O transporte coletivo de Curitiba operou com atrasos 37% maiores no domingo de 2º turno das eleições (25/10) do que no sábado anterior (24/10), apesar de ter colocado praticamente o mesmo número de ônibus na rua. Entre 0h e 16h, 16,6% dos veículos estavam atrasados neste domingo, contra 12,1% no sábado. No pico do movimento das seções eleitorais, ao meio-dia, o descompasso foi ainda maior: 39,5% dos ônibus estavam atrasados — quase o dobro do sábado (21,2%) e índice superior ao do próprio 1º turno (36,2%), em 4 de outubro. O resultado contraria o decreto municipal que determinou "serviço equivalente à programação de sábado" para o dia da eleição e remunerou as empresas concessionárias por isso.
O decreto obrigava sábado — e pagou por sábado
Em 22 de outubro, três dias antes da votação, o prefeito Eduardo Pimentel assinou o Decreto 1750/2026 estabelecendo gratuidade no transporte coletivo no 2º turno. O texto é cópia carbono do Decreto 1598/2026, que valeu para o 1º turno — mudam apenas as datas e o número do protocolo. Dois artigos interessam ao caso:
> "Art. 2º No dia da votação, a URBS – Urbanização de Curitiba S.A. providenciará programação operacional do transporte coletivo de passageiros com serviço equivalente à programação de sábado, a fim de garantir a oferta e frequência compatível com a demanda esperada."
>
> "Art. 4º A remuneração das concessionárias pelos serviços prestados na data de 25 de outubro de 2026 será efetuada pela previsão do custo efetivo compatível com a operação de sábado."
Em outras palavras: Curitiba contratou e pagou um sábado. A pergunta é se recebeu um sábado.
A frota saiu — a performance não
O sistema de monitoramento em tempo real da própria URBS, cedido oficialmente ao Plural, mostra que a parte da oferta foi cumprida. Às 8h do domingo de 2º turno, 532 veículos estavam em circulação — praticamente idêntico ao sábado (522) e ao 1º turno (528), e muito acima do domingo comum de referência (18/10), que teve 340 ônibus na rua na mesma hora. A frota de sábado foi para a rua. Não é um caso, portanto, análogo ao de Salvador — onde o secretário municipal de Transporte teve prisão decretada no 1º turno por manter ônibus na garagem.
O descolamento aparece quando se olha o resultado da operação. Hora a hora, no pico do dia, o atraso do 2º turno é entre 15 e 22 pontos percentuais pior que o do sábado — com a mesma frota:
| Hora | Sábado 24/10 | Domingo 2º turno |
|---|---|---|
| 10h | 8,5% | 17,1% |
| 11h | 11,5% | 33,2% |
| 12h | 21,2% | 39,5% |
| 13h | 16,0% | 31,7% |
| 14h | 15,5% | 23,6% |
| 15h | 12,8% | 19,4% |
Entre 11h e 13h — pico de deslocamento para as seções eleitorais —, praticamente 1 em cada 3 ônibus da RIT estava fora do horário.
Dois sinais de que o problema é operacional, não de falta de ônibus
Como a frota é equivalente à de sábado, cai de saída a hipótese "domingo tem menos ônibus". Sobram dois caminhos de responsabilização, ambos previstos no próprio decreto, que delegou à URBS, no Art. 5º, "as demais diretrizes operacionais dos serviços de transporte coletivo".
1. Possível tabela errada. Às 6h do 2º turno, 95 veículos (18,3% da frota) estavam adiantados em relação à programação — contra 62 no sábado (12,1%) e 77 no 1º turno. Um volume elevado de veículos adiantados no início do dia é sinal clássico de tabela subdimensionada em relação ao serviço real: o coletor despacha mais ônibus do que o previsto, ou aplica uma tabela de um dia com menos viagens.
2. Impacto das seções eleitorais não foi mitigado. O 1º turno, em 4 de outubro, já havia produzido o mesmo padrão — 36,2% de atraso ao meio-dia, pior que qualquer domingo comum. A URBS tinha três semanas e uma amostra operacional recente para ajustar as diretrizes operacionais que o decreto lhe atribui. No 2º turno, o indicador piorou em vez de melhorar.
Contexto nacional
O comportamento do transporte público no dia da votação virou objeto de atenção do Judiciário federal. Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal adiou o encerramento da votação em outras capitais diante de suspeita de interferência no transporte público. Em Salvador, o secretário municipal de Transporte teve prisão decretada por manter ônibus na garagem no 1º turno. Em Curitiba, a frota saiu — mas o serviço entregue ficou abaixo do que o próprio decreto obriga e paga.
As perguntas que o dado abre
Três pontos ficam em aberto para serem perseguidos nos próximos dias:
- Qual tabela de horários foi efetivamente aplicada em 25 de outubro — a de sábado, como manda o Art. 2º do Decreto 1750/2026, ou outra?
- Por que o descolamento entre frota disponível e atraso efetivo se repetiu, se o 1º turno já havia dado o alerta?
- Qual o valor pago às concessionárias pela operação do dia e qual a métrica contratual de desempenho exigida nesse pagamento?
Metodologia. Os números deste texto vêm do webservice de monitoramento em tempo real da URBS, cedido oficialmente ao Plural, com coleta própria armazenada em banco de dados. A classificação de "atrasado", "no horário" e "adiantado" é a atribuída pelo sistema da URBS. Os dados do 2º turno (25/10) são parciais, cobrindo das 0h às 16h; os demais dias (4/10, 18/10 e 24/10) contemplam o dia completo. Os Decretos 1750/2026 e 1598/2026 foram consultados no Diário Oficial do Município de Curitiba (edições nº 197, de 22/10/2026, e nº 177, de 30/09/2026, respectivamente).