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Vale-Creche: Curitiba encurta a fila da creche sem dar a vaga

Dois anos e 12 mil famílias chamadas: o Vale-Creche de Curitiba tem 850 crianças em creche e ajuda a encolher a fila artificialmente.

Vale-Creche: Curitiba encurta a fila da creche sem dar a vaga

A Prefeitura de Curitiba credita ao programa Vale-Creche a redução "quase pela metade" da fila por vaga em creche. Mas, dois anos após o lançamento e depois de mais de 12 mil famílias chamadas para o benefício, o número de crianças efetivamente atendidas pelo voucher é, hoje, de 850 — segundo a própria Secretaria Municipal da Educação (SME). É nesse contraste que se enxerga como o programa esvazia a fila no papel sem colocar, na mesma medida, criança dentro da creche.

Criado pela Lei nº 16.492, de março de 2025, o Vale-Creche é um voucher de até R$ 1.000 por mês, pago diretamente à família — e não à escola — para matricular a criança de 0 a 3 anos em uma instituição privada de sua escolha, em caráter transitório até que a rede pública seja ampliada. Ao anunciar o programa, em 26 de março de 2025, a Prefeitura estimou impacto de R$ 49,7 milhões por ano e o atendimento de 3.445 crianças.

O nó está na definição de "atendimento". Em resposta a esta reportagem, a SME afirma que o programa "assegura o atendimento a todas as famílias elegíveis", "eliminando a permanência em filas de espera para os cadastrados que atendem aos critérios". Traduzindo: quando uma família é considerada elegível e chamada para o voucher, ela deixa de ser contada na fila — independentemente de a criança conseguir, ou não, uma vaga. A secretaria é explícita ao dizer que "as famílias só passam a receber o recurso se efetivamente realizarem a matrícula dos filhos em creches privadas". Chamar, portanto, não é atender; mas é o suficiente para sair da conta.

E a distância entre uma coisa e outra é enorme. Nos dois anos do programa, a SME informou ter chamado 12.235 famílias — 5.184 em 2025 e 7.051 em 2026. Dessas, apenas 1.682 chegaram a matricular a criança em escola privada, conforme a secretaria respondeu à Câmara Municipal. E, hoje, o programa mantém 850 crianças em sala. De cada cem famílias convocadas, cerca de sete seguem atendidas pelo voucher. O programa que a Prefeitura projetou para 3.445 crianças atende, agora, um quarto disso — e consome, pelo valor médio que a própria SME informa, de R$ 974,81 por criança, algo próximo de R$ 9,9 milhões por ano, um quinto dos R$ 49,7 milhões anunciados.

A queda que o voucher não explica

Entre abril de 2025, quando a fila girava em torno de 7,1 mil crianças, e fevereiro de 2026, quando um release da Prefeitura anunciou 4.499, a espera encolheu cerca de 2,6 mil crianças. No mesmo intervalo, o Vale-Creche colocou nas creches 1.682 — e mantém 850. Não há como o voucher, sozinho, responder pela redução: ele não matriculou gente suficiente para isso.

Duas outras explicações, que nada têm a ver com criança entrando em creche, dão conta do recuo. A primeira é a própria contabilidade descrita pela SME: ser chamada para o voucher já retira a família da fila, mesmo sem matrícula. As mais de 12 mil convocadas somem da contagem, ainda que só 850 estejam, de fato, numa creche pelo programa. A segunda é a sazonalidade. A fila zera todo início de ano letivo, quando o chamamento anual absorve o cadastro nas matrículas; em fevereiro de 2025, antes de o Vale-Creche sequer existir — o lançamento foi em abril —, a espera já estava em 2.678 crianças. Creditar ao voucher uma queda que o calendário produz sozinho é, no mínimo, impreciso.

Some-se a isso o funil de desistência do próprio programa. Das mais de 12 mil famílias chamadas, a SME registrou, em resposta à Câmara, 8.010 casos como "Contemplação Cancelada por Prazo Expirado" — famílias que não concluíram a matrícula nos 30 dias previstos. É um índice de abandono de dois terços, que convive com a alegação oficial de que o programa "elimina a permanência em filas de espera".

O que diz a Prefeitura

Release da prefeitura sobre suposta redução na fila para a creche. Foto: reprodução SMCS

A SME sustenta que não há fracasso, e sim autonomia. Segundo a secretaria, as famílias elegíveis que não usaram o voucher em 30 dias "não perderam o recurso" e "a qualquer tempo podem decidir pela utilização"; a não efetivação no prazo, diz, "ocorre porque a família tem total autonomia para decidir se aceita o Vale-Creche naquele instante ou se prefere aguardar o chamamento para uma unidade (CMEI/CEI) de sua preferência", mais perto de casa ou do trabalho. "O Município cumpre rigorosamente o seu papel constitucional e administrativo ao disponibilizar o benefício a todas as famílias elegíveis", afirma.

A defesa, porém, esbarra nos próprios documentos. À reportagem, a SME diz que as famílias "não perderam o recurso"; à Câmara, a mesma secretaria classificou 8.010 contemplações como canceladas por prazo expirado — o oposto de um benefício preservado. Há ainda uma divergência entre respostas oficiais sobre o mesmo programa: à Câmara, a SME falou em 11.547 famílias contempladas; à reportagem, em 12.235 chamadas — quase 700 de diferença.

Mas o ponto que sustenta a reportagem é de lógica, antes de ser de número. Não se pode, ao mesmo tempo, dizer que a família "escolheu esperar" — e portanto continua sem vaga, devendo seguir na fila — e creditar ao Vale-Creche a redução dessa mesma fila. Ou a criança foi atendida, ou continua esperando. Ao contar como "atendida" quem apenas foi chamada, o município transforma uma oferta recusada, ou não concluída, em baixa na estatística da espera.

Fila menor, rede privada maior, CMEI parado

O Vale-Creche é a mais nova de três engrenagens que empurram a criança de 0 a 3 anos para a rede privada, ao lado do credenciamento de CEIs contratados — que já consumiu R$ 368,9 milhões desde 2024 — e da rede conveniada. A própria lei do voucher se declara transitória, "até que a rede pública seja ampliada". Enquanto isso, a matrícula em creche na rede municipal direta, os CMEIs, segue estagnada em torno de 16 mil crianças, segundo o Censo Escolar.

A fila, de fato, caiu — do pico de 17,1 mil crianças em novembro de 2022 para a casa dos 5 mil em 2026. Mas caiu comprando vaga na rede privada e reclassificando quem é chamado como quem é atendido, não construindo creche. Pelo cruzamento do Censo do IBGE com o Censo Escolar, esta investigação estima que cerca de 28 mil crianças de 0 a 3 anos estejam fora de qualquer creche em Curitiba — um número muito maior do que a fila oficial admite. E o Vale-Creche, o mais alardeado desses instrumentos, mantém hoje 850 crianças em sala.

Como esta reportagem foi feita

Os dados de execução do Vale-Creche vêm das respostas da SME aos pedidos de informação 062.02235/2025 e 062.01192/2026 e da resposta oficial ao pedido desta reportagem; as datas e os números dos releases foram verificados diretamente em curitiba.pr.gov.br/noticias; a série da fila foi montada a partir de respostas a pedidos de informação e releases entre 2020 e 2026; a estimativa de crianças fora da creche cruza o Censo 2022 do IBGE com o Censo Escolar/Inep; as razões percentuais são cálculos da reportagem sobre os números oficiais.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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