A discussão sobre a implantação do modelo cívico-militar em cinco escolas municipais de Maringá ganhou novos capítulos após reunião realizada na Câmara dos Vereadores que aconteceu na última segunda-feira (10). Marcado por forte contestação de professores e pesquisadores da área da educação, o debate expôs a falta de um diagnóstico detalhado apresentando índices ou critérios técnicos que justificassem a escolha das unidades.
Durante o encontro no Legislativo, a Secretaria Municipal de Educação adotou uma postura evasiva diante dos questionamentos da comunidade, sem detalhar o projeto pedagógico ou os custos reais da medida. Quem compareceu em busca de respostas saiu da sessão com dúvidas sobre a viabilidade da proposta.
Falta de dados e motivação ideológica
Para os especialistas presentes, a ausência de pesquisas sobre violência ou indisciplina nas escolas municipais indica que a pauta responde a interesses ideológicos, e não a uma demanda real do ambiente escolar.
Em entrevista à reportagem, a professora e pesquisadora Verônica Müller criticou a condução do debate e a superficialidade das informações disponibilizadas à população:
"Não está dito em lugar nenhum, fruto de pesquisa, que há um grande problema de segurança ou de indisciplina nas escolas da cidade. O militar não resolve problemas de segurança, ele promove obediência através do medo. A minha única resposta é que isso se dá por questões ideológicas. A secretária diz que está sendo democrática escutando, mas a nível de consulta rasa: sem explicação prévia e sem oferecer conhecimento anterior para que as pessoas possam discutir."
Já o professor Italo Zanelato, também em entrevista à reportagem, reforçou que o debate está sendo conduzido "às cegas" e alertou para os impactos orçamentários do modelo , que no Paraná tem os custos vinculados ao orçamento da própria Secretaria de Educação:
"Nós não temos dados, não há uma pesquisa que diga se essas escolas que estão sendo militarizadas têm problemas de disciplina ou de violência no cotidiano. Por que não fortalecemos rondas com a Guarda Municipal, a intensificação do Proerd ou vigilantes nas portas das escolas, gerando renda para famílias locais? Qual é o debate que se esconde por trás de tudo isso?"
Próximos passos: reuniões técnicas e consulta pública
Apesar das ressalvas levantadas por educadores, a Prefeitura de Maringá deu início à fase de "Validação Territorial" nas cinco escolas pré-selecionadas: Escola Municipal Professor Geraldo Altoé, Joaquim Maria Machado de Assis, Antenor Sanches, Professor Milton Santos e Pastor João Barbosa Macedo.
O processo prevê duas etapas de encontros em cada unidade antes da votação decisiva:
Reuniões com Equipes Pedagógicas: Encontros no período da manhã (às 7h30) para apresentação do modelo.
Reuniões com Famílias: Encontros no período noturno (às 19h), onde a Secretaria de Educação promete apresentar os aspectos pedagógicos, administrativos e legais, além de abrir espaço para esclarecimentos.
Após essa etapa informativa, será realizada uma consulta pública presencial com votação secreta entre pais, responsáveis e profissionais de cada escola. Para que o resultado seja considerado válido, será exigida a participação de mais de 50% do eleitorado habilitado, sendo aprovada a opção ("favorável" ou "contrário") que obtiver maioria simples.
A administração municipal reforça que a realização das reuniões e da consulta pública não garante a implantação automática do modelo cívico-militar, dependendo do quórum e do resultado registrado em ata em cada comunidade escolar.