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Em Curitiba, transporte coletivo atrasou 37% mais no 2º turno do que no sábado anterior — com a mesma frota

Com a mesma frota do sábado, 16,6% dos ônibus de Curitiba atrasaram no 2º turno, contra 12,1% no sábado. Decreto exigia programação de sábado.

Em Curitiba, transporte coletivo atrasou 37% mais no 2º turno do que no sábado anterior — com a mesma frota

O transporte coletivo de Curitiba operou com atrasos 37% maiores no domingo de 2º turno das eleições (25/10) do que no sábado anterior (24/10), apesar de ter colocado praticamente o mesmo número de ônibus na rua. Entre 0h e 16h, 16,6% dos veículos estavam atrasados neste domingo, contra 12,1% no sábado. No pico do movimento das seções eleitorais, ao meio-dia, o descompasso foi ainda maior: 39,5% dos ônibus estavam atrasados — quase o dobro do sábado (21,2%) e índice superior ao do próprio 1º turno (36,2%), em 4 de outubro. O resultado contraria o decreto municipal que determinou "serviço equivalente à programação de sábado" para o dia da eleição e remunerou as empresas concessionárias por isso.


O decreto obrigava sábado — e pagou por sábado

Em 22 de outubro, três dias antes da votação, o prefeito Eduardo Pimentel assinou o Decreto 1750/2026 estabelecendo gratuidade no transporte coletivo no 2º turno. O texto é cópia carbono do Decreto 1598/2026, que valeu para o 1º turno — mudam apenas as datas e o número do protocolo. Dois artigos interessam ao caso:

> "Art. 2º No dia da votação, a URBS – Urbanização de Curitiba S.A. providenciará programação operacional do transporte coletivo de passageiros com serviço equivalente à programação de sábado, a fim de garantir a oferta e frequência compatível com a demanda esperada."

>

> "Art. 4º A remuneração das concessionárias pelos serviços prestados na data de 25 de outubro de 2026 será efetuada pela previsão do custo efetivo compatível com a operação de sábado."

Em outras palavras: Curitiba contratou e pagou um sábado. A pergunta é se recebeu um sábado.

A frota saiu — a performance não

O sistema de monitoramento em tempo real da própria URBS, cedido oficialmente ao Plural, mostra que a parte da oferta foi cumprida. Às 8h do domingo de 2º turno, 532 veículos estavam em circulação — praticamente idêntico ao sábado (522) e ao 1º turno (528), e muito acima do domingo comum de referência (18/10), que teve 340 ônibus na rua na mesma hora. A frota de sábado foi para a rua. Não é um caso, portanto, análogo ao de Salvador — onde o secretário municipal de Transporte teve prisão decretada no 1º turno por manter ônibus na garagem.

O descolamento aparece quando se olha o resultado da operação. Hora a hora, no pico do dia, o atraso do 2º turno é entre 15 e 22 pontos percentuais pior que o do sábado — com a mesma frota:

HoraSábado 24/10Domingo 2º turno
10h8,5%17,1%
11h11,5%33,2%
12h21,2%39,5%
13h16,0%31,7%
14h15,5%23,6%
15h12,8%19,4%

Entre 11h e 13h — pico de deslocamento para as seções eleitorais —, praticamente 1 em cada 3 ônibus da RIT estava fora do horário.

Dois sinais de que o problema é operacional, não de falta de ônibus

Como a frota é equivalente à de sábado, cai de saída a hipótese "domingo tem menos ônibus". Sobram dois caminhos de responsabilização, ambos previstos no próprio decreto, que delegou à URBS, no Art. 5º, "as demais diretrizes operacionais dos serviços de transporte coletivo".

1. Possível tabela errada. Às 6h do 2º turno, 95 veículos (18,3% da frota) estavam adiantados em relação à programação — contra 62 no sábado (12,1%) e 77 no 1º turno. Um volume elevado de veículos adiantados no início do dia é sinal clássico de tabela subdimensionada em relação ao serviço real: o coletor despacha mais ônibus do que o previsto, ou aplica uma tabela de um dia com menos viagens.

2. Impacto das seções eleitorais não foi mitigado. O 1º turno, em 4 de outubro, já havia produzido o mesmo padrão — 36,2% de atraso ao meio-dia, pior que qualquer domingo comum. A URBS tinha três semanas e uma amostra operacional recente para ajustar as diretrizes operacionais que o decreto lhe atribui. No 2º turno, o indicador piorou em vez de melhorar.

Contexto nacional

O comportamento do transporte público no dia da votação virou objeto de atenção do Judiciário federal. Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal adiou o encerramento da votação em outras capitais diante de suspeita de interferência no transporte público. Em Salvador, o secretário municipal de Transporte teve prisão decretada por manter ônibus na garagem no 1º turno. Em Curitiba, a frota saiu — mas o serviço entregue ficou abaixo do que o próprio decreto obriga e paga.

As perguntas que o dado abre

Três pontos ficam em aberto para serem perseguidos nos próximos dias:


Metodologia. Os números deste texto vêm do webservice de monitoramento em tempo real da URBS, cedido oficialmente ao Plural, com coleta própria armazenada em banco de dados. A classificação de "atrasado", "no horário" e "adiantado" é a atribuída pelo sistema da URBS. Os dados do 2º turno (25/10) são parciais, cobrindo das 0h às 16h; os demais dias (4/10, 18/10 e 24/10) contemplam o dia completo. Os Decretos 1750/2026 e 1598/2026 foram consultados no Diário Oficial do Município de Curitiba (edições nº 197, de 22/10/2026, e nº 177, de 30/09/2026, respectivamente).

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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