamente impossível em dois endereços simultaneamente.
O texto deliberativo é rigorosamente igual nas duas atas, palavra por palavra:
> "autorizar a companhia a ser garantidora, ou seja, prestar avais, fianças, alienar e onerar bens ou mesmo prestar quaisquer outras garantias em favor da própria companhia/empresa, de terceiros, controladas, coligadas e filiadas, junto ao Grupo Daycoval, sendo permitido inclusive na cessão de direitos creditórios celebrada com fundos de investimentos que tenham empresas do Grupo Daycoval como administrador ou gestor, ficando ainda, ratificados os atos anteriormente praticados."
A autorização foi aprovada por unanimidade nas duas holdings. As atas só foram levadas a arquivamento na Junta Comercial do Paraná em 22 de junho de 2026 — mais de um mês depois da assembleia e já com a Tradener em recuperação judicial, deferida pela juíza Luciane Pereira Ramos em 22 de maio.
A cláusula final da deliberação — "ficando ainda, ratificados os atos anteriormente praticados" — é a que carrega o peso. Ela cobre juridicamente, de forma retroativa, operações realizadas antes de 13 de maio pelas duas holdings e por empresas controladas, coligadas e filiadas em favor do Grupo Daycoval. Entre as operações cronologicamente abrangidas: a transferência do CJ4 à PIE-RP em novembro de 2025; o repasse à Daycoval Leasing em fevereiro de 2026; as duas cartas de fiança de 23 de abril para a Eletrobras; e um pagamento de R$ 747.969,03 feito pela Tradener à PIE-RP em 9 de abril de 2026 — nove dias depois da cautelar antecedente ajuizada pela comercializadora.
As certidões de inteiro teor das duas holdings, emitidas pela Junta Comercial do Paraná em 1º de outubro de 2026, também mostram outra alteração relevante: em 05 de julho de 2024, Walfrido Victorino Avila saiu simultaneamente das duas holdings como sócio pessoa física e transferiu suas quotas — 1.239.500 na D.G.W. e 148.533.000 na Fraternita — à Atena Holding Ltda (CNPJ 55.774.900/0001-88), sociedade que ele próprio administra, sediada no Condomínio Castelo do Batel, em Curitiba.
A composição societária resultante, confirmada em documento primário, é: D.G.W. — KITH 63,0000% + Atena 37,0000%; Fraternita — KITH 67,00% + Atena 33,00%. A KITH é controlada por Carlos Frederico Gulin e Patricia Gulin Narezi, filhos de Donato Gulin.
Credor sem crédito concursal
A revisão das três listas de credores apresentadas pela Tradener no processo — Lista de credores partes 1, 2 e 3, e a Relação de Credores Retificada — não encontra o Banco Daycoval, a Daycoval Leasing ou qualquer outra sociedade do grupo Dayan como titular de crédito contra a comercializadora. No momento do pedido de recuperação judicial, a Tradener não devia nada ao Daycoval que estivesse sujeito ao concurso.
A posição jurídica do banco, porém, não é a de terceiro afastado. Pelo instituto da fiança, se as obrigações garantidas pelas cartas 50289 e 50290 forem executadas pela Eletrobras ou pela AXIA Energia junto ao Daycoval, o banco quita no prazo de 48 horas e passa a ser credor regressivo da Tradener. Como as fianças foram emitidas em 23 de abril de 2026 — portanto antes do pedido de recuperação —, mas o eventual inadimplemento (fato gerador do crédito regressivo) pode ocorrer antes ou depois do pedido, o enquadramento depende do caso: inadimplemento anterior ao pedido geraria crédito concursal; inadimplemento posterior geraria crédito extraconcursal, pago com prioridade sobre os credores da RJ, na forma do artigo 84 da Lei 11.101/2005.
Além disso, por ser contragarantido por aplicação em CDB da própria Tradener na mesma instituição, o Daycoval pode operar compensação direta sobre o depósito dado em garantia — operação que, pela natureza fiduciária, escapa dos efeitos do stay period previsto no artigo 6º da mesma lei, segundo o entendimento consolidado nos tribunais superiores.
A ata de 13 de maio das duas holdings controladoras abre, por sua vez, caminho para operações futuras: fianças, avais, oneração de bens e cessão de direitos creditórios a fundos administrados ou geridos por empresas do Grupo Daycoval. Cessão de direitos creditórios é a figura jurídica típica dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) — instrumento pelo qual bancos médios como o Daycoval compram recebíveis futuros de empresas em troca de caixa à vista. Os autos da recuperação judicial, até o fim de setembro de 2026, não contêm registro específico de cessão de recebíveis da Tradener ou das holdings a FIDCs do Grupo Daycoval; mas a autorização para que isso ocorra, em qualquer momento futuro, foi dada em assembleias idênticas sete dias antes do pedido de recuperação judicial.
