Uma viagem internacional, a descoberta de uma profissão, o primeiro emprego e até o início de uma vida a dois. Para quem passa anos em uma instituição de ensino, a formação nem sempre termina com a conquista do diploma.
As histórias de Maria Eduarda, André Sampaio, Heloise Fernandes e Alexandre Alves começaram em cursos, cidades e momentos distintos. Há quem tenha ingressado durante a pandemia, quem tenha prolongado o vínculo com a instituição, quem tenha encontrado ali um novo caminho profissional e até quem tenha construído uma família ao longo desse percurso.
Em alguns casos, o curso confirmou uma escolha. Em outros, foram justamente as experiências vividas fora da grade curricular que abriram caminhos não imaginados no momento da matrícula. Projetos de extensão, atividades culturais, intercâmbios, estágios e relações construídas nos campi passaram a fazer parte daquilo que cada um levou da formação.
Entre cursos técnicos e de graduação, os quatro relatos mostram que a passagem pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR) permaneceu como ponto de referência mesmo depois da conclusão dos estudos. Seja na profissão escolhida, nas relações construídas ou nas oportunidades encontradas pelo caminho, parte daquilo que veio depois começou ainda dentro da instituição.
Pinhais, Harvard
Foi já no primeiro ano no IFPR, em 2020, que Maria Eduarda, de 20 anos, começou a procurar o que poderia fazer além das disciplinas disponíveis na sua grade curricular. Era estudante do técnico integrado em Informática no Campus Pinhais, quando passou a integrar o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) e permaneceu ligada ao projeto no restante de sua formação.
Em uma das atividades, participou de uma caminhada pela Linha Preta —projeto que passa por pontos ligados à história negra de Curitiba — a experiência deu origem a um relato apresentado em um seminário de pesquisa e extensão. O trabalho foi reconhecido com premiações na área de diversidade.
O envolvimento não ficou restrito ao núcleo. Maria conta que participava de diferentes projetos e atividades oferecidos pelo campus e, em alguns dias, entrava pela manhã para as aulas e permanecia até a noite envolvida na organização de eventos e outras iniciativas.
A experiência que mais a marcou, porém, aconteceu fora do Brasil. Em 2023, Maria participou de um edital de mobilidade que levou estudantes para Harvard e para o Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Ela jamais havia imaginado que isso seria possível. Para participar, os estudantes desenvolveram trabalhos de impacto social. Foram cerca de oito meses de preparação antes da viagem.
Em solo norte-americano, durante oito dias, o grupo conheceu as universidades e estabeleceu contatos que permanecem mesmo à distância. A experiência também retornou ao próprio IFPR, quando, depois da formação, ela foi convidada a falar sobre a viagem para outros estudantes. “Se hoje eu posso dar um conselho para o pessoal que vai entrar no IFPR é que a instituição dá oportunidade, e que você consegue fazer acontecer”, resume.
O caminho seguido depois do curso aponta que a formação não ficou restrita à informática. Atualmente, Maria trabalha na área comercial de uma empresa de logística e segue utilizando os conhecimentos adquiridos no cotidiano profissional. Sabe, inclusive, que o nome da instituição no currículo contribuiu na contratação.
Ao mesmo tempo, iniciou uma graduação em Psicologia. A mudança das exatas para as humanas não significa, para ela, um rompimento com a experiência anterior. Maria relaciona o interesse pelas áreas sociais justamente ao contato com diferentes temas e projetos durante os anos no IFPR.





Imagens: Arquivo pessoal/Reprodução
Eletrônica, música e o amor pela licenciatura
Quando ingressou no IFPR em 2016, André Sampaio, 24, tinha outro rumo pela frente. Aluno de escola pública durante o ensino fundamental, procurava uma instituição onde pudesse cursar o ensino médio junto de uma formação técnica.
O interesse por tecnologia o levou ao curso integrado em Eletrônica. A mudança, entretanto, exigiu adaptação. André encontrou uma carga de conteúdos maior do que aquela à qual estava acostumado, com atividades no contraturno e dias em que permanecia na instituição durante os dois períodos.
Foi nessa rotina que outra área começou a ganhar espaço. André já tocava violão antes de entrar no IFPR, mas encontrou no campus outros estudantes interessados em música e oportunidades para se apresentar.
A primeira impressão veio antes mesmo das aulas. No dia da matrícula, encontrou estudantes participando do “Muzif”, espaço em que os alunos podiam cantar e tocar. Depois, passou ele próprio a se envolver nas atividades culturais, no grêmio estudantil e em um projeto que reunia estudantes músicos para apresentações dentro e fora do campus.
“Acho que minha trajetória no IFPR me inspirou muito, porque é como se a gente furasse a bolha”, conta André ao recordar o contato com outros estudantes interessados em música. Para ele, aquele ambiente ajudou a ampliar uma vontade que já existia.
No terceiro ano, mesmo sem ter feito cursinho preparatório para o vestibular, decidiu prestar Licenciatura em Música. Passou pelas duas fases do processo seletivo e saiu do ensino médio diretamente para a graduação.
A Eletrônica, que estudou por três anos, não se tornou sua profissão por escolha própria. A música, presente também nas aulas de Artes do IFPR, acabou apontando outro caminho profissional.
Já na universidade, André voltou ao campus onde havia estudado, agora como estagiário da Licenciatura em Música, para dar aulas de Artes. A mudança de posição — de estudante para professor — fez com que passasse a olhar para as dificuldades dos alunos a partir da própria experiência.
Hoje André vive da música, entre aulas e apresentações. E mantém um projeto para o futuro: seguir a formação acadêmica e tentar retornar mais uma vez ao IFPR, desta vez como professor efetivo. “Para mim seria um sonho mesmo voltar e dar aula na instituição que me formou”, afirma.





