Nas escolas estaduais do Paraná, há um padrão que passa despercebido no IDEB: quanto menor a proporção de alunos que fazem a prova do SAEB, maior tende a ser a nota da escola. Entre os anos finais do ensino fundamental, as escolas em que menos de 85% dos alunos participaram marcaram, em média, 281 pontos em Matemática — contra 270 nas de participação quase total. No IDEB, a diferença é de 5,9 contra 5,6.
O detalhe decisivo está na aprovação: ela praticamente não muda entre um grupo e outro (fica perto de 99% nos dois). Ou seja, a diferença de nota não vem de as escolas com menos participação ensinarem melhor ou reprovarem menos — vem de quem faz a prova. Onde uma parcela dos alunos não é avaliada, a média reflete apenas os presentes.
Menos alunos na prova, nota um pouco maior
IDEB médio das escolas estaduais de anos finais, por faixa de participação no SAEB. A diferença é modesta — e a taxa de aprovação fica constante (~99%) em todas as faixas.
Edições de 2023 e 2025. Fonte: IDEB e participação por escola (INEP). Análise: Plural.
Esse comportamento é a marca de uma vulnerabilidade conhecida do IDEB. E ela tem uma porta de entrada exata: a regra de participação.
O piso de 80%
O IDEB combina o fluxo (aprovação) com a nota dos alunos no SAEB. Mas o resultado do SAEB só é divulgado para escolas em que pelo menos 80% dos estudantes matriculados fazem a prova. Abaixo disso, a nota é suprimida.
Na prática, isso significa que uma escola pode deixar de fora até um quinto de seus alunos — tendencialmente os que faltam mais, que costumam ser os de menor desempenho — e ainda assim ter uma nota calculada, agora sobre um público mais selecionado.
Nenhuma escola divulgada abaixo de 80%
Escolas estaduais de anos finais por faixa de participação no SAEB, em 2025. O mínimo é exatamente 80%: abaixo disso, o resultado não é publicado.
Fonte: portal Resultados Finais do SAEB (INEP), 1.648 escolas. Análise: Plural.
Os dados mostram o piso funcionando. Entre todas as escolas estaduais com resultado divulgado em 2025, nenhuma teve menos de 80% de participação. Há um pequeno acúmulo colado no limite: 89 escolas ficaram entre 80% e 85%. E cerca de 33 escolas estaduais que tinham a série avaliada ficaram sem nota em 2025, provavelmente por não alcançar o mínimo.
Um efeito real, mas pequeno — e que não explica a alta da rede
É preciso dimensionar o fenômeno com honestidade. A relação entre menor participação e nota maior existe, mas é fraca, e não sustenta o avanço do IDEB estadual — que subiu de forma ampla e, como o Plural mostrou, foi puxado pelas escolas do interior.
No conjunto da rede, queda de participação e alta de nota se comportam como eventos independentes. De 2023 para 2025, a participação caiu em 46% das escolas estaduais e o IDEB subiu em 78%; as duas coisas ao mesmo tempo aconteceram em 36% — exatamente o que a simples coincidência produziria (46% × 78%). Em nenhuma edição anterior o cruzamento superou o esperado pelo acaso. E só 17% das escolas tiveram seu pior ano de participação coincidindo com o melhor de IDEB — abaixo dos ~24% que o acaso geraria.
O impacto na média também é modesto: a proficiência dos anos finais subiu 7,4 pontos entre 2019 e 2025; retirando as escolas em que a participação de fato caiu, o ganho ainda é de 6,5. A alta é da maioria das escolas, não desse grupo.
O padrão se concentra numa minoria
Onde o fenômeno aparece de forma nítida é nos extremos. Entre 2019 e 2025, 137 escolas estaduais de anos finais e 49 de ensino médio combinaram os dois movimentos: a participação caiu (mediana de quase 7 pontos) e as notas de Matemática e Português subiram muito — cerca de 19 pontos cada, com o IDEB avançando perto de um ponto inteiro.
No Colégio Estadual de Papanduva de Cima, em Prudentópolis, o número de alunos que fizeram a prova caiu de 26 para 13 entre 2019 e 2025, a participação recuou de 104% para 81%, e a Matemática subiu 25 pontos — o IDEB foi de 5,6 a 6,6. No Agrônomo Hintz, em Cândido de Abreu, a Matemática saltou 52 pontos. No Geremias Lunardelli, em Grandes Rios, o IDEB passou de 4,5 (com 92% de participação em 2017) para 7,5 (com 80% em 2025), enquanto a matrícula avaliada encolhia de 37 para 20.
O que os dados dizem — e o que não dizem
Nenhum desses números, isolado, comprova que essas escolas selecionaram alunos. Baixa participação também pode ser falta, evasão ou algum problema no dia da prova; e a queda no número de alunos, em muitas escolas, é apenas demográfica — o Paraná tem menos crianças em idade escolar a cada ano.
O que os dados permitem afirmar, com transparência, é isto: no SAEB, quem faz a prova influencia a média, e a regra dos 80% deixa margem para que a nota reflita um público mais selecionado; na rede estadual como um todo, não há sinal de que a alta do IDEB tenha vindo disso; mas existe um grupo minoritário de escolas em que baixa adesão e salto de nota andam juntos de um jeito que merece acompanhamento. Separar, nesse grupo, o que é seleção do que é acaso ou circunstância é uma pergunta que o dado abre — e que só a apuração escola a escola pode fechar.