Quem é o Grupo Daycoval
O Banco Daycoval S.A. (CNPJ 62.232.889/0001-90), com sede na Avenida Paulista, 1.793, em São Paulo, foi fundado em 1968 e constituído sob a atual denominação em 1989. É um banco médio brasileiro, listado na B3, com atuação em crédito corporativo (middle market), crédito consignado, financiamento de veículos, câmbio, gestão de recursos e arrendamento mercantil — este último por meio da Daycoval Leasing S.A.
O controle é da família Dayan, de São Paulo, hoje composto por Sasson Dayan — patriarca —, Salim Dayan, Carlos Moche Dayan, Morris Dayan e Rony Dayan. A família figura, desde a edição de 2024, na lista Forbes de bilionários brasileiros. Em 2007, após uma reestruturação societária que criou a Daycoval Holding Financeira S.A., o controle do banco foi integralmente concentrado em membros da família.
A relação do Daycoval com o grupo Tradener/Gulin — Tradener, PIE-RP Comercializadora, D.G.W., Fraternita, KITH, Atena, Harpy Energy, Success Energy e TRD Participações — nos três meses anteriores à recuperação judicial envolve, portanto, ao menos três planos: o do banco como fiador (R$ 6,67 milhões em cartas à Eletrobras); o da subsidiária Daycoval Leasing como adquirente de ativo (o Cessna Citation CJ4, com valor declarado de R$ 42 milhões no RAB); e o do grupo em geral como potencial futuro cessionário de recebíveis das holdings controladoras, por autorização expressa de D.G.W. e Fraternita.
Outro lado
Procurado pela reportagem em 1º de outubro de 2026 com doze perguntas sobre as operações descritas — detalhamento das duas cartas de fiança de 23 de abril, a natureza da contragarantia em CDB resgatado no mesmo dia, o preço efetivo pago pela Daycoval Leasing pelo Cessna Citation CJ4, a eventual existência de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios do grupo comprando recebíveis das empresas do grupo Tradener/Gulin e a totalização de operações ativas entre o banco e as sociedades do grupo em 20 de maio de 2026 e na data atual —, o Banco Daycoval respondeu por meio de sua assessoria de imprensa, em 2 de outubro, com a seguinte declaração: "O Banco Daycoval informa que não comenta situações específicas envolvendo seus clientes." O espaço permanece aberto a eventuais manifestações adicionais, que serão incorporadas a esta reportagem.
A Tradener, procurada pela reportagem, informou por sua assessoria de imprensa não comentar o processo judicial, que é público.
A Centrais Elétricas Brasileiras S.A. (Eletrobras) e a AXIA Energia S.A., titulares dos créditos garantidos pelas duas cartas de fiança, não foram ouvidas para esta reportagem. A administradora judicial da recuperação judicial da Tradener, Guedes e Manocchio Advogados Associados, ainda não examinou individualmente as operações entre o grupo Tradener/Gulin e o Grupo Daycoval em nenhum dos relatórios apresentados aos autos até o fim de setembro de 2026.
Fontes: autos da recuperação judicial da Tradener na 2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba — petição inicial e seus anexos, com as duas cartas de fiança do Banco Daycoval em favor da Eletrobras, a contranotificação da Tradener à AXIA Energia e os extratos bancários da Tradener; decisão de deferimento do processamento da recuperação judicial; e Lista de Credores e Relação de Credores Retificada apresentadas pelas recuperandas. Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB) da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) — histórico de titularidade da aeronave Cessna Citation CJ4, prefixo PP-PGA. Certidões de inteiro teor emitidas pela Junta Comercial do Paraná para PIE-RP Comercializadora de Energia S.A., D.G.W. Participações Ltda e Fraternita Participações Ltda, com as atas de reunião de sócios de 13 de maio de 2026 e as alterações contratuais de 5 de julho de 2024 das duas holdings controladoras da Tradener. Receita Federal (base CNPJ). Formulário de Referência do Banco Daycoval S.A. e laudo de avaliação apresentado à Comissão de Valores Mobiliários sobre o controle da família Dayan. Última atualização: 2 de outubro de 2026.