Imagens: Arquivo pessoal/Reprodução
Uma carreira e uma família construídas no IFPR
Se André encontrou no instituto um caminho para a música, a relação de Heloise Fernandes, 25 anos, com o IFPR começou logo depois do ensino médio e acabou atravessando também sua vida pessoal.
Sem certeza sobre qual profissão seguir e diante da dificuldade de se deslocar diariamente de Campo Largo para estudar em Curitiba, conheceu as opções oferecidas na terra natal durante ações de divulgação dos cursos nas escolas. Ingressou no técnico subsequente em Administração e, depois da formação, seguiu na própria instituição para cursar Licenciatura em Matemática.
Foi também no técnico em Administração que conheceu o homem que se tornaria seu marido, Elnatã dos Santos, 32 anos, que também era estudante do IFPR.
Os dois tiveram o primeiro contato durante uma atividade de integração entre veteranos e calouros. Elnatã estava em uma turma anterior à de Heloise. A aproximação aconteceu algum tempo depois e o relacionamento avançou enquanto ambos mantinham suas trajetórias dentro da instituição.
Elnatã já acumulava uma trajetória pelo IFPR. Ingressou pela primeira vez em 2013, no Técnico em Mecânica. Precisou interromper os estudos enquanto conciliava o curso com o serviço no quartel, mas retornou posteriormente e concluiu a formação em 2015. Depois, ainda passou pelos cursos técnicos em Cerâmica e Administração antes de ingressar na Engenharia Elétrica, em 2020. Concluiu o último curso em 2025.
Heloise, por sua vez, também iniciou a graduação em 2020. Àquela altura, os dois já estavam casados. A rotina recém-iniciada de casamento encontrou quase imediatamente outra mudança: a pandemia e a passagem das atividades acadêmicas para o ensino remoto. “A gente casou num sábado e a aula começava na segunda”, recorda.
Casa nova, rotina nova e duas graduações passaram a fazer parte do cotidiano do casal. Heloise conta que foi um período de sobrecarga, mas também de crescimento pessoal.
Na licenciatura, ela ainda não tinha certeza de que queria ser professora. As dificuldades durante a pandemia chegaram a fazê-la pensar em abandonar o curso. Uma das experiências que contribuíram para a permanência foi a participação no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid).
Na época, as reuniões com professores e os estudos sobre educação aproximaram Heloise da área pedagógica. Depois vieram os estágios e o contato direto com a sala de aula. “Eu gostava da matemática e acabei me vendo na docência”, resume.
Ainda no terceiro ano da graduação, em 2023, começou a lecionar na rede estadual como professora temporária. Acaba de assumir o concurso público do Estado e está em estágio probatório.
Para o casal, a relação com o instituto atravessa, portanto, diferentes momentos da vida. Além dos cursos realizados, foi no IFPR que os dois se conheceram, começaram o relacionamento e passaram parte dos primeiros anos de casamento enquanto construíam suas respectivas carreiras.





Imagens: Arquivo pessoal/Reprodução
Quando a universidade muda e constrói novas vidas
Alexandre Alves, 23, já sabia qual profissão queria seguir antes de chegar ao IFPR. Interessado por desenho, arte e construção desde criança, escolheu Arquitetura e Urbanismo e chegou a iniciar a formação em uma instituição particular.
Em 2021, ingressou no bacharelado em Arquitetura e Urbanismo do Campus Umuarama. Anos depois, já na reta final da graduação, descobriu uma oportunidade que mudaria não apenas parte da formação, mas também a maneira como seria recebido pelo mercado de trabalho. Três anos depois, em 2024, Alexandre foi selecionado para um programa de mobilidade estudantil e passou um semestre em Portugal. Ele e outras duas estudantes estiveram entre os primeiros alunos do Campus Umuarama a participar daquela modalidade de intercâmbio.
A experiência reuniu estudantes brasileiros de diferentes estados e participantes de outros países. Alexandre permaneceu oito meses em Portugal e cursou disciplinas que posteriormente pôde aproveitar na formação no Brasil. “Foi uma coisa incrível, a melhor experiência que eu tive na minha vida”, conta.
A viagem ganhou outro significado quando ele retornou a Umuarama. Em busca de estágio, Alexandre passou a destacar no currículo a experiência internacional. Segundo ele, o resultado apareceu nas entrevistas de emprego. “Coloquei lá no meu currículo e meio que explodiu”, lembra. Ele relata que passou a receber contatos de diferentes escritórios e que a passagem por Portugal frequentemente se tornava assunto durante os processos seletivos.
Depois de uma experiência em escritório de arquitetura, começou a trabalhar com projetos de interiores em uma marcenaria. Foi efetivado após a conclusão da graduação e passou a assumir novas responsabilidades, inclusive acompanhando o trabalho de outros estagiários.
A rede criada a partir da instituição também permaneceu. Alexandre conta que chegou à oportunidade profissional por indicação de outra ex-aluna e que, posteriormente, também procurou estudantes do IFPR quando participou da seleção de novos estagiários.





Imagens: Arquivo pessoal/Reprodução